21 maio 2012

"Pedro, lembrando Inês" de Nuno Júdice

"Em que pensar, agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia
dizer: "Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios?" Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
esse que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste"

19 maio 2012

True Story

È possivel amar o longe. Corrijo: só é possivel amar o longe.
Aquilo que ainda não aconteceu, mas que com toda a certeza vai acontecer.
Aquilo que ainda não se conhece, mas que sabemos estar à nossa procura.
Aquilo que não suportamos por estar longe, mas que amamos pela mesmíssima razão.
O perto é fácil, simples. Está à distância de um braço ou de um telefonema.
O perto toca-nos em sitios previsíveis, não há surpresa nos olhos daquilo que está perto.
Entre o perto e o longe há uma coisa que não se vê. Que não tem forma, nem cor, nem cheiro, nem toque. Está o limbo e a maior probabilidade.
Porque no perto está o que temos por garantido e que por isso descartamos, e no longe está a utopia, o imaginário, e é por isso que o perseguimos ininterruptamente.
Até nos lugares que se ama nos embrulhamos em dilemas. Colocamos-lhes rótulos, anexamos-lhes emoções.
Nunca havemos de regressar aos sitios onde já fomos demasiado felizes, porque temos a certeza que os cheiros serão os mesmos e nada poderá suplantar uma memória tão doce.
Se podia? Sim. Se devia? Certamente.
Mas não deixamos porque enquanto queremos à força salvar-nos do albúm de fotografias, não aceitamos que alguém ou algo nos destrua uma memória tão intima e tão somente nossa.
As probabilidades de regressarmos ao sitio onde fomos infelizes é maior, porque existe urgência em torná-lo um sitio bonito para reconstruir tudo.
E entre os sitios onde fomos felizes e os sitios onde fomos infelizes também há um limbo, há a verdade. Porque bem vistas as coisas, nunca somos tão felizes quanto julgávamos ter sido, nem tão infelizes quanto pensávamos.
Só com o tempo aprendemos a amar o meio caminho. E só com o tempo identificamos os sitios exactos onde sabemos poder deixar o coração a descansar. E o tempo demora sempre demasiado tempo.
Mas, bem vistas as coisas, olhando de cá para lá, já se passaram anos e eu tenho a certeza absoluta de que, se embrulhar o coração para lhe dar descanso, é contigo e é ali que ele vai saber-se finalmente em casa.

18 maio 2012

Porque vou para a cama contigo

Eu não vou para a cama contigo por causa da tua voz, nem dos teus olhos, nem daquilo que tens dentro da cabeça e do peito.
Tenho a certeza de que nenhuma destas coisas é desagradável. A tua voz soa-me bem e os teus olhos são bonitos, mas eu não quero saber aquilo que tu és.
Contigo na minha cama quero-te nua, quero-te animal e quero-te máquina.
Gosto que sejas inteligente e que tenhas coisas para dizer porque seria insuportável ter que te mandar embora logo a seguir ao orgasmo, mas chega-me acreditar que te amo naquele instante. Porque amo, não duvides disso.
Quando agarro no teu corpo e te sinto deixares-me entrar nele e fazer aquilo que eu quero, juro que te amo. Ès a mulher da minha vida, quero ir para a cama contigo todos os dias.
Mas depois tu vais à tua vida e eu vou à minha e o nosso amor ficou encostado aos lençóis à espera de nos ver chegar noutro dia qualquer. E esse dia qualquer não é todos os dias.
Eu vou para a cama contigo porque gosto do teu corpo, dos teus olhos fechados enquanto mordes o lábio, das tuas unhas cravadas na minha pele. Gosto do suor a escorrer-me pelas costas, do arrepio do sexo, da carne com carne, do macio da tua pele.
Quando foste embora da ultima vez estavas chateada, bateste a porta logo depois de me dizeres:
"Fode-me a cona, mas não me fodas a alma"
e eu fui pensar nisso.
Achei-te bruta, mas nunca te amei tanto.
E agora já passou. Não voltaste nunca mais, cumpriste com a tua parte, desapareceste.
Não te vou ligar nem procurar, mas devia. Afinal de contas deixas-te o teu amor agarrado aos meus lençóis e por muitas vezes que os lave ele não desgruda. O teu amor é gosma.
Devia ligar-te para que o venhas buscar, é teu. E devia ligar-te porque me sinto em falta para contigo, que não estou a cumprir eu com a minha parte, não te fodo a cona mas julgo estar a foder-te a alma, que é o contrário do que me pediste. E sempre me ensinaram a ser obediente.

A garrafa de Beirão

Estava tudo bem antes da noite chegar.
O frio gelava, mas o sol brilhava alto. Os cigarros eram muitos, mas não demasiados. Os olhos fechavam-se com calma por saberem que dentro nada os ia assustar, e que fora nada existia que pudesse subitamente desaparecer. Os olhos fechavam-se com calma, é preciso reter esta ideia.
Existiam certezas, convicções. Sabia-se como agir em qualquer circunstancia. Dentro da cabeça, no cérebro altamente racional, podia escolher-se, como na ementa de um restaurante, qual a atitude a tomar dependendo do que estava á frente. Era fácil. Simples. Metódico. Tinha o sabor das coisas certas e controladas.
Depois veio a noite. Vieram os copos. A garrafa de Beirão de que ninguém gostava e que, por isso, escorria ainda melhor. Não existia urgência em bebê-la, era exclusiva, bebia-se com calma. Com algumas certezas ainda. Vieram os patés caseiros, o esparguete à bolonhesa para o jantar, a aparelhagem que ninguém entendia e ouviu-se rádio

[os últimos êxitos da década de 70, 80 e 90]

Houve uma conversa na varanda, falava-se de politica, creio. Outra na cozinha, sobre as infinitas e intemporais questões do bom uso da lingua portuguesa.
Foi mais ou menos por esta altura que tudo se precipitou e as convicções fugiram entre os dedos à mesma velocidade com que mais beirões escorriam garganta a baixo.
Depois veio a musica. Depois da musica vieram os corpos a dançar. Depois dos corpos a dançar vieram os olhos e com os olhos ficou tudo escancarado.
Lá ficaram espalhadas, como um qualquer farrapo, as certezas, convicções, a metocidade, o controlo.
O frio foi embora. Os cigarros que já eram muitos passaram a ser muito mais que demasiados. Os olhos desaprenderam a calma, ganharam medos, receios. O que está dentro é pavoroso, o que está fora é a constante iminência do desastre.
Depois da noite chegar, já pouco importa que ninguém goste de Beirão, pouco importa que a garrafa seja exclusiva. Há que terminá-la depressa, deixá-la escorrer para dentro como um raio, para que se recupere o controlo, as certezas, a segurança.
Antes de tudo há o caos. O resto é pudim flan. O resto são amendoins. O resto é merda.

"Não desfiz a mala" de Pedro Paixão

"Não desfiz a mala. Não vou desfazer a mala. Tiro de dentro dela só o que preciso (...). Desfazer a mala e arrumar tudo nas três gavetas que vejo parece-me demasiado definitivo. Espero que algo aconteça e saiba para o que vim. Depois parto. Se puder. Se não for tarde demais. Se o que inteiramente ignoro permitir que parta. Se não, não parto.
O lugar de onde vim era-me insuportável. Aconteciam demasiadas coisas. Coisas que se atropelavam. Coisas sem sentido algum, abomináveis. A corrupção instalada. O Estado corrompido. Crianças violadas. Tudo isto no meio de um riso histérico e um desespero absoluto. O lugar de onde vim já tinha perdido, ou pior, estava na iminência de perder tudo o que era seu, um destino qualquer. Só restavam as casas, as ruas, uma paisagem em ruínas. Comecei a perguntar-me se os seres que tinham cara e falavam seriam humanos. Era dificil encontrar um resto, um rasto de humanidade.
Senti o terror de já ser como os demais: uma cara e uma boca desumanas. Só restavam as pedras, umas sobre as outras. E por baixo dos gritos, da tagarelice infinita, um silêncio de morte.
Comecei a chorar de manhã, à tarde e à noite. A chorar sem saber porque chorava. A chorar só. Comecei a tomar demasiados comprimidos, a beber cervejas a toda a hora, a fumar dois maços de cigarros. Não deixava de ser insuportável. Só quando dormia era suportável. Tive de fazer a mala com as poucas forças que me restavam e fugir dali num derradeiro acesso de lucidez ou de inconsciente coragem.
O que será feito de mim? O que será feito do mundo? O que deveria ser feito? Como deverá ser feito? E para que fim?
Acordei. Tomei um duche rápido. Tomei o pequeno-almoço e a minha alma sinto-a levemente a estremecer."

16 maio 2012

"Do que a vida poderia ter sido" de J.Carlos Barros

"Os amigos juntam-se e falam do passado,
da música que já não se ouve na rádio,
do Inverno em que choveu meses a fio
e o rio saiu das margens para desenhar

nos troncos das árvores os circulos imperfeitos
da idade. Eles sabem para si mesmos que falam
do que nunca existiu: das mulheres
que se renderam para sempre às palavras do amor,

das perdizes caindo de asa nas encostas
iluminadas da urze, das corridas memoráveis
do vinte e cinco de abril, das tardes de domingo
que haveriam de envergonhar a uefa

se a televisão estivesse presente nas finais dos torneios
dos bombeiros voluntários. È disso que os amigos
falam: do que a vida poderia ter sido
se não fosse a filha da puta de vida que foi."

09 maio 2012

Mal agradecido

Ès um mal agradecido. Odeio-te. Tenho-te raiva. Tenho-te abandono, nojo e morte. E poeira e vidros partidos.
Ès um mal agradecido, já disse.
Andei de esfregona e vassoura na mão durante meses, a limpar, a esfregar, a aspirar todos os cantinhos e tu assentas arraial e só fazes bagunça, lixeira e basqueiro.
Comprei móveis novos, um sofá caríssimo para que te sentisses confortável.
Enchi o frigorífico e a dispensa, para que nada te faltasse.
Deitei fora cartas, diários e um número incontável de memórias, para que não te sentisses ameaçado, para que soubesses que este espaço agora era teu, que nele cabiamos os dois e mais ninguém.
Andaste a teu bel prazer por todas as divisões, não fechei nenhuma à chave, para que soubesses que não te escondia absolutamente nada.
 Disse-te onde podias encontrar tudo, desde o papel higiénico ao saca-rolhas, para que te sentisses realmente em casa.
Ès um mal agradecido idiota, pedante, estupido, insensível e ridiculamente bonito. Raios te partam, és mesmo bonito.
Agora ando às voltas com o coração em papas, não há esfregona nem vassoura que me valham porque de ti não sei como me esvaziar nem limpar.
Já disse e repito as vezes que forem precisas até que entendas aquilo que eu quero dizer quando te digo que és, sem duvida alguma, um mal agradecido.