"o dia em que o meu avô morrer vai ser um dos dias mais tristes da minha vida", dizia eu sem nunca acreditar realmente que ele iria um dia, efectivamente, morrer.
Foi há quase um ano e há quase um ano que conto os meses a partir desse quase um ano, como se a vida, como que por magia, tivesse começado nesse dia.
Desde há um ano que os meses, as semanas e as horas têm o peso da morte, sempre o peso da morte e da ausencia, sempre a secreta esperança de que há um ano não tenha acontecido. na verdade foi há quase um ano como poderia ter sido ontem ou há 5 anos, o vazio que ficou é igualmente sem fundo, irremediavel e inacreditavel.
- Bom dia gilette azul!
a voz dele a cantar à porta do quarto para nos acordar para ir para a praia. quando era miuda tinha sempre muito sono, um sono terrivel. só acordava realmente após a segunda chamada e o sono era substituido pelo cheiro das torradas acabadas de fazer e pela excitação de ir fazer pães-de-açucar, jogar às raquetes e nadar até à bóia, sabê-lo sempre ali, forte, confiante, seguro, quase indestrutivel!
depois, com o tempo e as manias de adolescente, a voz dele era quase um incomodo, quase um despertador que me irritava, a ressaca a latejar na cabeça e o meu corpo a recusar-se, a não querer saber dos pães-de-açucar ou das raquetes, a não ter forças para nadar até à bóia, a vê-lo sempre como um porto seguro, onde poderia regressar sempre que quisesse.
(não imaginava ainda como me enganava, como nos enganamos sempre tanto quando somos adolescentes e tomamos o mundo por garantido)
juro, se ele hoje
- Bom dia gillete azul!
eu me comovia tanto, que me comovia até às mais profundas lágrimas. tenho a certeza, se ele voltar, eu volto a adorar pães-de-açucar. juro que nado com ele até á bóia e seguro-lhe na mão com tanta força que há quase um ano não existiu, prometo que não aconteceu, e perdoo-lhe, a serio que o perdoo pela brincadeira de mau gosto (onde é que já se viu desaparecer assim durante quase um ano, sem dar noticias, sem o cheiro das torradas, sem a nitida sensação de segurança inabalável).
foi há quase um ano, e durante esse ano aconteceu uma vida inteira: a empresa insolveu-se, a avó ficou irremediavelmente triste, a minha irmã ficou noiva, o meu pai foi e voltou de Angola, eu tentei suicidar-me, editei um livro e apaixonei-me. e no entanto, foi tudo há quase um ano, há meses... tudo, no dia de hoje é contado pelos meses que vão pesando mais e mais no misterio do desaparecimento do meu avô, e podia ter sido ontem ou há 5 anos que queria dizer exactamente a mesma coisa.
se voltares, avô, prometo que te deixo orgulhoso de mim, prometo que jogo contigo à bola.
é que sabes, o meu filho sabe de cor a história da tua morte e sempre que a conta fica tudo suspenso, na secreta esperança de te ver chegar, porque convenhamos, uma criança quando conta uma história ela não pode nunca ser ter sido real, é sempre um conto de fadas, uma mentira, uma negação.
"o dia em que o meu avô morrer vai ser um dos dias mais tristes da minha vida", e foi, e é. e daqui a quase um ano continuará a ser.
se não voltares, avô, juro que há quase um ano será um dos dias mais tristes da minha vida.
Numa amálgama de pessoas comuns, de coisas que se sentem e se querem. Numa fúria e emoção que contorce as visceras e se deixa levar por só mais um pouquinho deste lugar bonito que é a vida, as personagens rendem-se a pequenas evidências, coisas subtis que fazem de nós Gente com Gente Dentro. É um ponto num emaranhado de contos que contam, sem pretensões ou julgamentos, a matéria que tece a realidade, numas vezes crua, dura e amarga, noutras inocente, cuidada, emotiva.
28 outubro 2011
22 outubro 2011
Quanta vida queres?
Quanta vida queres?
Uma que dure muitos anos...poucos?
Uma que seja intensa, cheia de medos, incertezas, trambolhões no empedrado... sorrisos pendurados no estendal da roupa, o toque que arrepia de quem se ama, o turbilhão que é sentir-se tanto que se julga que o coração há-de martelar-nos no peito até que saia fora, até que o seguremos com as proprias mãos, até que sangre varanda abaixo e deixe finalmente de bater?
[ou]
Uma tranquila, sem grandes sobressaltos, a escolher amar aquilo que é bom para nós e a sabermos perfeitamente que isso nunca se assemelhará, nem de perto nem de longe, a amar verdadeiramente, mas que ainda assim, a felicidade de remissa nos deixa tão mais seguros, estáveis, sossegados?
Quanta vida queres?
Nem todos vão compreender,aceitar, nem tão pouco gostar, mas perdendo aquilo que nos define, aquilo que nos permite fazer essa distinção, perdemos o direito à escolha mais importante de toda a nossa vida:
Afinal de contas, quanta é a vida que queremos?
Uma que dure muitos anos...poucos?
Uma que seja intensa, cheia de medos, incertezas, trambolhões no empedrado... sorrisos pendurados no estendal da roupa, o toque que arrepia de quem se ama, o turbilhão que é sentir-se tanto que se julga que o coração há-de martelar-nos no peito até que saia fora, até que o seguremos com as proprias mãos, até que sangre varanda abaixo e deixe finalmente de bater?
[ou]
Uma tranquila, sem grandes sobressaltos, a escolher amar aquilo que é bom para nós e a sabermos perfeitamente que isso nunca se assemelhará, nem de perto nem de longe, a amar verdadeiramente, mas que ainda assim, a felicidade de remissa nos deixa tão mais seguros, estáveis, sossegados?
Quanta vida queres?
Nem todos vão compreender,aceitar, nem tão pouco gostar, mas perdendo aquilo que nos define, aquilo que nos permite fazer essa distinção, perdemos o direito à escolha mais importante de toda a nossa vida:
Afinal de contas, quanta é a vida que queremos?
20 outubro 2011
Cerebro hiperactivo ou O vazio do pensamento
passam-se as escadas, as entradas dos prédios, os cafés crivados de gente, as salas de cinema a prometerem finais felizes. passam-se as casas, os pinhais, a Dona Maria a vender flores na esquina. passam-se os caracóis a dormir preguiçosamente ao sol, as rosas vermelhas, foge-se das abelhas e dos lagartos, passam-se as estradas e os carros, os jardins.
acena-se ao Sr. Joaquim do talho, à Clarinha a brincar ao pião, ao João e ao Pedro a trocar cromos, ao Carlos da mercearia, à Sra da papelaria de quem nunca soubemos o nome (só o sorriso).
Cai a noite do lado de lá cidade, gosta-se do rio, quieto, quase parado, quase a esquecer que dentro taínhas, latas de sumo, estacas, pacotes de Matutano e preservativos. gosta-se do rio á superficie, julgam-se-lhe peixes coloridos, pedras macias, algas entrelaçadas num jogo de verdes de perder de vista.
caminha-se na margem, pisa-se a calçada [agora uma carica que faz "crsh" e depois uma beata que não faz barulho nenhum], pensa-se pouco, quase nada. Gosta-se do branco tão branco dentro da cabeça, detesta-se o burburinho dos carros e das buzinas.
Na madrugada quer-se um bar cheio de musica e corpos a dançar. Quer-se um fino bem sacado para ajudar à secura. Quer-se a musica alta, muito mais alta, tão mais alta. Quer-se esquecer, embriagar, confundir, julgar que não e logo a seguir que sim. Quer-se a gargalhada lá ao fundo, quer-se descobrir o rosto da gargalhada, quer-se muito, mas ele foge. acaba-se a gargalhada, acaba-se o fino.
acaba-se outro fino e outro que tal, encontra-se a gargalhada caída no chão. come-se a gargalhada e depois disso mais nada, que o cerebro já está cansado de não pensar em nada. que o cerebro está cansado de passar, de fugir, de acenar, de julgar, de querer e de acabar. depois disso fica a gargalhada pendurada nos lábios, a gargalhada roubada, a gargalhada caída no chão.
acena-se ao Sr. Joaquim do talho, à Clarinha a brincar ao pião, ao João e ao Pedro a trocar cromos, ao Carlos da mercearia, à Sra da papelaria de quem nunca soubemos o nome (só o sorriso).
Cai a noite do lado de lá cidade, gosta-se do rio, quieto, quase parado, quase a esquecer que dentro taínhas, latas de sumo, estacas, pacotes de Matutano e preservativos. gosta-se do rio á superficie, julgam-se-lhe peixes coloridos, pedras macias, algas entrelaçadas num jogo de verdes de perder de vista.
caminha-se na margem, pisa-se a calçada [agora uma carica que faz "crsh" e depois uma beata que não faz barulho nenhum], pensa-se pouco, quase nada. Gosta-se do branco tão branco dentro da cabeça, detesta-se o burburinho dos carros e das buzinas.
Na madrugada quer-se um bar cheio de musica e corpos a dançar. Quer-se um fino bem sacado para ajudar à secura. Quer-se a musica alta, muito mais alta, tão mais alta. Quer-se esquecer, embriagar, confundir, julgar que não e logo a seguir que sim. Quer-se a gargalhada lá ao fundo, quer-se descobrir o rosto da gargalhada, quer-se muito, mas ele foge. acaba-se a gargalhada, acaba-se o fino.
acaba-se outro fino e outro que tal, encontra-se a gargalhada caída no chão. come-se a gargalhada e depois disso mais nada, que o cerebro já está cansado de não pensar em nada. que o cerebro está cansado de passar, de fugir, de acenar, de julgar, de querer e de acabar. depois disso fica a gargalhada pendurada nos lábios, a gargalhada roubada, a gargalhada caída no chão.
19 outubro 2011
Enquanto a cafeteira derrama o leite
Vivia num daqueles apartamentos pequeninos, mas acolhedores de Alfama. Tinha vários canteiros de flores no varadim e vasos espalhados por toda a cozinha onde, com orgulho, plantava ervas aromáticas.
Profissão não a tinha, tinha um trabalho que lhe preenchia quase todas as horas, menos aquelas que passava no jardim junto à Feira da Ladra, onde se deliciava com as reliquias que os vendedores, sempre simpáticos, lhe mostravam, quais tesouros. Dizia recorrentemente que não tinha profissão porque dela não advinham grandes lucros financeiros, em oposição a ter o trabalho de expelir a alma todos os dias para folhas de papel que lhe valiam o suficiente para se sentir quase feliz, quase realizada, quase despida, quase, sempre quase a ficar vazia de emoções.
Naquela manhã, como em todas as outras, acordou e, enquanto o leite aquecia na cafeteira, sentou-se na mesa de madeira e ficou a admirar-lhe os veios entrelaçados com o fumo do cigarro que fazia questão de fumar em jejum (sempre tinha gostado da tontura matinal que provocava a nicotina quando lhe entrava no sistema).
Teve tempo para pensar em tudo, pensou que devia deixar de fumar, que devia de deixar de beber café. Que devia fazer uma visita à avó no lar com Alzheimer, que não a reconheceria. Que devia ligar à mãe e perguntar-lhe como estavam os cães, à irmã para saber do seu emprego precário e do casamento à porta que a entediava de morte. Devia fazer um telefonema ao irmão, saber-lhe as novidades da viagem que havia começado há um ano na Tailandia e que se tinha prolongado por tempo indefinido. Devia ir ao cemitério, deixar uma flor na campa do pai e vir-se embora muito rápido antes que as lágrimas lhe devorassem os olhos. Pensou ainda que devia ter mais cuidado com a alimentação, que devia comer sempre três refeições por dia e que antes de dormir devia levar para a mesinha de cabeceira um copo de leite.
O som da cafeteira a chiar deixou-lhe os pensamentos em suspenso. Leite por tudo quanto era sitio, a escorrer pelo fogão e a deixar no ar aquele cheiro horrivel. Enquanto se deixou ficar a olhar para aquela bagunça toda a olhá-la com ar ameaçador, permitiu-se voltar á enumeração de todas as coisas que devia fazer.
Devia comprar uma televisão, uma qualquer, desde que tivesse 70 canais e acesso ao canal de que tinha ouvido falar, que passava 24 sobre 24 horas o ultimo reality show que andava nas bocas de toda a gente. Devia comprar uns sapatos altos, muito altos, daqueles que deixam as mulheres incrivelmente elegantes mas tão dolorosamente magoadas e cheias de gretas nos pés. Devia ir a um Centro Comercial e ficar a passear entre montras, mostrar-me maravilhada com os saldos e sentir-se tentada a gastar muito dinheiro numa única saia. Devia aceitar o pedido de casamento do Diogo, vestir-se de branco e jurar em frente a um deus em quem não acredita, que aquela é a pessoa com quem quer passar o resto da sua vida, na pobreza e na riqueza, na saude e na doença. Devia deixar de escrever, ter uma vida melhor, quem sabe ser até uma pessoa melhor se o fizesse, gostar mais da vida que tinha, se deixasse de escrever.
Viu-se portanto entre a espada e a parede. Limpou o leite derramado e tomou a maior decisão da sua vida.
Amarrou um cachecol ao candeeiro da sala e saltou em direcção à carpete, onde os seus pés não voltaram a tocar.
No mesmo dia muitas pessoas receberam a mesma mensagem telefónica deixada no atendedor de chamadas, mãe, irmã, irmão, Diogo e até o coveiro a pegarem no telefone e junto ao ouvido, baixinho:
"è isto que eu tenho a dizer em relação àquilo em que vocês me querem transformar"
Profissão não a tinha, tinha um trabalho que lhe preenchia quase todas as horas, menos aquelas que passava no jardim junto à Feira da Ladra, onde se deliciava com as reliquias que os vendedores, sempre simpáticos, lhe mostravam, quais tesouros. Dizia recorrentemente que não tinha profissão porque dela não advinham grandes lucros financeiros, em oposição a ter o trabalho de expelir a alma todos os dias para folhas de papel que lhe valiam o suficiente para se sentir quase feliz, quase realizada, quase despida, quase, sempre quase a ficar vazia de emoções.
Naquela manhã, como em todas as outras, acordou e, enquanto o leite aquecia na cafeteira, sentou-se na mesa de madeira e ficou a admirar-lhe os veios entrelaçados com o fumo do cigarro que fazia questão de fumar em jejum (sempre tinha gostado da tontura matinal que provocava a nicotina quando lhe entrava no sistema).
Teve tempo para pensar em tudo, pensou que devia deixar de fumar, que devia de deixar de beber café. Que devia fazer uma visita à avó no lar com Alzheimer, que não a reconheceria. Que devia ligar à mãe e perguntar-lhe como estavam os cães, à irmã para saber do seu emprego precário e do casamento à porta que a entediava de morte. Devia fazer um telefonema ao irmão, saber-lhe as novidades da viagem que havia começado há um ano na Tailandia e que se tinha prolongado por tempo indefinido. Devia ir ao cemitério, deixar uma flor na campa do pai e vir-se embora muito rápido antes que as lágrimas lhe devorassem os olhos. Pensou ainda que devia ter mais cuidado com a alimentação, que devia comer sempre três refeições por dia e que antes de dormir devia levar para a mesinha de cabeceira um copo de leite.
O som da cafeteira a chiar deixou-lhe os pensamentos em suspenso. Leite por tudo quanto era sitio, a escorrer pelo fogão e a deixar no ar aquele cheiro horrivel. Enquanto se deixou ficar a olhar para aquela bagunça toda a olhá-la com ar ameaçador, permitiu-se voltar á enumeração de todas as coisas que devia fazer.
Devia comprar uma televisão, uma qualquer, desde que tivesse 70 canais e acesso ao canal de que tinha ouvido falar, que passava 24 sobre 24 horas o ultimo reality show que andava nas bocas de toda a gente. Devia comprar uns sapatos altos, muito altos, daqueles que deixam as mulheres incrivelmente elegantes mas tão dolorosamente magoadas e cheias de gretas nos pés. Devia ir a um Centro Comercial e ficar a passear entre montras, mostrar-me maravilhada com os saldos e sentir-se tentada a gastar muito dinheiro numa única saia. Devia aceitar o pedido de casamento do Diogo, vestir-se de branco e jurar em frente a um deus em quem não acredita, que aquela é a pessoa com quem quer passar o resto da sua vida, na pobreza e na riqueza, na saude e na doença. Devia deixar de escrever, ter uma vida melhor, quem sabe ser até uma pessoa melhor se o fizesse, gostar mais da vida que tinha, se deixasse de escrever.
Viu-se portanto entre a espada e a parede. Limpou o leite derramado e tomou a maior decisão da sua vida.
Amarrou um cachecol ao candeeiro da sala e saltou em direcção à carpete, onde os seus pés não voltaram a tocar.
No mesmo dia muitas pessoas receberam a mesma mensagem telefónica deixada no atendedor de chamadas, mãe, irmã, irmão, Diogo e até o coveiro a pegarem no telefone e junto ao ouvido, baixinho:
"è isto que eu tenho a dizer em relação àquilo em que vocês me querem transformar"
17 outubro 2011
cada vez tenho mais medo das crianças
cada vez tenho mais medo das crianças.
são criaturas sábias mas sem autonomia. roubam-nos todas as comoções, arrancam de nós aquilo que temos de melhor, têm vozes de anjos e convencem-nos das maiores barbaridades de que a nossa civilização se lembrou de inventar.
olham-nos com aqueles olhos pequeninos e sabem exactamente aquilo em que pensamos retirando tudo o que é acessório e deixando à mostra só aquilo que realmente importa. medo, cansaço, perdição, desilusão. sabem-nos tudinho, as crianças e nós nunca sabemos nada delas.
são perigosas, fazem-nos querer ter mais e deixam-nos à beira de um ataque de panico por sabermos que elas merecem tão mais do que aquilo que lhes podemos oferecer.
é um crime grande, as crianças. são as maiores criminosas, as crianças, porque matam, roubam, e cometem todos os crimes da alma num unico olhar, só através do toque são capazes de nos virar o mundo de pantanas e de nos fazer chorar muito.
logo nós, que nunca choramos. logo nós, que nunca amamos. logo nós, que nunca nos apaixonamos.
é facil...basta existir uma criança por perto que nos amoleça o coração para que tudo aquilo que pensámos ter por certo seja uma mentira redobrada.
logo nós, que nos julgavamos impenetráveis.
cada vez tenho mais medo das crianças porque as amo. e o amor é uma coisa da qual se tem medo.
são criaturas sábias mas sem autonomia. roubam-nos todas as comoções, arrancam de nós aquilo que temos de melhor, têm vozes de anjos e convencem-nos das maiores barbaridades de que a nossa civilização se lembrou de inventar.
olham-nos com aqueles olhos pequeninos e sabem exactamente aquilo em que pensamos retirando tudo o que é acessório e deixando à mostra só aquilo que realmente importa. medo, cansaço, perdição, desilusão. sabem-nos tudinho, as crianças e nós nunca sabemos nada delas.
são perigosas, fazem-nos querer ter mais e deixam-nos à beira de um ataque de panico por sabermos que elas merecem tão mais do que aquilo que lhes podemos oferecer.
é um crime grande, as crianças. são as maiores criminosas, as crianças, porque matam, roubam, e cometem todos os crimes da alma num unico olhar, só através do toque são capazes de nos virar o mundo de pantanas e de nos fazer chorar muito.
logo nós, que nunca choramos. logo nós, que nunca amamos. logo nós, que nunca nos apaixonamos.
é facil...basta existir uma criança por perto que nos amoleça o coração para que tudo aquilo que pensámos ter por certo seja uma mentira redobrada.
logo nós, que nos julgavamos impenetráveis.
cada vez tenho mais medo das crianças porque as amo. e o amor é uma coisa da qual se tem medo.
14 outubro 2011
deixa que te diga, antes que as luzes se apaguem e caiam as cortinas...
és egocentrico, pseudo-intelectual, egoista e julgas que tens o rei na barriga.
embrulhas o que dizes em coisas que não fazem sentido algum para ninguém a não ser para ti proprio. pensas que vives do que amas, esqueceste que já não é possivel viver-se do que ama. ama-se aquilo do que se vive e com alguma sorte, as coincidencias ditam que os dois conceitos se encontrem algures a meio caminho.
sim, vou deixar que o que sinto cresça livremente dentro de mim, e tu nunca saberás que isto é sobre ti, e que isto que sinto não é, nem de perto nem de longe alguma coisa que se assemelhe, nem levemente, a ódio.
embrulhas o que dizes em coisas que não fazem sentido algum para ninguém a não ser para ti proprio. pensas que vives do que amas, esqueceste que já não é possivel viver-se do que ama. ama-se aquilo do que se vive e com alguma sorte, as coincidencias ditam que os dois conceitos se encontrem algures a meio caminho.
sim, vou deixar que o que sinto cresça livremente dentro de mim, e tu nunca saberás que isto é sobre ti, e que isto que sinto não é, nem de perto nem de longe alguma coisa que se assemelhe, nem levemente, a ódio.
12 outubro 2011
Actores ou Os saltimbancos da alma
Se existe uma raça que eu não suporto, esta tem que pertencer à raça dos actores.
Sempre prontos, sempre adoráveis, sorridentes, amorosos e cultos. Sempre tão bem informados de tudo que até mete medo.
[e o brilho nos olhos dos actores...onde é que já se viu ter-se aquele brilho nos olhos?]
Detesto-os. Sempre que a minha vida, acidentalmente, se cruzou com um que ficou tudo virado do avesso. Mudei sempre de opinião. Passei do extremo de lhes detestar as rugas do rosto, até à loucura de lhes adorar os movimentos, a forma como são capazes de transformar aquilo que não está, numa coisa banal tão unicamente possivel, tão incontestavelmente palpavel.
Quando os actores sentem alguma coisa ela parece que lhes é cuspida pelos olhos, que os envolve uma aurea de infinitas possibilidades e os sonhos mortos ressuscitam [não miraculosamente, qual banha da cobra de 3 tostões] como se não fizesse sentido que fosse de outra forma.
Têm a confiança de quem há muito aprendeu a dominar a arte da ludibriação e rejubilam com as infinitas formas e modos com que conseguem convencer alguém de que tudo aquilo que era certo, não, é uma erro. Crasso.
Os actores obrigam-nos a querer saber mais, a descobrir a arte de encorporar toda uma outra vida e personalidade num piscar de olhos.
[e vêem.vêem como ninguém]
Quando olham para nós, quero dizer, quando olham directamente para nós, é como se nos despissem e nos perscrutassem a alma. Descobrem-nos todos os podres, arrasam-nos.
São seres pacientes, cheios da manha de uma criança de 5 anos. São seres perigosos porque uma vez que entrem
[qual furacão]
na nossa vida, não desaparecem até que tenham arrebanhado de nós todas as verdades e certezas.
Quando um actor diz:
hoje estas muito bonita!
pode querer dizer todas essas palavras, tecê-las letra por letra, e ainda assim juntar-lhes tantas outras que eles acham que nuncaa iremos saber quais são.
Roubam-nos as verdades mas não permitem que as suas sejam roubadas.
São criaturas às tantas egoístas. Criaturas vampiras. Julgam conhecer-nos e a verdade é que o mais provavel é que conheçam.
È mais provavel, aliás, que nos conheçam desde o primeiro momento em que nos puseram a vista em cima e nós
[a passar estrada fora do sinal, a beber café, a fumar cigarros, a pensar que somos impenetráveis].
E eles ali, silenciosos, pacientes, a verem-nos e saberem de cor a cor do nosso cabelo, a saberem melhor que nós que se passámos a estrada fora do sinal foi porque tinhamos a cabeça estatica num palco qualquer que nos aceitasse os defeitos, as cicatrizes e os lados errados do coração, porque afinal de contas... seria apenas teatro.
Sempre prontos, sempre adoráveis, sorridentes, amorosos e cultos. Sempre tão bem informados de tudo que até mete medo.
[e o brilho nos olhos dos actores...onde é que já se viu ter-se aquele brilho nos olhos?]
Detesto-os. Sempre que a minha vida, acidentalmente, se cruzou com um que ficou tudo virado do avesso. Mudei sempre de opinião. Passei do extremo de lhes detestar as rugas do rosto, até à loucura de lhes adorar os movimentos, a forma como são capazes de transformar aquilo que não está, numa coisa banal tão unicamente possivel, tão incontestavelmente palpavel.
Quando os actores sentem alguma coisa ela parece que lhes é cuspida pelos olhos, que os envolve uma aurea de infinitas possibilidades e os sonhos mortos ressuscitam [não miraculosamente, qual banha da cobra de 3 tostões] como se não fizesse sentido que fosse de outra forma.
Têm a confiança de quem há muito aprendeu a dominar a arte da ludibriação e rejubilam com as infinitas formas e modos com que conseguem convencer alguém de que tudo aquilo que era certo, não, é uma erro. Crasso.
Os actores obrigam-nos a querer saber mais, a descobrir a arte de encorporar toda uma outra vida e personalidade num piscar de olhos.
[e vêem.vêem como ninguém]
Quando olham para nós, quero dizer, quando olham directamente para nós, é como se nos despissem e nos perscrutassem a alma. Descobrem-nos todos os podres, arrasam-nos.
São seres pacientes, cheios da manha de uma criança de 5 anos. São seres perigosos porque uma vez que entrem
[qual furacão]
na nossa vida, não desaparecem até que tenham arrebanhado de nós todas as verdades e certezas.
Quando um actor diz:
hoje estas muito bonita!
pode querer dizer todas essas palavras, tecê-las letra por letra, e ainda assim juntar-lhes tantas outras que eles acham que nuncaa iremos saber quais são.
Roubam-nos as verdades mas não permitem que as suas sejam roubadas.
São criaturas às tantas egoístas. Criaturas vampiras. Julgam conhecer-nos e a verdade é que o mais provavel é que conheçam.
È mais provavel, aliás, que nos conheçam desde o primeiro momento em que nos puseram a vista em cima e nós
[a passar estrada fora do sinal, a beber café, a fumar cigarros, a pensar que somos impenetráveis].
E eles ali, silenciosos, pacientes, a verem-nos e saberem de cor a cor do nosso cabelo, a saberem melhor que nós que se passámos a estrada fora do sinal foi porque tinhamos a cabeça estatica num palco qualquer que nos aceitasse os defeitos, as cicatrizes e os lados errados do coração, porque afinal de contas... seria apenas teatro.
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