25 maio 2012

“Estilo” de Herberto Helder

“ Se eu quisesse enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio… Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro… Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida… compreende? …a nossa vida, a vida inteira, está ali como… como um acontecimento excessivo… Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas, meses ou anos?”

...e já sei que me vou arrepender.

- Bom dia, alegria!
- Só se for para ti. Quem era aquele gajo que veio contigo para casa ontem à noite?
- Desculpa?!
- Tu ouviste bem o que perguntei. Não te armes em cabra...
- Mas tu agora controlas aquilo que eu faço? Era o que faltava...
- Com o basqueiro que fizeram, acho que todo o prédio ficou a saber. Não me parece que tenhas querido fazer segredo nenhum.
- Não é um segredo, mas também não é da conta de ninguém, muito menos da tua.
- Então podias ter feito menos barulho... Acordaste-me.
- Oh, não me chateies, dói-me a cabeça.
- Imagino, não parecias nada sóbria...
- Mas qual é a tua? 'Tás a armar-te em palerma?!
- Não me vais dizer quem é ele?
- Sei lá!
- Não sabes?!
- Deves ter muito a ver com isso, tu.
- Até tenho...
- Tens?
- Tu gostas é de mim.
- Hm hm, mas tu não me fodes, tenho que arranjar quem o faça por ti.
- Essa era escusada.
- Disse alguma mentira?
- Se o que queres é ser fodida, trata-se já disso.
- Cala-te!
- 'Bora lá... se é isso que te falta...
- Se é isso que me falta faço-o com quem me der na real gana e com quem, no dia seguinte não desapareça da minha cama e me deixe o coração em papa.
- Certo, é justo.
- É justo?! Mas tu és idiota? Ando a quecar com um parvalhão diferente todas as semanas, digo-te com todas as letras que o faço porque me deixas o coração feito em merda, e tu dizes que é justo?
- Hm hm
- Vai-te foder!
- 'Bora?
- 'Bora... mas é a ultima vez, ouviste?
- Hm hm, a última antes da próxima...
- Odeio-te!
- Não odeias nada. Tu amas-me!
- Hm hm, 'bora lá... antes que me arrependa.

... e já sei que me vou arrepender.

24 maio 2012

"Xanax azul-violeta" de Pedro Paixão

  "Deixei-me encurralar aqui. Não posso regressar a nenhum lado, a tempo algum. Nadja desapareceu de um dia para o outro. Todas acabam por desaparecer. Mais vale assim. Uma mulher a fugir é mais bela do que uma mulher parada. Nem a morte quis vir ter comigo, quanto mais o amor.
  Tento acalmar-me. Derreto um Xanax azul-violeta debaixo da língua. É verdade que estou em guerra. Estou em guerra porque estamos em guerra, não por vontade própria. Agora não tenho vontade própria, estou demasiado cansado. Já fiz o que tinha a fazer. Já perdi o suficiente e não consegui. Sei que tu não tens culpa Maria, Joana e Lia. Eu sei de quem é a culpa. Sou eu quem deve carregar comigo. E tu fizeste bem em desaparecer, Tatiana. Quem te agarra o corpo tem mais sorte do que eu. Eu sou pior. Quero logo a alma junto com o corpo. É um tremendo negócio. Meu amor, minha querida. De quem falo? De ti, claro, Maria, Lia e Joana.
  Maria, de pele macia, porque me mentias ao dizer que me amavas? Não bastava o resto, a vida inteira. Querias-me só para ti e depois não sabias o que fazer comigo. Na última noite beijaste-me como se fosse a primeira e no dia seguinte abandonaste-me na rua. Como pudeste? Ainda hoje não acredito. Por ti enlouqueci várias vezes para poder voltar a ficar lúcido.
  Joana dos cabelos encaracolados, muito pretos, a dançar à frente dos meus dedos. Joana fugidia, áspera, violenta. Nunca soube dizer quem eras e tu não tinhas paciência para a minha demora. Voltavas para as tuas amigas sem desculpas. Deixavas-me com um rasto do teu corpo, do toque dos teus cabelos, e escapavas. Quando me entreguei por completo já não me querias. Era tarde para tudo, dizias. Lia dos olhos suaves, enganadores. Mulheres como tu deviam trazer um aviso de morte. Nem o teu namorado gostava de mim, quanto mais tu. Deitada ao lado dele pensavas em mim. Mas não estavas disposta a arriscar tudo de uma só vez. Por isso deixaste que o amor viesse e não durasse, suave rapariga.
  Maria diz que Lia não é Joana. Mas engana-se. Joana é Lia por não ser Maria. E Maria sempre foi Lia e Joana.
  Levanto-me da cama e vou até ao quarto de banho. Fico a olhar-me no espelho a ouvir o barulho da água. Tenho de aguentar. Vou aguentar. Não é a primeira vez, não será a última. Uma história não tem fim, se no fim acaba a história.
  Toca o telefone. É Rony. Diz-me que vá passar uns dias de férias ao Sul, onde abundam as mulheres desconsoladas. Ou então ao Norte, nas cidades fortificadas. Arranja tudo por bom preço, pacote especial e coisas dessas. Rony, estou cansado. Não quero ir para nenhum lado. Vou ficar aqui até chegar o dia. E depois parto. Vim para acabar com a poesia e a poesia está a dar cabo de mim."

23 maio 2012

Diz-se por aí...

Foi sempre assim.
Iam jantar fora entre uma a duas vezes por semana. Pediam sempre o mesmo
[polvo à lagareiro para ela, bitoque para ele].
Enquanto esperavam permaneciam em silêncio, ele escrevia num caderno, ela desenhava na toalha de papel sobre a mesa.
Sobre pedirem sempre o mesmo prato ele gostava. Ela não.
No final da refeição discutiam sempre acerca de quem haveria de pagar a conta. O empregado, já habituado, ficava de longe a ver num misto de indignação e divertimento, pedaços de pão a voar pelo ar, e de uma ou outra vez, um copo partido no linóleo do chão.
Quando a discussão terminava sorriam, beijavam-se e saíam sempre sem pedir desculpa.
Percorriam o caminho até casa um em cada berma da estrada. Em silêncio. Ela gostava. Ele não.
Ao chegar, ele já cansado de escrever e ela farta de desenhar, faziam amor e fumavam cigarros a olhar um para o outro, até que o cansaço levasse a melhor. Adormeciam estranhamente abraçados. Ele gostava. Ela também.
Um dia, já o sol ia alto, ele perguntou-lhe porque não compravam uma televisão, e ela disse-lhe que a televisão emburrecia. Ainda assim, no dia seguinte, ele comprou um aparelho e, quando ela chegou a casa ficaram muito tempo em silêncio a olhar para aquela caixa preta, desligada.
Decidiram não pensar muito no assunto e foram jantar fora. Escolheram os mesmos pratos, discutiram sobre a conta, sorriram, beijaram-se, saíram sem pedir desculpa, regressaram a casa em bermas diferentes. Em vez de fazerem amor quiseram experimentar ver televisão.
Uns meses mais tarde, reza a história que ela deixou de desenhar e ele de escrever. Que deixaram de fazer amor. Que passaram a ir as mesmas uma ou duas vezes por semana jantar, mas ao McDonald's. Que em vez de discutirem acerca da conta, passaram a discutir de forma acesa, sem direito a beijos ou sorrisos, sobre qual o programa que um ou outro queria ver.
Diz, quem os conheceu, que se separaram eventualmente, e que a partilha que mais luta deu foi precisamente a caixa preta. Optaram pela custódia partilhada, quinze dias com um, quinze dias com outro.
Na primeira noite em que ele ficou sem a televisão lembrou-se que ela lhe tinha dito, antes de tudo ser destruído, que a caixinha emburrecia. Foi a casa dela e quando lhe bateu à porta, com o objectivo de agarrar na televisão e a deitar no primeiro contentor que encontrasse, ela lhe gritou lá de dentro
- Agora não, que estou a ver a novela!
Rendido e frustrado pegou no carro e foi ao McDrive, pediu um menu com batatas e bebida grandes, e se foi sentar a porta de uma loja de electrodomésticos, a ver várias caixas pretas piscarem.
Nunca mais ninguém os viu, mas as más linguas dizem que ela acabou por morrer de doença prolongada, daquelas com aqueles nomes enormes e estranhos, que o ZéPovinho comummente chama de "burrice crónica", e que ele, que voltou a escrever, editou um best-seller de seu nome "Merda da televisão".
Mas eu não sei de nada. Isto são as pessoas que falam, que contam histórias e acrescentam-lhe pontos, já se sabe.
A minha teoria é a de que eles, ainda antes de tudo ser destruído, fugiram juntos para o Nepal e que lá estão até aos dias de hoje.
Mas não posso garantir nada. Afinal de contas, eu só cá vim ver a bola.

21 maio 2012

A mais certa certeza

Meu querido, há tantas coisas que eu te não disse. E outras que disse, mas que não escutaste. E outras que julgas ter escutado, mas que, na realidade, eu não disse.
É sobre essas palavras que ficaram encaixadas num sitio sem nome que te quero falar. Hoje.
Escrever uma carta de amor é uma idiotice, uma lamechice sem eira nem beira, é um trago de um gin tónico sem água, que ferve e arde e queima. Mas eu não sei como te dizer, meu querido, que as letras que tenho para te dizer são afiadas como uma faca, rasgam como um serrote, queimam como combustivel ateado.
Não te quero dizer palavra nenhuma que amacie o coração, não há nada de honesto quando temos por assento uma almofada macia e fofa. Aquilo que eu tenho para ti não descansa, não recua, não adormece dentro de colchões de água ou bolas de sabão redondas que brilham, brilham, brilham.
Aquilo que eu tenho para te oferecer são lacunas, falhas, coisas semi destruidas, ruinas de um abraço, a ansiedade de um beijo, uma mão perto mas nunca no sitio exacto em que o calor se faça sentir por dentro.
Meu querido, isto não é uma carta de amor. As cartas de amor são para quem não ama, são para quem arrepia caminho ao escutar o comboio a apitar e, na iminencia do embate, se recolhe na plataforma e fica somente a sentir a brisa da sua passagem.
Escuta aquilo que está dentro das letras. Desde que cravaste a tua ausência no meu corpo que elas dizem coisas sem sentido. Que elas esperam que as toques para que tudo regresse à certeza que é o nosso amor. Á certeza de que no meu peito, e no teu peito, estão os nossos olhos a quebrar barreiras, a falarem sobre aquilo que ninguém ousa tocar, a acreditarem no infinito que é a nossa casa dentro de nós.
Se nos roubassem o dinheiro, as casas, as roupas, as guitarras, as canetas ou as folhas de papel que esvoaçam pelo ar, teriamos os nossos corpos embrulhados, o meu rosto no teu peito, as tuas mãos a percorrerem sem pressa o meu corpo nu. Se nos roubassem tudo, meu querido, estaríamos nus e os nossos caminhos seriam nossos ainda, apesar, no entanto. Inevitáveis.
Agora, neste instante, em que tenho o teu corpo dentro do meu corpo, em que tenho o teu coração já dentro do meu coração, não existe sitio nenhum onde fosse e estivesse mais feliz.
Agora, meu amor, a tua mão está na minha mão e todos os olhos se voltam só para nos ver, sem nos entenderem, porque somos loucos, insanes. Porque temos dentro de nós aquilo que poucos têm a coragem de sonhar:
"a mais certa certeza de que gosto de ti, como gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste"

"Pedro, lembrando Inês" de Nuno Júdice

"Em que pensar, agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia
dizer: "Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios?" Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
esse que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste"

19 maio 2012

True Story

È possivel amar o longe. Corrijo: só é possivel amar o longe.
Aquilo que ainda não aconteceu, mas que com toda a certeza vai acontecer.
Aquilo que ainda não se conhece, mas que sabemos estar à nossa procura.
Aquilo que não suportamos por estar longe, mas que amamos pela mesmíssima razão.
O perto é fácil, simples. Está à distância de um braço ou de um telefonema.
O perto toca-nos em sitios previsíveis, não há surpresa nos olhos daquilo que está perto.
Entre o perto e o longe há uma coisa que não se vê. Que não tem forma, nem cor, nem cheiro, nem toque. Está o limbo e a maior probabilidade.
Porque no perto está o que temos por garantido e que por isso descartamos, e no longe está a utopia, o imaginário, e é por isso que o perseguimos ininterruptamente.
Até nos lugares que se ama nos embrulhamos em dilemas. Colocamos-lhes rótulos, anexamos-lhes emoções.
Nunca havemos de regressar aos sitios onde já fomos demasiado felizes, porque temos a certeza que os cheiros serão os mesmos e nada poderá suplantar uma memória tão doce.
Se podia? Sim. Se devia? Certamente.
Mas não deixamos porque enquanto queremos à força salvar-nos do albúm de fotografias, não aceitamos que alguém ou algo nos destrua uma memória tão intima e tão somente nossa.
As probabilidades de regressarmos ao sitio onde fomos infelizes é maior, porque existe urgência em torná-lo um sitio bonito para reconstruir tudo.
E entre os sitios onde fomos felizes e os sitios onde fomos infelizes também há um limbo, há a verdade. Porque bem vistas as coisas, nunca somos tão felizes quanto julgávamos ter sido, nem tão infelizes quanto pensávamos.
Só com o tempo aprendemos a amar o meio caminho. E só com o tempo identificamos os sitios exactos onde sabemos poder deixar o coração a descansar. E o tempo demora sempre demasiado tempo.
Mas, bem vistas as coisas, olhando de cá para lá, já se passaram anos e eu tenho a certeza absoluta de que, se embrulhar o coração para lhe dar descanso, é contigo e é ali que ele vai saber-se finalmente em casa.