Se existe uma raça que eu não suporto, esta tem que pertencer à raça dos actores.
Sempre prontos, sempre adoráveis, sorridentes, amorosos e cultos. Sempre tão bem informados de tudo que até mete medo.
[e o brilho nos olhos dos actores...onde é que já se viu ter-se aquele brilho nos olhos?]
Detesto-os. Sempre que a minha vida, acidentalmente, se cruzou com um que ficou tudo virado do avesso. Mudei sempre de opinião. Passei do extremo de lhes detestar as rugas do rosto, até à loucura de lhes adorar os movimentos, a forma como são capazes de transformar aquilo que não está, numa coisa banal tão unicamente possivel, tão incontestavelmente palpavel.
Quando os actores sentem alguma coisa ela parece que lhes é cuspida pelos olhos, que os envolve uma aurea de infinitas possibilidades e os sonhos mortos ressuscitam [não miraculosamente, qual banha da cobra de 3 tostões] como se não fizesse sentido que fosse de outra forma.
Têm a confiança de quem há muito aprendeu a dominar a arte da ludibriação e rejubilam com as infinitas formas e modos com que conseguem convencer alguém de que tudo aquilo que era certo, não, é uma erro. Crasso.
Os actores obrigam-nos a querer saber mais, a descobrir a arte de encorporar toda uma outra vida e personalidade num piscar de olhos.
[e vêem.vêem como ninguém]
Quando olham para nós, quero dizer, quando olham directamente para nós, é como se nos despissem e nos perscrutassem a alma. Descobrem-nos todos os podres, arrasam-nos.
São seres pacientes, cheios da manha de uma criança de 5 anos. São seres perigosos porque uma vez que entrem
[qual furacão]
na nossa vida, não desaparecem até que tenham arrebanhado de nós todas as verdades e certezas.
Quando um actor diz:
hoje estas muito bonita!
pode querer dizer todas essas palavras, tecê-las letra por letra, e ainda assim juntar-lhes tantas outras que eles acham que nuncaa iremos saber quais são.
Roubam-nos as verdades mas não permitem que as suas sejam roubadas.
São criaturas às tantas egoístas. Criaturas vampiras. Julgam conhecer-nos e a verdade é que o mais provavel é que conheçam.
È mais provavel, aliás, que nos conheçam desde o primeiro momento em que nos puseram a vista em cima e nós
[a passar estrada fora do sinal, a beber café, a fumar cigarros, a pensar que somos impenetráveis].
E eles ali, silenciosos, pacientes, a verem-nos e saberem de cor a cor do nosso cabelo, a saberem melhor que nós que se passámos a estrada fora do sinal foi porque tinhamos a cabeça estatica num palco qualquer que nos aceitasse os defeitos, as cicatrizes e os lados errados do coração, porque afinal de contas... seria apenas teatro.
Numa amálgama de pessoas comuns, de coisas que se sentem e se querem. Numa fúria e emoção que contorce as visceras e se deixa levar por só mais um pouquinho deste lugar bonito que é a vida, as personagens rendem-se a pequenas evidências, coisas subtis que fazem de nós Gente com Gente Dentro. É um ponto num emaranhado de contos que contam, sem pretensões ou julgamentos, a matéria que tece a realidade, numas vezes crua, dura e amarga, noutras inocente, cuidada, emotiva.
12 outubro 2011
11 outubro 2011
Cântico Negro (de J.Régio)
"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
07 outubro 2011
De quantas ruínas se constrói o ser humano?
Quão vazia pode uma pessoa estar? Durante quanto tempo?
Quantas estradas serão necessárias até que seja preenchido o buraco que os anos de abandono provocaram?
De quantos erros nos podemos arrepender? Existe um limite?
Quanta vida pode alguém desperdiçar enquanto procura desesperadamente um rumo, um sentido?
Pode alguém desejar o fim e ao mesmo tempo, implorar para que seja salvo?
Como se afoga a cabeça e se deixa o resto do corpo à tona, à espera de um vislumbre de um caminho digno de percorrer?
Quantos enganos suporta a alma humana? Quais enganos? Serão enganos?
Quanto sexo é aceitável? Como saber que já chega? Quanto do sexo pode ser amor, e quanto desse amor pode ser efectivamente real?
De quantas frustrações vive o ser humano?
A vida, escolhemo-la ou é ela que nos escolhe a nós? Escolhemo-la ou vivêmo-la?
Somos naufragos, naufrágios ou toda uma cadeia de afogamentos?
Quantos atropelamentos e fuga podemos suportar? Quantos deles devemos aceitar? Quantos esquecer (e como), e quantos guardar dentro de nós?
De quantas mutilações pode alguém ser vitima? Será vitima? Quererá sê-lo? Ou tornar-se-á vitima sendo o agressor?
Quantos anos vale a vida humana? Existe uma média, uma justa média para que se possa dizer que já chega? Serão 60, 70...100? Ou 10, 20...40? Quem o dita, quem bate o martelo e afirma que ainda é cedo (ou já é demasiado tarde) para descontinuar o produto?
Porque se excedem todos os limites e ainda assim ninguém se dá por satisfeito?
Quantas desculpas pode alguém ter para acabar com tudo? E para continuar? Caberão todas elas na balança, terão realmente algum peso na decisão final? Serão lógicas e ponderadas ou tomadas no calor do momento (e não serão estas ultimas as mais honestas?)
Seremos assim tão importantes e valiosos ao ponto de nos julgarmos a raça soberana?
Não serão os outros, os "irracionais", soberanos em nosso lugar? Não terão eles mais anos, mais experiencia, mais valores que todos nós juntos e enroscados num edificio de 100 andares?
Em quantos escombros nos podemos esconder?
Saberemos fazer um real balanço da nossa existencia, sem falsas pretensões ou parcialidades?
Poderemos salvar-nos do caos, ou é ele quem nos salva a nós?
Somos descartáveis, e sabendo disso queremos à força a eternidade da memória?
Quão exaustos e totalmente vencidos nos podemos sentir após tantas questões sem resposta? Queremos sabê-las de facto, as respostas? Ou serão elas mais uma desculpa sem argumento?
Digam-me, queremos a luta ou, em determinados dias, precisamos apenas de um sitio para descansar?
"De quantas ruinas se constrói o ser humano?"
Quantas estradas serão necessárias até que seja preenchido o buraco que os anos de abandono provocaram?
De quantos erros nos podemos arrepender? Existe um limite?
Quanta vida pode alguém desperdiçar enquanto procura desesperadamente um rumo, um sentido?
Pode alguém desejar o fim e ao mesmo tempo, implorar para que seja salvo?
Como se afoga a cabeça e se deixa o resto do corpo à tona, à espera de um vislumbre de um caminho digno de percorrer?
Quantos enganos suporta a alma humana? Quais enganos? Serão enganos?
Quanto sexo é aceitável? Como saber que já chega? Quanto do sexo pode ser amor, e quanto desse amor pode ser efectivamente real?
De quantas frustrações vive o ser humano?
A vida, escolhemo-la ou é ela que nos escolhe a nós? Escolhemo-la ou vivêmo-la?
Somos naufragos, naufrágios ou toda uma cadeia de afogamentos?
Quantos atropelamentos e fuga podemos suportar? Quantos deles devemos aceitar? Quantos esquecer (e como), e quantos guardar dentro de nós?
De quantas mutilações pode alguém ser vitima? Será vitima? Quererá sê-lo? Ou tornar-se-á vitima sendo o agressor?
Quantos anos vale a vida humana? Existe uma média, uma justa média para que se possa dizer que já chega? Serão 60, 70...100? Ou 10, 20...40? Quem o dita, quem bate o martelo e afirma que ainda é cedo (ou já é demasiado tarde) para descontinuar o produto?
Porque se excedem todos os limites e ainda assim ninguém se dá por satisfeito?
Quantas desculpas pode alguém ter para acabar com tudo? E para continuar? Caberão todas elas na balança, terão realmente algum peso na decisão final? Serão lógicas e ponderadas ou tomadas no calor do momento (e não serão estas ultimas as mais honestas?)
Seremos assim tão importantes e valiosos ao ponto de nos julgarmos a raça soberana?
Não serão os outros, os "irracionais", soberanos em nosso lugar? Não terão eles mais anos, mais experiencia, mais valores que todos nós juntos e enroscados num edificio de 100 andares?
Em quantos escombros nos podemos esconder?
Saberemos fazer um real balanço da nossa existencia, sem falsas pretensões ou parcialidades?
Poderemos salvar-nos do caos, ou é ele quem nos salva a nós?
Somos descartáveis, e sabendo disso queremos à força a eternidade da memória?
Quão exaustos e totalmente vencidos nos podemos sentir após tantas questões sem resposta? Queremos sabê-las de facto, as respostas? Ou serão elas mais uma desculpa sem argumento?
Digam-me, queremos a luta ou, em determinados dias, precisamos apenas de um sitio para descansar?
"De quantas ruinas se constrói o ser humano?"
05 outubro 2011
Mutila-me
Anda, destrona-me, humilha-me, quebra-me, bate-me, morde-me, come-me as entranhas e deixa à mostra os órgãos para que todos os vejam.
Assina o teu nome na minha pele. Assim, eu mostro-te: cortas e espetas na carne, depois vais desenhando com cuidado as letras do teu nome até que se vejam bem os golpes e a tua identidade orgulhosa do feito.
Anda, mostra-me do que és capaz.
Pisa-me o ventre com força, espeta os teus dedos nos meus olhos. Cega-me, deixa que não veja, mostra alguma misericordia, sê um monstro gentil, com hábitos antigos de ternura.
Isso, sim. Sussurra-me ao ouvido em dialeto de milénios a grande cabra que eu sou. Insulta-me, faz-me chorar.
Não te surpreenderia que pedisse por mais, pois não?
Abomina-me e pontapeia-me. Grita-me e pergunta muitas vezes porquê.
Agora sim, estamos a chegar lá, repete o meu nome até que ele não faça sentido, esquece-te de mim, e de ti.
Maltrata-me até que o meu rosto te seja irreconhecível. Pendura-me numa àrvore enquanto ainda estou viva, e dança sob a chuva quente do meu sangue.
Ainda assim desiludes-me. Continuas a perguntar porquê e sabes a resposta. Anda, não sejas ingénuo, sabes bem que fui eu quem criou o monstro em que te tornaste.
Irrita-te. Revolta-te. Destrói tudo até que se vejam as emoções, até que o que sentimos seja palpavel.
Sim, só agora, meu amor, me vais ouvir dizer que te amo.
Assina o teu nome na minha pele. Assim, eu mostro-te: cortas e espetas na carne, depois vais desenhando com cuidado as letras do teu nome até que se vejam bem os golpes e a tua identidade orgulhosa do feito.
Anda, mostra-me do que és capaz.
Pisa-me o ventre com força, espeta os teus dedos nos meus olhos. Cega-me, deixa que não veja, mostra alguma misericordia, sê um monstro gentil, com hábitos antigos de ternura.
Isso, sim. Sussurra-me ao ouvido em dialeto de milénios a grande cabra que eu sou. Insulta-me, faz-me chorar.
Não te surpreenderia que pedisse por mais, pois não?
Abomina-me e pontapeia-me. Grita-me e pergunta muitas vezes porquê.
Agora sim, estamos a chegar lá, repete o meu nome até que ele não faça sentido, esquece-te de mim, e de ti.
Maltrata-me até que o meu rosto te seja irreconhecível. Pendura-me numa àrvore enquanto ainda estou viva, e dança sob a chuva quente do meu sangue.
Ainda assim desiludes-me. Continuas a perguntar porquê e sabes a resposta. Anda, não sejas ingénuo, sabes bem que fui eu quem criou o monstro em que te tornaste.
Irrita-te. Revolta-te. Destrói tudo até que se vejam as emoções, até que o que sentimos seja palpavel.
Sim, só agora, meu amor, me vais ouvir dizer que te amo.
O Escritor (de J.L.Peixoto)
ele disse não sei porque escrevo o teu nome.
eu olhei para ele. eu disse o meu nome não
é tudo o que podes escrever.
ele escrevia o meu nome num papel. ele sentava-se
numa cadeira e o luar era a luz de um candeeiro
sobre as palavras escritas
ele disse amo-te.
ele disse tenho medo que um dia deixe de poder
escrever o teu nome. eu disse o meu nome não
é tudo o que podes escrever.
ele escreveu o meu nome durante muitos anos.
e eu perguntei porque continuas a escrever
o meu nome? ele olhou para mim. e perguntou
quem és tu?
eu olhei para ele. eu disse o meu nome não
é tudo o que podes escrever.
ele escrevia o meu nome num papel. ele sentava-se
numa cadeira e o luar era a luz de um candeeiro
sobre as palavras escritas
ele disse amo-te.
ele disse tenho medo que um dia deixe de poder
escrever o teu nome. eu disse o meu nome não
é tudo o que podes escrever.
ele escreveu o meu nome durante muitos anos.
e eu perguntei porque continuas a escrever
o meu nome? ele olhou para mim. e perguntou
quem és tu?
03 outubro 2011
só não te perdoo que tenhas tido que me matar
Se, por algum acaso, já sabes para o que vim, porque continuas a cravar as tuas unhas na parede imóvel e estatica de casa?
Se sabes que não te posso tocar, porque insistes em abraçar o vento em busca do meu corpo?
Sabendo que não te respondo, porque me perguntas onde estou?
Se sabes, que até ao meu ultimo suspiro te amei, porque continuas a pedir-me perdão?
Dentro de mim guardo o carinho da hora em que me mataste. Foste agressivo, no entanto terno, soubeste colocar em cada golpe que desferias no meu corpo todo o amor que sei que sentias por mim.
Não me debati, digo-te, porque sabia que o que pretendias era alguma da tranquilidade que o que sentias por mim não te deixava ter, procuravas libertação, não raiva ou abandono.
Não continues nesse lamento histerico, não abraces a minha campa, é fria, dura e eu já lá não estou.
Vim só para te dizer adeus, porque quando me visitas, não consigo deixar de me comover com o quão preso tens estado à minha memoria.
Vim só para dizer adeus, porque mesmo depois de morta, quero com todas as forças que sejas feliz e gostava, se mo permitires, que me deixasses ficar-te na memória, para que permaneças na minha como o ponto de interrogação que sempre foste e quiseste ser. Não deixes que a minha morte às tuas mãos te guie no sentido contrário. O sentido contrario só te conduz para mais longe de mim.
Perdoo-te tudo, sempre o fiz. Só não te perdoo que tenhas tido que me matar para compreenderes que afinal me amavas e que hoje te tenhas esvaziado de tal modo que ficaste com a alma cheia de nadas.
Se sabes que não te posso tocar, porque insistes em abraçar o vento em busca do meu corpo?
Sabendo que não te respondo, porque me perguntas onde estou?
Se sabes, que até ao meu ultimo suspiro te amei, porque continuas a pedir-me perdão?
Dentro de mim guardo o carinho da hora em que me mataste. Foste agressivo, no entanto terno, soubeste colocar em cada golpe que desferias no meu corpo todo o amor que sei que sentias por mim.
Não me debati, digo-te, porque sabia que o que pretendias era alguma da tranquilidade que o que sentias por mim não te deixava ter, procuravas libertação, não raiva ou abandono.
Não continues nesse lamento histerico, não abraces a minha campa, é fria, dura e eu já lá não estou.
Vim só para te dizer adeus, porque quando me visitas, não consigo deixar de me comover com o quão preso tens estado à minha memoria.
Vim só para dizer adeus, porque mesmo depois de morta, quero com todas as forças que sejas feliz e gostava, se mo permitires, que me deixasses ficar-te na memória, para que permaneças na minha como o ponto de interrogação que sempre foste e quiseste ser. Não deixes que a minha morte às tuas mãos te guie no sentido contrário. O sentido contrario só te conduz para mais longe de mim.
Perdoo-te tudo, sempre o fiz. Só não te perdoo que tenhas tido que me matar para compreenderes que afinal me amavas e que hoje te tenhas esvaziado de tal modo que ficaste com a alma cheia de nadas.
02 outubro 2011
Violada
Antes de tudo sentia percorrer-lhe um tremor. Um tremor que saía do peito e cavalgava pelos órgãos fora.
Batia o pé com toda a força que lhe restava e mordia os lábios, queria expulsar aquela onda e ela parava.
Sentia-a outra vez, mais perto, mais forte. Mudava de pé, prendia o olhar no horizonte e reprimia a raiva. Engolia-a. Comia-a. Devorava-a.
O coração esmurrava-lhe o peito, espancava-lhe a existencia. E ela sempre sem desistir, a bater ainda com mais força com os pés no chão. Juntou-lhes as mãos na demanda, entrelaçou-as uma na outra e cravou-lhes as unhas com furia.
O tremor quase a chegar-lhe aos lábios, sentia-o passar lentamente no pescoço e quase a segredar-lhe aos ouvidos. Sacudiu-os e sentiu-os humidos. não compreendia porquê até sentir uma gota escarlate respingar-lhe nas pernas despidas. Eram as mãos, sangrava.
Rasgou um bocado da saia, ou o que tinha restado dela, e embrulhou os dedos. Deixou-se ficar um bom bocado a observar o tecido claro tomar o tom avermelhado do sangue, julgou por instantes gostar daquilo que via. Sabia-o dela o sangue, ainda dela aquele sangue.
Sossegou os pés e a cabeça descaiu mais um pouco, as forças esvaiam-se como que sugadas demoradamente.
Os olhos pousaram no que horas antes tinha sido a sua roupa interior e dentro da cabeça um grito. Um grito ensurdecedor, suplicante, dorido, amordaçado.
Sentia na boca alguns dos seus cabelos arrancados. Na barriga marcas de mãos. Não as dela.
O tremor a voltar e ela quase a desistir. Quase a querer que chegue rápido aos olhos, mas no ultimo instante a recuar e a deixar-se ficar no pescoço onde ainda tinha as alças do soutien amarradas.
Largou o tecido que lhe envolvia os dedos e quis percorrer o corpo semi-nu, saber o que restava dele, quem sabe reconhecer-lhe a anca, a cintura, as costas, o sexo.
Só ardor. Ardor e pisaduras. Pisaduras e feridas. Feridas e mais sangue.
Percorreu o peito ao de leve e sentiu fogo a queimar-lhe a pele. Fogo e medo. Medo e vergonha.
O tremor chegou por fim aos lábios e com ele sussuros que não controlava, soluços, pequenos apelos, suplicas quase silenciosas.
Deixou que lhe chegasse às palpebras e quando por fim chegou, sentiu uma nova gota restolhar-lhe na palma da mão ensanguentada.
Uma gota límpida, translucida, fresca, quase cheia de ternura. Quis certificar-se e levou-a à boca, salgada. Uma lágrima, a primeira lágrima. A unica coisa que não lhe roubaram, que era tão somente sua e que tinha conseguido reprimir dentro até agora. Uma lágrima.
Sorriu.
Depois fechou os olhos, deixou-se cair pesadamente sobre o lajedo e não gritou quando a cabeça embateu violentamente no chão.
Deixou que as lágrimas se misturassem com o sangue e morreu com a secreta esperança de que algures, houvesse alguém à sua espera num sitio qualquer, que lhe devolvesse a identidade, a alma, a dignidade e
a existencia.
Batia o pé com toda a força que lhe restava e mordia os lábios, queria expulsar aquela onda e ela parava.
Sentia-a outra vez, mais perto, mais forte. Mudava de pé, prendia o olhar no horizonte e reprimia a raiva. Engolia-a. Comia-a. Devorava-a.
O coração esmurrava-lhe o peito, espancava-lhe a existencia. E ela sempre sem desistir, a bater ainda com mais força com os pés no chão. Juntou-lhes as mãos na demanda, entrelaçou-as uma na outra e cravou-lhes as unhas com furia.
O tremor quase a chegar-lhe aos lábios, sentia-o passar lentamente no pescoço e quase a segredar-lhe aos ouvidos. Sacudiu-os e sentiu-os humidos. não compreendia porquê até sentir uma gota escarlate respingar-lhe nas pernas despidas. Eram as mãos, sangrava.
Rasgou um bocado da saia, ou o que tinha restado dela, e embrulhou os dedos. Deixou-se ficar um bom bocado a observar o tecido claro tomar o tom avermelhado do sangue, julgou por instantes gostar daquilo que via. Sabia-o dela o sangue, ainda dela aquele sangue.
Sossegou os pés e a cabeça descaiu mais um pouco, as forças esvaiam-se como que sugadas demoradamente.
Os olhos pousaram no que horas antes tinha sido a sua roupa interior e dentro da cabeça um grito. Um grito ensurdecedor, suplicante, dorido, amordaçado.
Sentia na boca alguns dos seus cabelos arrancados. Na barriga marcas de mãos. Não as dela.
O tremor a voltar e ela quase a desistir. Quase a querer que chegue rápido aos olhos, mas no ultimo instante a recuar e a deixar-se ficar no pescoço onde ainda tinha as alças do soutien amarradas.
Largou o tecido que lhe envolvia os dedos e quis percorrer o corpo semi-nu, saber o que restava dele, quem sabe reconhecer-lhe a anca, a cintura, as costas, o sexo.
Só ardor. Ardor e pisaduras. Pisaduras e feridas. Feridas e mais sangue.
Percorreu o peito ao de leve e sentiu fogo a queimar-lhe a pele. Fogo e medo. Medo e vergonha.
O tremor chegou por fim aos lábios e com ele sussuros que não controlava, soluços, pequenos apelos, suplicas quase silenciosas.
Deixou que lhe chegasse às palpebras e quando por fim chegou, sentiu uma nova gota restolhar-lhe na palma da mão ensanguentada.
Uma gota límpida, translucida, fresca, quase cheia de ternura. Quis certificar-se e levou-a à boca, salgada. Uma lágrima, a primeira lágrima. A unica coisa que não lhe roubaram, que era tão somente sua e que tinha conseguido reprimir dentro até agora. Uma lágrima.
Sorriu.
Depois fechou os olhos, deixou-se cair pesadamente sobre o lajedo e não gritou quando a cabeça embateu violentamente no chão.
Deixou que as lágrimas se misturassem com o sangue e morreu com a secreta esperança de que algures, houvesse alguém à sua espera num sitio qualquer, que lhe devolvesse a identidade, a alma, a dignidade e
a existencia.
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