Ás vezes quando vou ao supermercado, ponho-me a ver as pessoas à minha volta a existir. A existir sim, porque a maioria de nós, quando vai ao supermercado, limita-se a existir, afinal de contas quem é que tem paciência para viver por listas de compras, comparações de preços e talões de desconto?
Fico-lhes a adivinhar a vida, a olhar-lhes os olhos encovados e tristes, as corcundas da alma que transparecem através dos sacos pesados, cabelos no rosto e a lingua entre os dentes, como quem faz um esforço muito grande para ganhar a batalha das asas enroladas dos sacos, que teimam em não se colocarem a jeito para serem seguras por dois dedos a fazerem gancho.
São autómatos, criados para desempenharem uma função e que mais não podem pedir do que a promoção dos frescos ás quintas-feira.
Passeiam-se pelos corredores famintos de emoções que escasseiam nos dias, e é por isso que se entusiasmam muito quando uma tabuleta lhes diz que podem levar três pelo preço de dois ou quando o pack dos iogurtes oferecem um copo cheio de cores fluorescentes e um qualquer boneco lhes acena com um ar muito simpático quase como se dissesse: "Eu vou mudar a tua vida, a partir de hoje tudo vai ser diferente!".
As crianças olham para a secção das goluseimas e acreditam piamente que, se puderem convencer os pais cansados e sempre sem tempo para brincadeiras, a comprar-lhas, serão felizes eternamente, e o tal bonequinho diz-lhes a eles: "Vou ser teu amigo para sempre, nunca mais vais ter que brincar com os legos sozinho!".
As senhoras da caixa têm quase sempre um de dois ares. Ou é uma rapariga muito nova, que nos surpreende que tenha já atingido a maioridade, e que está ali para atingir um qualquer sonho que necessita de auxilio financeiro, ou é uma senhora de meia idade, que já demasiado curvada, se limitou a chegar à conclusão de que há sonhos que têm que ser esquecidos e delegados para um segundo plano que pode bem nem sequer existir.
Uma ida ao supermercado é quase como passar o dia na Segurança Social, mas em que tudo está silencioso (ou silenciado).
É a derradeira guerra do dia-a-dia.
Uma guerra que em boa verdade nunca sabemos como ganhar e que muito poucas vezes conseguimos construir uma estratégia suficientemente forte para que a possamos, efectivamente, ganhar.
Valham-nos os talões, os descontos, as promoções, e todas as outras complicações!
Numa amálgama de pessoas comuns, de coisas que se sentem e se querem. Numa fúria e emoção que contorce as visceras e se deixa levar por só mais um pouquinho deste lugar bonito que é a vida, as personagens rendem-se a pequenas evidências, coisas subtis que fazem de nós Gente com Gente Dentro. É um ponto num emaranhado de contos que contam, sem pretensões ou julgamentos, a matéria que tece a realidade, numas vezes crua, dura e amarga, noutras inocente, cuidada, emotiva.
13 julho 2011
...em branco
Uma página em branco é uma coisa assustadora. Parece ridiculo, mas a infinidade de uma folha de papel em branco arrepia-me até aos ossos, aterroriza-me.
Desde pequena que me recordo de, com urgência, desatar aos rabiscos em qualque área em branco que se me fosse apresentada.
É dificil lidar com o terror de não saber o que fazer com o vazio, como preenchê-lo, dar-lhe um sentido. E a pressão é muito mais que muita.
Primeiro o coração começa a bater rápido, desompassadamente. A respiração torna-se ofegante, os olhos não param de percorrer o espaço e as mãos tremem levemente. O cérebro corre, bamboleia, cavalga...
E depois?
Depois nada, que uma folha em branco é uma figura austera, autoritária, merece respeito e nunca me julgo conseguir corresponder ás suas expectativas.
Eventualmente o sono chega e enche-se de pesadelos em que estou sozinha, sem saber o que fazer com uma folha de papel em branco.
Desde pequena que me recordo de, com urgência, desatar aos rabiscos em qualque área em branco que se me fosse apresentada.
É dificil lidar com o terror de não saber o que fazer com o vazio, como preenchê-lo, dar-lhe um sentido. E a pressão é muito mais que muita.
Primeiro o coração começa a bater rápido, desompassadamente. A respiração torna-se ofegante, os olhos não param de percorrer o espaço e as mãos tremem levemente. O cérebro corre, bamboleia, cavalga...
E depois?
Depois nada, que uma folha em branco é uma figura austera, autoritária, merece respeito e nunca me julgo conseguir corresponder ás suas expectativas.
Eventualmente o sono chega e enche-se de pesadelos em que estou sozinha, sem saber o que fazer com uma folha de papel em branco.
Momentos contados pelo calendário do órgão que chora
No inicio é dificil, há que desfazer com muito cuidado os nós para que não se quebrem os fios. alimenta-se a esperança, demora-se mais tempo nas esquinas, perdemos as chaves de casa muitas vezes e há uma constante nuvem de algo indecifrável que nos envolve. torna tudo ambivalente. as contradições tornam-se uma constante. de manhã custa mais abrir os olhos porque sabemos que tudo estará intocável, parado, suspenso (e precisamos com urgência do milagre, daquele).
Depois começamos a pensar com mais clareza, ou na certeza disso empunhamos da espada de papel e queremos enfrentar o mundo inteiro de uma só vez (secretamente julgamo-nos pequenos, cansados, torcidos pelas horas...). queremos á força destruir todos os elos, queremos lá saber se rasgamos algum pedaço de alma crucial para o amanhã!, ninharias, o cérebro vive de muito menos e o coração é um eterno banana (se se quebra, para que precisamos dele? que uso proveitoso pode ter um órgão que chora?). Chamamos á razão a própria razão. temos a certeza absoluta e irrevogável de que estamos no caminho certo.
O mais fácil é apagar os elos. romper com sorrisos, reprimir desejos. parece simples recorrer ao caminho mais confortável, evitar estradas sinuosas. acima de tudo, é importante que ao longo do processo se vá olhando para o espelho como um estranho, com pena, de preferência.
Só no fim se pode voltar ao incio. só depois de matar o virus, ou de o adormecer (porque ele só morre se quiser), podemos, lentamente, regressar aos dias de sol, aos olhos reconheciveis, aos desejos, á compreensão de que tudo tem o seu tempo e a sua glória. só no fim de toda a parvoice da suposta auto-suficiencia (como se por magia nos tivessem injectado com extra-força!!), se podem voltar a tocar os corpos, para perceber que os olhares ainda se encontram mas que já não se espatam. para saber (e querer afirmá-lo) que ainda vai doer, que aquela musica e aquele sitio, que aquela comida e aquele cheiro, que aquele livro e aquela fotografia, ainda vão mexer com o que de mais sagrado pensamos ter, e que qualquer imprudência pode deitar tudo por terra, mas que no entanto, já se pode tocar no sitio onde se escondem os sentimentos sem queimar. e isso... (suspiro&sorriso) é delicioso.
é certo: não somos de vidro (ou manteiga dependendo da perspectiva) nem de ferro. somos de borracha, podemos partir, mas até lá, esticamos, contorcemos, encolhemos e dançamos sobre o nosso próprio corpo. levamo-nos ao extremo. amamos em demasia. somos de borracha.
Depois começamos a pensar com mais clareza, ou na certeza disso empunhamos da espada de papel e queremos enfrentar o mundo inteiro de uma só vez (secretamente julgamo-nos pequenos, cansados, torcidos pelas horas...). queremos á força destruir todos os elos, queremos lá saber se rasgamos algum pedaço de alma crucial para o amanhã!, ninharias, o cérebro vive de muito menos e o coração é um eterno banana (se se quebra, para que precisamos dele? que uso proveitoso pode ter um órgão que chora?). Chamamos á razão a própria razão. temos a certeza absoluta e irrevogável de que estamos no caminho certo.
O mais fácil é apagar os elos. romper com sorrisos, reprimir desejos. parece simples recorrer ao caminho mais confortável, evitar estradas sinuosas. acima de tudo, é importante que ao longo do processo se vá olhando para o espelho como um estranho, com pena, de preferência.
Só no fim se pode voltar ao incio. só depois de matar o virus, ou de o adormecer (porque ele só morre se quiser), podemos, lentamente, regressar aos dias de sol, aos olhos reconheciveis, aos desejos, á compreensão de que tudo tem o seu tempo e a sua glória. só no fim de toda a parvoice da suposta auto-suficiencia (como se por magia nos tivessem injectado com extra-força!!), se podem voltar a tocar os corpos, para perceber que os olhares ainda se encontram mas que já não se espatam. para saber (e querer afirmá-lo) que ainda vai doer, que aquela musica e aquele sitio, que aquela comida e aquele cheiro, que aquele livro e aquela fotografia, ainda vão mexer com o que de mais sagrado pensamos ter, e que qualquer imprudência pode deitar tudo por terra, mas que no entanto, já se pode tocar no sitio onde se escondem os sentimentos sem queimar. e isso... (suspiro&sorriso) é delicioso.
é certo: não somos de vidro (ou manteiga dependendo da perspectiva) nem de ferro. somos de borracha, podemos partir, mas até lá, esticamos, contorcemos, encolhemos e dançamos sobre o nosso próprio corpo. levamo-nos ao extremo. amamos em demasia. somos de borracha.
Monstros
Como podemos salvar-nos do caos?
Da destruição constante e sucessiva a dar-se violentamente todos os minutos?
Como fugir do medo de nada valha assim tanto a pena?
Obrigarmo-nos a sentir a todo o custo, encher de melancolia o peito, não o deixar esvaziar, ficar a marinar o sofrimento até que as lágrimas cheguem finalmente. Incansáveis. Incontroláveis. Imparáveis. Não permanecer, inchar a alma até não restar outra opção senão rebentar.
Sempre me conheci assim, com a violência com que o meu filho rasgou o meu ventre.
Com a angústia por companhia vezes demais. Com demasiado amor pela deambular pelas ruas, a ouvir musica e a enterrar mais um pouco a estaca n alma. Obrigar-me a sofrer, a recordar sempre a tristeza como uma salvação, a depressão como única forma de permanecer sã, a amargura do dia-a-dia como único meio de ver a realidade acontecer.
Fumo cigarros como se a minha (in)sanidade dependesse disso. Não posso, consigo ou quero deixar de o fazer com pena de deixar adormecido o meu impulsionador de criação.
Temo que a estabilidade e a felicidade pousada no ombro me destrua e estou convencida de que se as aceitar, toda a minha capacidade de escrita se perca. Sou um pesadelo. Um monstro que não gosta de bolachas.
Vivo tudo e nada vivo. Sou o fim e o inicio em simultaneo.
Sou um cérebro hiperactivo com medo de deixar sair os monstros para fora de mim.
Da destruição constante e sucessiva a dar-se violentamente todos os minutos?
Como fugir do medo de nada valha assim tanto a pena?
Obrigarmo-nos a sentir a todo o custo, encher de melancolia o peito, não o deixar esvaziar, ficar a marinar o sofrimento até que as lágrimas cheguem finalmente. Incansáveis. Incontroláveis. Imparáveis. Não permanecer, inchar a alma até não restar outra opção senão rebentar.
Sempre me conheci assim, com a violência com que o meu filho rasgou o meu ventre.
Com a angústia por companhia vezes demais. Com demasiado amor pela deambular pelas ruas, a ouvir musica e a enterrar mais um pouco a estaca n alma. Obrigar-me a sofrer, a recordar sempre a tristeza como uma salvação, a depressão como única forma de permanecer sã, a amargura do dia-a-dia como único meio de ver a realidade acontecer.
Fumo cigarros como se a minha (in)sanidade dependesse disso. Não posso, consigo ou quero deixar de o fazer com pena de deixar adormecido o meu impulsionador de criação.
Temo que a estabilidade e a felicidade pousada no ombro me destrua e estou convencida de que se as aceitar, toda a minha capacidade de escrita se perca. Sou um pesadelo. Um monstro que não gosta de bolachas.
Vivo tudo e nada vivo. Sou o fim e o inicio em simultaneo.
Sou um cérebro hiperactivo com medo de deixar sair os monstros para fora de mim.
06 julho 2011
Cinema
há um mundo fora deste mundo. um mundo que não é meu, nem é teu, é inteiramente nosso. esse mundo existe, eu acredito.
um mundo onde fico sentada á sombra de uma árvore e o silencio impera. é para lá que vou agora mesmo, a cavalo, a voar, em cima de uma tartaruga ou agarrada ás escamas de um peixe.
vou, porque neste mundo de onde me sento em frente ao computador, neste preciso momento, só existe ruido, e esse ruido deixa-me louca.
a minha especie de loucura está á beira da extinção, é feita de outra matéria, de uma qualquer outra gosma que não é manufacturada, moldada, manipulada ou impingida. a minha loucura, a minha praia, a minha margem do rio, é aquela que se entranha nas visceras e deixa á mostra as entranhas esquartejadas, o vómito espalhado pela chão e socos no estômago para amansar a fera, demasiado exausta para seguir em frente, e pela impossibilidade de regressar atrás, se quer á força deixar ficar num sitio bonito onde ainda seja possivel descansar.
e esse sitio não é este. este...bem...este é apenas cinema.
um mundo onde fico sentada á sombra de uma árvore e o silencio impera. é para lá que vou agora mesmo, a cavalo, a voar, em cima de uma tartaruga ou agarrada ás escamas de um peixe.
vou, porque neste mundo de onde me sento em frente ao computador, neste preciso momento, só existe ruido, e esse ruido deixa-me louca.
a minha especie de loucura está á beira da extinção, é feita de outra matéria, de uma qualquer outra gosma que não é manufacturada, moldada, manipulada ou impingida. a minha loucura, a minha praia, a minha margem do rio, é aquela que se entranha nas visceras e deixa á mostra as entranhas esquartejadas, o vómito espalhado pela chão e socos no estômago para amansar a fera, demasiado exausta para seguir em frente, e pela impossibilidade de regressar atrás, se quer á força deixar ficar num sitio bonito onde ainda seja possivel descansar.
e esse sitio não é este. este...bem...este é apenas cinema.
04 julho 2011
Evasão
Tive uma amiga, há uns anos atrás, que desaparecia. De vez em quando, quando menos se esperava, ela simplesmente desaparecia. Ausentava-se de tudo, de todos.
No inicio preocupávamo-nos, abanávamo-la, chamávamo-la quase aos gritos, mas ela não cedia nem um milímetro.
Quando tinha a sensação de que estava a desaparecer ela respirava devagar, acendia um cigarro e no segundo seguinte já nós não a sentíamos. Ela era apenas uma imagem, um corpo semi-inanimado de sorriso pespegado no rosto, os olhos muito abertos e brilhantes e o corpo balançava suavemente, como se fosse qual fosse o lugar para onde havia escapado, estivesse a escutar musica e a gostar.
Um dia perguntei-lhe como era esse sítio e ela não foi capaz de me responder, limitou-se a abanar a cabeça e, com o mesmo sorriso de sempre, disse-me: não é longe, mas também não é perto, é assim como ir e não voltar, como se o mundo se partisse em várias pequenas partículas e todas elas fossem feitas da mais leve, embora nítida, sensação de pertença.
Ela era assim, enigmática, imaginativa. Respondia a tudo com esta quantidade de mistério indecifrável mas ao mesmo tempo tão e apenas sua. Era isso que a definia, estar e ser como ela própria imaginava o mundo. Essa capacidade de se evadir para esse local idílico, feito apenas do que ela própria sabia e sentia ser certo. Qualquer coisa digna de se ver.
Houve um dia em que ela não regressou. Estávamos num jardim e o sol brilhava alto. Estava quente e estávamos perto de um daqueles dias quase perfeitos em que sentimos poder recontar toda a nossa história, porque as oportunidades são infinitas.
Quando demos por ela já nem respirava, estava ali sentada, parada no tempo. O sorriso não se havia desvanecido e o vento começou a soprar ao de leve nos cabelos que lhe envolviam o rosto e de onde se descortinavam de forma intermitente os olhos abertos e como sempre, a brilhar, qual estrela estática no firmamento.
Foi impossível cerrar-lhe os olhos, no velório quiseram fechar-lhe o caixão para que não chocasse as pessoas. Foi um dos dias mais tristes da minha vida, vê-la partir.
Depois tudo se precipitou, as ruas ficaram mais curtas e estreitas, o frio era mais seco e intenso, as conversas tornaram-se forçadas e as noites serviam única e exclusivamente para nos embebedar-nos até à quinta casa.
Toda aquela energia quase cósmica, em que tudo se conjugava numa perfeição quase louca, mas tão real, sincera e honesta havia desaparecido. Eram tristes todos os dias.
Acabei por ficar obcecada pela ideia de descobrir o local da evasão da minha amiga, mas nada ajudava. As drogas deixavam-me simplesmente pedrada e o meu cérebro entorpecido, os sítios para onde viajava eram cheios de coisas estranhas, de pessoas disformes e da voz dela a dizer-me “como se todo o mundo se partisse em pequenas partículas”. Eventualmente acabei por me tornar na maior toxicodependente de que há memoria e com o tempo tudo se esfumou e acabei por perecer num beco escuro de uma qualquer rua deste mundo, sempre em busca do paraíso do olhar da minha amiga.
Esta historia não tem qualquer fundamente ou objectivo, é só e apenas uma historia acerca de alguém que me ensinou que podemos condensar tantos mundos e tantas perfeições (ou imagens que criamos delas) dentro de nós que acabamos por nos perder dentro delas. Elas tornam-se a nossa própria essência.
Eu não sei que mundo era esse para o qual a minha amiga se evadia, se calhar, e o mais provável, era que ela simplesmente fosse diferente de todos nós, que talvez devesse ter sido medicada, que alguém, nalgum dia, talvez a devesse ter obrigado a sair daquele transe e a regressar para junto de nós, que éramos reais e a apreciávamos tanto. Mas para que serviria isso, toda essa violência contra a sua própria forma de ser feliz? Estaríamos a criar um monstro ou alguém eternamente deprimido caso a tivéssemos puxado desse sonho que se tornou a sua vida? Nunca o saberemos, mas a minha convicção é que o estaríamos por certo a fazer.
Talvez, e só talvez, se eu tivesse buscado a minha própria forma de escapar, o meu paraíso, o meu local de encontro, pudesse ter encontrado um jardim cheio de flores, sol a queimar a pele e uma cascata ao fundo, com violinos sempre a tocar ao longe, e não uma rua fria e suja, onde quis á força tornar meu o paraíso de outra pessoa e acabei por encontrar uma agulha espetada no braço, espuma a sair-me da boca e a voz de um homem a dizer: então boneca? Vamos brincar?, enquanto eu ainda tive força para abrir os olhos e ver-lhe a língua, qual labareda, a percorrer-lhe os lábios e os dentes podres.
Talvez eu também pudesse ter morrido com um sorriso nos lábios e os olhos tão abertos e brilhantes que podiam certamente engolir o mundo inteiro de uma única assentada.
No inicio preocupávamo-nos, abanávamo-la, chamávamo-la quase aos gritos, mas ela não cedia nem um milímetro.
Quando tinha a sensação de que estava a desaparecer ela respirava devagar, acendia um cigarro e no segundo seguinte já nós não a sentíamos. Ela era apenas uma imagem, um corpo semi-inanimado de sorriso pespegado no rosto, os olhos muito abertos e brilhantes e o corpo balançava suavemente, como se fosse qual fosse o lugar para onde havia escapado, estivesse a escutar musica e a gostar.
Um dia perguntei-lhe como era esse sítio e ela não foi capaz de me responder, limitou-se a abanar a cabeça e, com o mesmo sorriso de sempre, disse-me: não é longe, mas também não é perto, é assim como ir e não voltar, como se o mundo se partisse em várias pequenas partículas e todas elas fossem feitas da mais leve, embora nítida, sensação de pertença.
Ela era assim, enigmática, imaginativa. Respondia a tudo com esta quantidade de mistério indecifrável mas ao mesmo tempo tão e apenas sua. Era isso que a definia, estar e ser como ela própria imaginava o mundo. Essa capacidade de se evadir para esse local idílico, feito apenas do que ela própria sabia e sentia ser certo. Qualquer coisa digna de se ver.
Houve um dia em que ela não regressou. Estávamos num jardim e o sol brilhava alto. Estava quente e estávamos perto de um daqueles dias quase perfeitos em que sentimos poder recontar toda a nossa história, porque as oportunidades são infinitas.
Quando demos por ela já nem respirava, estava ali sentada, parada no tempo. O sorriso não se havia desvanecido e o vento começou a soprar ao de leve nos cabelos que lhe envolviam o rosto e de onde se descortinavam de forma intermitente os olhos abertos e como sempre, a brilhar, qual estrela estática no firmamento.
Foi impossível cerrar-lhe os olhos, no velório quiseram fechar-lhe o caixão para que não chocasse as pessoas. Foi um dos dias mais tristes da minha vida, vê-la partir.
Depois tudo se precipitou, as ruas ficaram mais curtas e estreitas, o frio era mais seco e intenso, as conversas tornaram-se forçadas e as noites serviam única e exclusivamente para nos embebedar-nos até à quinta casa.
Toda aquela energia quase cósmica, em que tudo se conjugava numa perfeição quase louca, mas tão real, sincera e honesta havia desaparecido. Eram tristes todos os dias.
Acabei por ficar obcecada pela ideia de descobrir o local da evasão da minha amiga, mas nada ajudava. As drogas deixavam-me simplesmente pedrada e o meu cérebro entorpecido, os sítios para onde viajava eram cheios de coisas estranhas, de pessoas disformes e da voz dela a dizer-me “como se todo o mundo se partisse em pequenas partículas”. Eventualmente acabei por me tornar na maior toxicodependente de que há memoria e com o tempo tudo se esfumou e acabei por perecer num beco escuro de uma qualquer rua deste mundo, sempre em busca do paraíso do olhar da minha amiga.
Esta historia não tem qualquer fundamente ou objectivo, é só e apenas uma historia acerca de alguém que me ensinou que podemos condensar tantos mundos e tantas perfeições (ou imagens que criamos delas) dentro de nós que acabamos por nos perder dentro delas. Elas tornam-se a nossa própria essência.
Eu não sei que mundo era esse para o qual a minha amiga se evadia, se calhar, e o mais provável, era que ela simplesmente fosse diferente de todos nós, que talvez devesse ter sido medicada, que alguém, nalgum dia, talvez a devesse ter obrigado a sair daquele transe e a regressar para junto de nós, que éramos reais e a apreciávamos tanto. Mas para que serviria isso, toda essa violência contra a sua própria forma de ser feliz? Estaríamos a criar um monstro ou alguém eternamente deprimido caso a tivéssemos puxado desse sonho que se tornou a sua vida? Nunca o saberemos, mas a minha convicção é que o estaríamos por certo a fazer.
Talvez, e só talvez, se eu tivesse buscado a minha própria forma de escapar, o meu paraíso, o meu local de encontro, pudesse ter encontrado um jardim cheio de flores, sol a queimar a pele e uma cascata ao fundo, com violinos sempre a tocar ao longe, e não uma rua fria e suja, onde quis á força tornar meu o paraíso de outra pessoa e acabei por encontrar uma agulha espetada no braço, espuma a sair-me da boca e a voz de um homem a dizer: então boneca? Vamos brincar?, enquanto eu ainda tive força para abrir os olhos e ver-lhe a língua, qual labareda, a percorrer-lhe os lábios e os dentes podres.
Talvez eu também pudesse ter morrido com um sorriso nos lábios e os olhos tão abertos e brilhantes que podiam certamente engolir o mundo inteiro de uma única assentada.
01 julho 2011
Estupidificação Consentida
A noite já se pôs por trás da minha janela e o frenesim do dia acaba por tranquilizar. Toma agora conta da cidade uma calma que não parece ter fim e que promete a eternidade dos tempos. Lá fora tudo está, aparentemente, adormecido, nada faz compreender a loucura que habita em cada casa. Em todos os cantos, em todas as ruas, em todas as televisões espreita o monstro, a “so called” civilização, no entanto a vida não deixa de sobreviver e o ar revolve-se em espirais em todos os recantos do planeta.
Não há nada que faça prever que amanhã tudo se reiniciará, transformará, renascerá tomando a mesma forma que teve hoje ou ontem e que continuará a ter daqui a um mês.
Não basta dormir em camas refeitas dia após dia, semana após semana numa correria infernal que não termina nunca. Os lençóis de há um mês já estarão devidamente lavados e engomados, arrumados numa qualquer gaveta, mas o cheiro da podridão não desaparecerá nunca. Os vestígios das lágrimas, das mãos, do suor, dos sorrisos, das ansiedades, da dor, do sexo…nunca será desvendado o pudor que esconde cada olhar, cada julgamento, seja qual for o veredicto seremos todos comidos e consumidos consecutivamente, uns atrás dos outros sem nada fazermos para o impedir. E não será, de facto, mais confortável este papel de espectadores passivos que assumimos em frente ao televisor?
E sobreviveremos, ou a noite será um dia tão funda, escura e fria que tudo se desconjuntará, desistirá de tudo para se submeter ao seu triste e esquecido desígnio, o do eterno silêncio e vazio?
Entretanto tudo se vai compondo, tudo se vai remediando, bem ou mal, aqui e ali vamos entretendo os nossos corpos e mentes com aquilo que nos dão, com aquilo que nos deixam ter, com aquilo que achamos que escolhemos, com aquilo que nos impõem numa estupidificação consentida, estremecida, mas nunca, em momento algum questionada.
Não há nada que faça prever que amanhã tudo se reiniciará, transformará, renascerá tomando a mesma forma que teve hoje ou ontem e que continuará a ter daqui a um mês.
Não basta dormir em camas refeitas dia após dia, semana após semana numa correria infernal que não termina nunca. Os lençóis de há um mês já estarão devidamente lavados e engomados, arrumados numa qualquer gaveta, mas o cheiro da podridão não desaparecerá nunca. Os vestígios das lágrimas, das mãos, do suor, dos sorrisos, das ansiedades, da dor, do sexo…nunca será desvendado o pudor que esconde cada olhar, cada julgamento, seja qual for o veredicto seremos todos comidos e consumidos consecutivamente, uns atrás dos outros sem nada fazermos para o impedir. E não será, de facto, mais confortável este papel de espectadores passivos que assumimos em frente ao televisor?
E sobreviveremos, ou a noite será um dia tão funda, escura e fria que tudo se desconjuntará, desistirá de tudo para se submeter ao seu triste e esquecido desígnio, o do eterno silêncio e vazio?
Entretanto tudo se vai compondo, tudo se vai remediando, bem ou mal, aqui e ali vamos entretendo os nossos corpos e mentes com aquilo que nos dão, com aquilo que nos deixam ter, com aquilo que achamos que escolhemos, com aquilo que nos impõem numa estupidificação consentida, estremecida, mas nunca, em momento algum questionada.
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