"Em que pensar, agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia
dizer: "Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios?" Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
esse que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste"
Numa amálgama de pessoas comuns, de coisas que se sentem e se querem. Numa fúria e emoção que contorce as visceras e se deixa levar por só mais um pouquinho deste lugar bonito que é a vida, as personagens rendem-se a pequenas evidências, coisas subtis que fazem de nós Gente com Gente Dentro. É um ponto num emaranhado de contos que contam, sem pretensões ou julgamentos, a matéria que tece a realidade, numas vezes crua, dura e amarga, noutras inocente, cuidada, emotiva.
21 maio 2012
19 maio 2012
True Story
È possivel amar o longe. Corrijo: só é possivel amar o longe.
Aquilo que ainda não aconteceu, mas que com toda a certeza vai acontecer.
Aquilo que ainda não se conhece, mas que sabemos estar à nossa procura.
Aquilo que não suportamos por estar longe, mas que amamos pela mesmíssima razão.
O perto é fácil, simples. Está à distância de um braço ou de um telefonema.
O perto toca-nos em sitios previsíveis, não há surpresa nos olhos daquilo que está perto.
Entre o perto e o longe há uma coisa que não se vê. Que não tem forma, nem cor, nem cheiro, nem toque. Está o limbo e a maior probabilidade.
Porque no perto está o que temos por garantido e que por isso descartamos, e no longe está a utopia, o imaginário, e é por isso que o perseguimos ininterruptamente.
Até nos lugares que se ama nos embrulhamos em dilemas. Colocamos-lhes rótulos, anexamos-lhes emoções.
Nunca havemos de regressar aos sitios onde já fomos demasiado felizes, porque temos a certeza que os cheiros serão os mesmos e nada poderá suplantar uma memória tão doce.
Se podia? Sim. Se devia? Certamente.
Mas não deixamos porque enquanto queremos à força salvar-nos do albúm de fotografias, não aceitamos que alguém ou algo nos destrua uma memória tão intima e tão somente nossa.
As probabilidades de regressarmos ao sitio onde fomos infelizes é maior, porque existe urgência em torná-lo um sitio bonito para reconstruir tudo.
E entre os sitios onde fomos felizes e os sitios onde fomos infelizes também há um limbo, há a verdade. Porque bem vistas as coisas, nunca somos tão felizes quanto julgávamos ter sido, nem tão infelizes quanto pensávamos.
Só com o tempo aprendemos a amar o meio caminho. E só com o tempo identificamos os sitios exactos onde sabemos poder deixar o coração a descansar. E o tempo demora sempre demasiado tempo.
Mas, bem vistas as coisas, olhando de cá para lá, já se passaram anos e eu tenho a certeza absoluta de que, se embrulhar o coração para lhe dar descanso, é contigo e é ali que ele vai saber-se finalmente em casa.
Aquilo que ainda não aconteceu, mas que com toda a certeza vai acontecer.
Aquilo que ainda não se conhece, mas que sabemos estar à nossa procura.
Aquilo que não suportamos por estar longe, mas que amamos pela mesmíssima razão.
O perto é fácil, simples. Está à distância de um braço ou de um telefonema.
O perto toca-nos em sitios previsíveis, não há surpresa nos olhos daquilo que está perto.
Entre o perto e o longe há uma coisa que não se vê. Que não tem forma, nem cor, nem cheiro, nem toque. Está o limbo e a maior probabilidade.
Porque no perto está o que temos por garantido e que por isso descartamos, e no longe está a utopia, o imaginário, e é por isso que o perseguimos ininterruptamente.
Até nos lugares que se ama nos embrulhamos em dilemas. Colocamos-lhes rótulos, anexamos-lhes emoções.
Nunca havemos de regressar aos sitios onde já fomos demasiado felizes, porque temos a certeza que os cheiros serão os mesmos e nada poderá suplantar uma memória tão doce.
Se podia? Sim. Se devia? Certamente.
Mas não deixamos porque enquanto queremos à força salvar-nos do albúm de fotografias, não aceitamos que alguém ou algo nos destrua uma memória tão intima e tão somente nossa.
As probabilidades de regressarmos ao sitio onde fomos infelizes é maior, porque existe urgência em torná-lo um sitio bonito para reconstruir tudo.
E entre os sitios onde fomos felizes e os sitios onde fomos infelizes também há um limbo, há a verdade. Porque bem vistas as coisas, nunca somos tão felizes quanto julgávamos ter sido, nem tão infelizes quanto pensávamos.
Só com o tempo aprendemos a amar o meio caminho. E só com o tempo identificamos os sitios exactos onde sabemos poder deixar o coração a descansar. E o tempo demora sempre demasiado tempo.
Mas, bem vistas as coisas, olhando de cá para lá, já se passaram anos e eu tenho a certeza absoluta de que, se embrulhar o coração para lhe dar descanso, é contigo e é ali que ele vai saber-se finalmente em casa.
18 maio 2012
Porque vou para a cama contigo
Eu não vou para a cama contigo por causa da tua voz, nem dos teus olhos, nem daquilo que tens dentro da cabeça e do peito.
Tenho a certeza de que nenhuma destas coisas é desagradável. A tua voz soa-me bem e os teus olhos são bonitos, mas eu não quero saber aquilo que tu és.
Contigo na minha cama quero-te nua, quero-te animal e quero-te máquina.
Gosto que sejas inteligente e que tenhas coisas para dizer porque seria insuportável ter que te mandar embora logo a seguir ao orgasmo, mas chega-me acreditar que te amo naquele instante. Porque amo, não duvides disso.
Quando agarro no teu corpo e te sinto deixares-me entrar nele e fazer aquilo que eu quero, juro que te amo. Ès a mulher da minha vida, quero ir para a cama contigo todos os dias.
Mas depois tu vais à tua vida e eu vou à minha e o nosso amor ficou encostado aos lençóis à espera de nos ver chegar noutro dia qualquer. E esse dia qualquer não é todos os dias.
Eu vou para a cama contigo porque gosto do teu corpo, dos teus olhos fechados enquanto mordes o lábio, das tuas unhas cravadas na minha pele. Gosto do suor a escorrer-me pelas costas, do arrepio do sexo, da carne com carne, do macio da tua pele.
Quando foste embora da ultima vez estavas chateada, bateste a porta logo depois de me dizeres:
"Fode-me a cona, mas não me fodas a alma"
e eu fui pensar nisso.
Achei-te bruta, mas nunca te amei tanto.
E agora já passou. Não voltaste nunca mais, cumpriste com a tua parte, desapareceste.
Não te vou ligar nem procurar, mas devia. Afinal de contas deixas-te o teu amor agarrado aos meus lençóis e por muitas vezes que os lave ele não desgruda. O teu amor é gosma.
Devia ligar-te para que o venhas buscar, é teu. E devia ligar-te porque me sinto em falta para contigo, que não estou a cumprir eu com a minha parte, não te fodo a cona mas julgo estar a foder-te a alma, que é o contrário do que me pediste. E sempre me ensinaram a ser obediente.
Tenho a certeza de que nenhuma destas coisas é desagradável. A tua voz soa-me bem e os teus olhos são bonitos, mas eu não quero saber aquilo que tu és.
Contigo na minha cama quero-te nua, quero-te animal e quero-te máquina.
Gosto que sejas inteligente e que tenhas coisas para dizer porque seria insuportável ter que te mandar embora logo a seguir ao orgasmo, mas chega-me acreditar que te amo naquele instante. Porque amo, não duvides disso.
Quando agarro no teu corpo e te sinto deixares-me entrar nele e fazer aquilo que eu quero, juro que te amo. Ès a mulher da minha vida, quero ir para a cama contigo todos os dias.
Mas depois tu vais à tua vida e eu vou à minha e o nosso amor ficou encostado aos lençóis à espera de nos ver chegar noutro dia qualquer. E esse dia qualquer não é todos os dias.
Eu vou para a cama contigo porque gosto do teu corpo, dos teus olhos fechados enquanto mordes o lábio, das tuas unhas cravadas na minha pele. Gosto do suor a escorrer-me pelas costas, do arrepio do sexo, da carne com carne, do macio da tua pele.
Quando foste embora da ultima vez estavas chateada, bateste a porta logo depois de me dizeres:
"Fode-me a cona, mas não me fodas a alma"
e eu fui pensar nisso.
Achei-te bruta, mas nunca te amei tanto.
E agora já passou. Não voltaste nunca mais, cumpriste com a tua parte, desapareceste.
Não te vou ligar nem procurar, mas devia. Afinal de contas deixas-te o teu amor agarrado aos meus lençóis e por muitas vezes que os lave ele não desgruda. O teu amor é gosma.
Devia ligar-te para que o venhas buscar, é teu. E devia ligar-te porque me sinto em falta para contigo, que não estou a cumprir eu com a minha parte, não te fodo a cona mas julgo estar a foder-te a alma, que é o contrário do que me pediste. E sempre me ensinaram a ser obediente.
A garrafa de Beirão
Estava tudo bem antes da noite chegar.
O frio gelava, mas o sol brilhava alto. Os cigarros eram muitos, mas não demasiados. Os olhos fechavam-se com calma por saberem que dentro nada os ia assustar, e que fora nada existia que pudesse subitamente desaparecer. Os olhos fechavam-se com calma, é preciso reter esta ideia.
Existiam certezas, convicções. Sabia-se como agir em qualquer circunstancia. Dentro da cabeça, no cérebro altamente racional, podia escolher-se, como na ementa de um restaurante, qual a atitude a tomar dependendo do que estava á frente. Era fácil. Simples. Metódico. Tinha o sabor das coisas certas e controladas.
Depois veio a noite. Vieram os copos. A garrafa de Beirão de que ninguém gostava e que, por isso, escorria ainda melhor. Não existia urgência em bebê-la, era exclusiva, bebia-se com calma. Com algumas certezas ainda. Vieram os patés caseiros, o esparguete à bolonhesa para o jantar, a aparelhagem que ninguém entendia e ouviu-se rádio
[os últimos êxitos da década de 70, 80 e 90]
Houve uma conversa na varanda, falava-se de politica, creio. Outra na cozinha, sobre as infinitas e intemporais questões do bom uso da lingua portuguesa.
Foi mais ou menos por esta altura que tudo se precipitou e as convicções fugiram entre os dedos à mesma velocidade com que mais beirões escorriam garganta a baixo.
Depois veio a musica. Depois da musica vieram os corpos a dançar. Depois dos corpos a dançar vieram os olhos e com os olhos ficou tudo escancarado.
Lá ficaram espalhadas, como um qualquer farrapo, as certezas, convicções, a metocidade, o controlo.
O frio foi embora. Os cigarros que já eram muitos passaram a ser muito mais que demasiados. Os olhos desaprenderam a calma, ganharam medos, receios. O que está dentro é pavoroso, o que está fora é a constante iminência do desastre.
Depois da noite chegar, já pouco importa que ninguém goste de Beirão, pouco importa que a garrafa seja exclusiva. Há que terminá-la depressa, deixá-la escorrer para dentro como um raio, para que se recupere o controlo, as certezas, a segurança.
Antes de tudo há o caos. O resto é pudim flan. O resto são amendoins. O resto é merda.
O frio gelava, mas o sol brilhava alto. Os cigarros eram muitos, mas não demasiados. Os olhos fechavam-se com calma por saberem que dentro nada os ia assustar, e que fora nada existia que pudesse subitamente desaparecer. Os olhos fechavam-se com calma, é preciso reter esta ideia.
Existiam certezas, convicções. Sabia-se como agir em qualquer circunstancia. Dentro da cabeça, no cérebro altamente racional, podia escolher-se, como na ementa de um restaurante, qual a atitude a tomar dependendo do que estava á frente. Era fácil. Simples. Metódico. Tinha o sabor das coisas certas e controladas.
Depois veio a noite. Vieram os copos. A garrafa de Beirão de que ninguém gostava e que, por isso, escorria ainda melhor. Não existia urgência em bebê-la, era exclusiva, bebia-se com calma. Com algumas certezas ainda. Vieram os patés caseiros, o esparguete à bolonhesa para o jantar, a aparelhagem que ninguém entendia e ouviu-se rádio
[os últimos êxitos da década de 70, 80 e 90]
Houve uma conversa na varanda, falava-se de politica, creio. Outra na cozinha, sobre as infinitas e intemporais questões do bom uso da lingua portuguesa.
Foi mais ou menos por esta altura que tudo se precipitou e as convicções fugiram entre os dedos à mesma velocidade com que mais beirões escorriam garganta a baixo.
Depois veio a musica. Depois da musica vieram os corpos a dançar. Depois dos corpos a dançar vieram os olhos e com os olhos ficou tudo escancarado.
Lá ficaram espalhadas, como um qualquer farrapo, as certezas, convicções, a metocidade, o controlo.
O frio foi embora. Os cigarros que já eram muitos passaram a ser muito mais que demasiados. Os olhos desaprenderam a calma, ganharam medos, receios. O que está dentro é pavoroso, o que está fora é a constante iminência do desastre.
Depois da noite chegar, já pouco importa que ninguém goste de Beirão, pouco importa que a garrafa seja exclusiva. Há que terminá-la depressa, deixá-la escorrer para dentro como um raio, para que se recupere o controlo, as certezas, a segurança.
Antes de tudo há o caos. O resto é pudim flan. O resto são amendoins. O resto é merda.
"Não desfiz a mala" de Pedro Paixão
"Não desfiz a mala. Não vou desfazer a mala. Tiro de dentro dela só o que preciso (...). Desfazer a mala e arrumar tudo nas três gavetas que vejo parece-me demasiado definitivo. Espero que algo aconteça e saiba para o que vim. Depois parto. Se puder. Se não for tarde demais. Se o que inteiramente ignoro permitir que parta. Se não, não parto.
O lugar de onde vim era-me insuportável. Aconteciam demasiadas coisas. Coisas que se atropelavam. Coisas sem sentido algum, abomináveis. A corrupção instalada. O Estado corrompido. Crianças violadas. Tudo isto no meio de um riso histérico e um desespero absoluto. O lugar de onde vim já tinha perdido, ou pior, estava na iminência de perder tudo o que era seu, um destino qualquer. Só restavam as casas, as ruas, uma paisagem em ruínas. Comecei a perguntar-me se os seres que tinham cara e falavam seriam humanos. Era dificil encontrar um resto, um rasto de humanidade.
Senti o terror de já ser como os demais: uma cara e uma boca desumanas. Só restavam as pedras, umas sobre as outras. E por baixo dos gritos, da tagarelice infinita, um silêncio de morte.
Comecei a chorar de manhã, à tarde e à noite. A chorar sem saber porque chorava. A chorar só. Comecei a tomar demasiados comprimidos, a beber cervejas a toda a hora, a fumar dois maços de cigarros. Não deixava de ser insuportável. Só quando dormia era suportável. Tive de fazer a mala com as poucas forças que me restavam e fugir dali num derradeiro acesso de lucidez ou de inconsciente coragem.
O que será feito de mim? O que será feito do mundo? O que deveria ser feito? Como deverá ser feito? E para que fim?
Acordei. Tomei um duche rápido. Tomei o pequeno-almoço e a minha alma sinto-a levemente a estremecer."
O lugar de onde vim era-me insuportável. Aconteciam demasiadas coisas. Coisas que se atropelavam. Coisas sem sentido algum, abomináveis. A corrupção instalada. O Estado corrompido. Crianças violadas. Tudo isto no meio de um riso histérico e um desespero absoluto. O lugar de onde vim já tinha perdido, ou pior, estava na iminência de perder tudo o que era seu, um destino qualquer. Só restavam as casas, as ruas, uma paisagem em ruínas. Comecei a perguntar-me se os seres que tinham cara e falavam seriam humanos. Era dificil encontrar um resto, um rasto de humanidade.
Senti o terror de já ser como os demais: uma cara e uma boca desumanas. Só restavam as pedras, umas sobre as outras. E por baixo dos gritos, da tagarelice infinita, um silêncio de morte.
Comecei a chorar de manhã, à tarde e à noite. A chorar sem saber porque chorava. A chorar só. Comecei a tomar demasiados comprimidos, a beber cervejas a toda a hora, a fumar dois maços de cigarros. Não deixava de ser insuportável. Só quando dormia era suportável. Tive de fazer a mala com as poucas forças que me restavam e fugir dali num derradeiro acesso de lucidez ou de inconsciente coragem.
O que será feito de mim? O que será feito do mundo? O que deveria ser feito? Como deverá ser feito? E para que fim?
Acordei. Tomei um duche rápido. Tomei o pequeno-almoço e a minha alma sinto-a levemente a estremecer."
16 maio 2012
"Do que a vida poderia ter sido" de J.Carlos Barros
"Os amigos juntam-se e falam do passado,
da música que já não se ouve na rádio,
do Inverno em que choveu meses a fio
e o rio saiu das margens para desenhar
nos troncos das árvores os circulos imperfeitos
da idade. Eles sabem para si mesmos que falam
do que nunca existiu: das mulheres
que se renderam para sempre às palavras do amor,
das perdizes caindo de asa nas encostas
iluminadas da urze, das corridas memoráveis
do vinte e cinco de abril, das tardes de domingo
que haveriam de envergonhar a uefa
se a televisão estivesse presente nas finais dos torneios
dos bombeiros voluntários. È disso que os amigos
falam: do que a vida poderia ter sido
se não fosse a filha da puta de vida que foi."
da música que já não se ouve na rádio,
do Inverno em que choveu meses a fio
e o rio saiu das margens para desenhar
nos troncos das árvores os circulos imperfeitos
da idade. Eles sabem para si mesmos que falam
do que nunca existiu: das mulheres
que se renderam para sempre às palavras do amor,
das perdizes caindo de asa nas encostas
iluminadas da urze, das corridas memoráveis
do vinte e cinco de abril, das tardes de domingo
que haveriam de envergonhar a uefa
se a televisão estivesse presente nas finais dos torneios
dos bombeiros voluntários. È disso que os amigos
falam: do que a vida poderia ter sido
se não fosse a filha da puta de vida que foi."
09 maio 2012
Mal agradecido
Ès um mal agradecido. Odeio-te. Tenho-te raiva. Tenho-te abandono, nojo e morte. E poeira e vidros partidos.
Ès um mal agradecido, já disse.
Andei de esfregona e vassoura na mão durante meses, a limpar, a esfregar, a aspirar todos os cantinhos e tu assentas arraial e só fazes bagunça, lixeira e basqueiro.
Comprei móveis novos, um sofá caríssimo para que te sentisses confortável.
Enchi o frigorífico e a dispensa, para que nada te faltasse.
Deitei fora cartas, diários e um número incontável de memórias, para que não te sentisses ameaçado, para que soubesses que este espaço agora era teu, que nele cabiamos os dois e mais ninguém.
Andaste a teu bel prazer por todas as divisões, não fechei nenhuma à chave, para que soubesses que não te escondia absolutamente nada.
Disse-te onde podias encontrar tudo, desde o papel higiénico ao saca-rolhas, para que te sentisses realmente em casa.
Ès um mal agradecido idiota, pedante, estupido, insensível e ridiculamente bonito. Raios te partam, és mesmo bonito.
Agora ando às voltas com o coração em papas, não há esfregona nem vassoura que me valham porque de ti não sei como me esvaziar nem limpar.
Já disse e repito as vezes que forem precisas até que entendas aquilo que eu quero dizer quando te digo que és, sem duvida alguma, um mal agradecido.
Ès um mal agradecido, já disse.
Andei de esfregona e vassoura na mão durante meses, a limpar, a esfregar, a aspirar todos os cantinhos e tu assentas arraial e só fazes bagunça, lixeira e basqueiro.
Comprei móveis novos, um sofá caríssimo para que te sentisses confortável.
Enchi o frigorífico e a dispensa, para que nada te faltasse.
Deitei fora cartas, diários e um número incontável de memórias, para que não te sentisses ameaçado, para que soubesses que este espaço agora era teu, que nele cabiamos os dois e mais ninguém.
Andaste a teu bel prazer por todas as divisões, não fechei nenhuma à chave, para que soubesses que não te escondia absolutamente nada.
Disse-te onde podias encontrar tudo, desde o papel higiénico ao saca-rolhas, para que te sentisses realmente em casa.
Ès um mal agradecido idiota, pedante, estupido, insensível e ridiculamente bonito. Raios te partam, és mesmo bonito.
Agora ando às voltas com o coração em papas, não há esfregona nem vassoura que me valham porque de ti não sei como me esvaziar nem limpar.
Já disse e repito as vezes que forem precisas até que entendas aquilo que eu quero dizer quando te digo que és, sem duvida alguma, um mal agradecido.
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