01 julho 2011

Estupidificação Consentida

A noite já se pôs por trás da minha janela e o frenesim do dia acaba por tranquilizar. Toma agora conta da cidade uma calma que não parece ter fim e que promete a eternidade dos tempos. Lá fora tudo está, aparentemente, adormecido, nada faz compreender a loucura que habita em cada casa. Em todos os cantos, em todas as ruas, em todas as televisões espreita o monstro, a “so called” civilização, no entanto a vida não deixa de sobreviver e o ar revolve-se em espirais em todos os recantos do planeta.
Não há nada que faça prever que amanhã tudo se reiniciará, transformará, renascerá tomando a mesma forma que teve hoje ou ontem e que continuará a ter daqui a um mês.
Não basta dormir em camas refeitas dia após dia, semana após semana numa correria infernal que não termina nunca. Os lençóis de há um mês já estarão devidamente lavados e engomados, arrumados numa qualquer gaveta, mas o cheiro da podridão não desaparecerá nunca. Os vestígios das lágrimas, das mãos, do suor, dos sorrisos, das ansiedades, da dor, do sexo…nunca será desvendado o pudor que esconde cada olhar, cada julgamento, seja qual for o veredicto seremos todos comidos e consumidos consecutivamente, uns atrás dos outros sem nada fazermos para o impedir. E não será, de facto, mais confortável este papel de espectadores passivos que assumimos em frente ao televisor?
E sobreviveremos, ou a noite será um dia tão funda, escura e fria que tudo se desconjuntará, desistirá de tudo para se submeter ao seu triste e esquecido desígnio, o do eterno silêncio e vazio?
Entretanto tudo se vai compondo, tudo se vai remediando, bem ou mal, aqui e ali vamos entretendo os nossos corpos e mentes com aquilo que nos dão, com aquilo que nos deixam ter, com aquilo que achamos que escolhemos, com aquilo que nos impõem numa estupidificação consentida, estremecida, mas nunca, em momento algum questionada.

27 junho 2011

Uma questão de identidade

Às vezes perdemos tudo.
Temos uma tendência, indiscutivelmente humana para destruir tudo, com o mesmo sem à vontade com que construímos esse mesmo tudo.
(Bem, mas esta é outra tertúlia, para outro tempo. Para um dia em que esteja Sol, em que possamos reunir toda a nossa frágil humanidade e chorar sobre a destruição maciça a que nos permitimos, mesmo quando tudo brilha e é aparentemente feliz)

Perdemos canetas, chaves, guarda-chuvas. Preferencialmente, alicia-nos perder coisas pequenas, como isqueiros, pilhas, batons para o cieiro. Perdemos toda uma parafernália de objectos com uma indiferença notável, digna de audiência em lotação esgotada.
O drama, o verdadeiro drama, a cena em que toda a plateia silencia e, não obstante os próximos minutos se perde em auto-suficiência o quanto baste para se permitir à quase ausência de respiração, revela-se quando perdemos, ou preferimos esquecer-nos de encontrar outro tipo de pertences, bem mais obscuros.
Verifica-se uma certa propensão a hierarquizar todo e qualquer tema. Obrigamo-nos a respeitar determinadas regras e enfurecemo-nos quando alguém as contorna.
(Não só quando é contornada, mas principalmente quando sabemos que alguém o ousou e não foi apanhado.)

Esperamos que as regras sejam desrespeitadas mas que sejam sempre colhidos na rede os profanadores. Como se a sanidade mundial estivesse em causa, não descansamos enquanto todos eles não estejam estendidos em praça pública, onde se possa ver o sangue arrebanhado dos criminosos.
Não gostamos de perder malas, carteiras, telemóveis. Martirizamo-nos como se um pedaço muito importante de nós tivesse de repente dado sumiço. Podemos perder tudo, até pessoas estamos dispostos a perder (afinal de contas é o preço da existência, não é?) , só não suportamos perder aquilo que nos identifica, que nos confere um número (para estar tudo muito bem organizadinho) ou um determinado local que, num egoísmo fatal julgamos ser nosso, por direito, no mundo.
Queremos ser sempre tão únicos, sempre e apenas iguais a nós próprios, sempre auto-suficientes, sempre cientes e profundos conhecedores da nossa existência única, inconfundível e intransmissível. A identidade que alguém nos conferiu sem pedir permissão, direito a objecção ou opinião. A identidade que tivermos enquanto quisermos (julgamos nós) , enquanto a merecermos (julgam eles) , enquanto formos dignos dela (julgamos todos).
Rejeitamo-nos terminantemente a aceitar que alguém tenha a distinta lata de contornar tamanha dádiva apenas pelo prazer de questionar, opinar, julgar saber mais que os outros.
Quem ousa ser infeliz nesta sociedade, que tão amavelmente nos acolheu?
Afronta! Cria e educa o monstro que concebeste!
“Temos muitas frases dentro da cabeça, ideias arrumadas, catálogos de vidas perfeitas. Perdemos principalmente as pequenas esperanças, a poeira dos livros guardados na estante, o fim de tarde com sabor a Verão, as sombras dos caminhos…
Perdoem-me, se decido não escolher a vida pela ementa.”

Sobre ser-se mãe

Para se ser mãe é preciso uma quantidade inesgotável de altruísmo. É preciso ser-se paciente e amar todas as insignificancias.
Para se ser mãe é preciso acordar e deitar com um sorriso estampado no rosto, e os dias maus têm forçosamente que deixar de existir.
Temos que agarrar o coração para que não nos caia, e esquecer o que era a vida antes disso.
Para se ser mãe, para o ser realmente, é necessário ter-se um amor á vida desmedido, acreditar na sua eternidade. Acima de tudo, querer essa eternidade.
É preciso saber suspirar e respirar fundo muitas vezes. Não perder as estribeiras, ser-se são e tolerar o intolerável.
Acredito que para se ser mãe seja necessário, em determinadas alturas, não ter um pingo de amor próprio e ter aprendido bem a lição da auto-anulação.
Para se ser mãe é preciso saber esticar as horas, saber-se dormir, desaprender a solidão e aceitar, repetindo muitas vezes, que nada voltará a ser como era antes.
Para se ser mãe não basta gostar da vida ás vezes, sermos felizes ás vezes, sorrirmos de vez em quando. Temos que ser felizes todos os dias, sorrir em cada momento e gostar da vida sempre. Implica olharmo-nos no espelho e saber que estamos a envelhecer muito, a uma velocidade muito para lá do aceitável.
Ser-se mãe não se pode colocar em "pausa" para pensar, chorar ou restabelecer da dor. A dor não tem lugar. Para se ser mãe há que ultrapassar tudo muito rapido e ser-se detentora de uma incrivel força interior.
Para se ser mãe é necessário saber mentir e acreditar nessas mentiras. Não se pode dar parte fraca, não se pode desistir, não se pode mudar de canal nem embebedarmo-nos até à 5ª casa.
Ser-se mãe só a tempo inteiro e só depois de o sermos.
Ser-se mãe só de coração nas mãos e visceras á mostra.

22 junho 2011

Tempo Parado


 Hoje tive a certeza de que não é neste mundo que quero viver.
 Atravessei muitas estradas, comprei cigarros e bebi café.
 Comi bolo de chocolate e passei os olhos, demoradamente, nos transeuntes da rua.
 Liguei a televisão e só vi desgraças, gente deprimida e a solidão jorrou por todos os lados do ecrã. Imaginei todos os velhos e solitários deste mundo fora a serem contaminados por ela e a criarem a ilusão de que, de uma forma distorcida, a televisão lhes devolve os momentos que deixaram parados nos ponteiros do relógio.
 Naveguei nessas ondas sem fim da internet e vi todos os sentimentos e valores trocados: amizade por palavras de remissa, amor por pornografia, cultura por chouriços de encher saco e infancia por bonecos capitalistas.
 Li livros que pediam a atenção e carinho que uma editora se limitou a colocar no mercado em troca de lucro.
 Escrevi o mundo e ninguém me leu. Chorei as lágrimas que ninguém entende. Amaldiçoei as letras e palavras por não as saber conter cá dentro e no entanto, quando libertas, terem o sabor amargo de quem sente velhos e pesados os anos.
 Pela tarde estive com um amigo sábio, um domador do tempo e dos meandros da vida e o que ele me disse, no alto da sua sabedoria foi: A vida é uma mentira. E eu acreditei.
 Acreditei porque em boa verdade, nada nem ninguém até hoje foi capaz de me mostrar o contrário.
 Por isso acredito e afirmo com veemência que este não é o mundo onde eu quero viver, porque o amigo mais sábio que tenho me disse que a vida era uma mentira.
 E é, senão eu não estaria aqui a escrever sobre ela, mas sim sobre o amor, a amizade e o respeito.

18 junho 2011

Segredos Cabeludos

Partimos sempre do mesmo ponto, arremessamos sempre a mesma pedra, escondemos sempre os mais cabeludos segredos e, no fim de contas, é tudo poeira.
            Por detrás daquela janela vivem-se vidas, amarguram-se saudades, levam-se ao limite forças e paciências. Tudo é uma constante ausência gravada nas paredes despidas de memórias, ou talvez despidas dessa grande matéria, a poeira.
            Tudo é sofrimento, amor estrangulado, orgulho ferido.
            Todos os dias se arremessam as mesmas pedras e todos os dias recomeça a quotidiana rotina do silêncio imposto assim, por dá cá aquela palha.
            A toda a hora se sentem estalos, maldições, violência gratuita para os vizinhos intrometidos. Nem é necessário ligar o televisor, tudo está ali, à mão de semear, à distância de escassos metros, de uma campainha que existe mas na qual já ninguém toca.
            No início chamou-se a polícia, a dita autoridade competente para actuar em conformidade com este tipo de situações. Mas diziam os agentes, cuidadosamente fardados e meticulosamente engomados, que era imaginação, que nada de estranho ou anormal se passava daquela porta para dentro.
            Revoltaram-se as beatas, fizeram-se manifestações, arremessaram-se “cocktails molotov”, foi chamado o padre da paróquia, escreveram-se cartas ao Primeiro-ministro. Mas da angustiante casa nem um pio se fez soar, nem um gesto de apelo ou agradecimento.
            Não se compreendia a ingratidão e maldiziam-se os indivíduos em questão.
            O tempo abateu-se sobre os telhados e o Sol pôs-se muitas vezes naquela janela onde se vivem vidas e se amarguram saudades.
            Os vizinhos intrometidos perderam a pica do escândalo, que se foi abafando e gradualmente esquecido.
            Uma certa noite ouviram-se estrondos, gritos, muitas pedras a serem arremessadas e os cabeludos segredos ‘encarecaram-se’. As beatas saíram das suas casas para espreitarem sorrateiramente o sucedido.
            Da porta sempre fechada e da campainha à muito silenciada saiu a mulher com sangue nas mãos, nos olhos, nas pernas e houve quem dissesse que até do peito, rasgado e dilacerado após anos de humilhações á porta fechada.
            Avançou cambaleante até ao pátio e parou bem no centro dos olhares atentos que a fulminavam, perplexos.
            Disse uma única palavra, que mais simples não podia ser, disparou sobre a sua têmpora direita e deixou-se cair ensanguentando a calçada e os demais que estavam próximos da cena do crime.
A última palavra da mulher cambaleante foi:

“Obrigada.”

            Horas depois foi encontrado o corpo do marido, morto, onde estava escrito um bilhete que o seguinte dizia:

“Estou cansada destas danças que faço à nossa volta para ver se sobrevivo e faço o nosso amor valer a pena. Perdoa-me, se disso fores capaz.”

            E no verso do bilhete um provérbio de terras distantes:

“Só porque te matei isso não significa que não te ame ou respeite.”




10 junho 2011

Gostava que me tivesses conhecido

Gostava de te ter conhecido noutro mundo, num sitio bonito com pedras de mármore onde descansar.
Gostava de te ter dito no meio da chuva, que embora não me ouvisses devido ao som das pingas a restolhar no chão, eu estava ali e dizia que gosto de ti.
Gostava que me tivesses conhecido antes de tudo. Antes do desastre, da perdição, do esquecimento, da balburdia. Para que te pudesse mostrar como gosto de sorrisos e em como adoro a minha gargalhada estridente, aquela que tu nunca ouviste porque não te conheci nesse antes do antes sem corda bamba, sem amarras, sem pernas e braços partidos.
Gostava de te ter levado à boleia a conhecer esse mundo fora. De te ter levado ao meio da floresta só para que pudesses tocar a tua guitarra e escutá-la como nunca antes o havias feito, porque o burburinho era infernal.
Gostava de te ter levado a dançar. Gostava que me tivesses conhecido quando todas as minhas horas eram passadas a dançar e em que a musica entrava em mim como uma labareda. Gostava que tivesses visto como antes os meus olhos chispavam vida.
Gostava de te ter explicado que a minha vivência era moldada pela vida em si, que a minha angustia era alimentada pela minha loucura, e que a minha loucura tinha tanto de saudavel como de insane. Só queria bater terreno.
Gostava que me conhecesses quando eu bebia dos olhos das aves e passava tardes encantada a olhá-las demoradamente, a adivinhar-lhes as viagens.
Gostava que me tivesses conhecido quando o amor ainda era bonito, quando tinha tudo para dar e tanto gostava e sabia receber. Quando acreditava na magia dos dias e quando queria salvar o mundo inteiro da solidão, da insatisfação e do caos.
Gostava que me tivesses conhecido menos egoista, menos amarga, menos desesperada, mais feliz.
Gostava de te ter conhecido quando eu ainda amava o mundo todo e julgava ser infeliz.
Gostava que me tivesses conhecido quando o sexo não era só sexo, mas quando o sexo era tão mais que apenas isso. Quando o sexo prometia um dia seguinte com borboletas no estomago e a tranquilidade de se ter tido prazer fosse qual fosse o desfecho.
Gostava que me tivesses conhecido quando eu não acreditava em desfechos.
Gostava que me tivesses conhecido (por hoje é tudo, e já é tanto!). 

Literatura

"Talvez,

pela primeira vez,

deseje que o que escrevi

seja Literatura."

(P.Paixão)