Numa amálgama de pessoas comuns, de coisas que se sentem e se querem. Numa fúria e emoção que contorce as visceras e se deixa levar por só mais um pouquinho deste lugar bonito que é a vida, as personagens rendem-se a pequenas evidências, coisas subtis que fazem de nós Gente com Gente Dentro. É um ponto num emaranhado de contos que contam, sem pretensões ou julgamentos, a matéria que tece a realidade, numas vezes crua, dura e amarga, noutras inocente, cuidada, emotiva.
06 junho 2012
"Navios" de Alexandre Gonçalves
Interessa-me é o navio que se está a afundar mas que resiste, o navio que se afoga mas que ainda não morreu, o navio perdido que ninguém sabe onde está, o navio que está no fundo do mar há anos e anos.
Interessam-me os poucos peixes que cruzam no seu trajecto já submarino, interessa-me como se agarra à vida e cria uma vida nova. Já submarina, mas que ainda não sabe como vai respirar, se vai respirar.
E no mar, descobre o azul, descobre a água, descobre o infinito. Os que estão satisfeitos? São meus amigos também. Mas agora não vou pensar no amigo satisfeito, vou pensar nos que já não conseguem manter a cabeça fora de água.
A tempestade submergiu-nos, e o que fazemos hoje é arrancado de nós com sofrimento. Aquela vida normal, tão normal, que também somos obrigados a viver, custa-nos, durante uma grande parte do tempo custa-nos. Não nos peçam para aceitar, para achar que é o melhor possível, para nos resignarmos, para repetir que melhor é impossível.
Eu sei, não nos percebem. Também não vou explicar. Vou só ficar com aqueles navios que se estão a afundar, e com aqueles que vivem no fundo do mar há muito tempo.
Não somos perdidamente felizes, infinitamente felizes, simplesmente felizes. E repete a voz, e repete, e repete: "mas melhor não é possível, melhor não é possível, melhor não é possível".
Eles que repitam, eu vou tentar, eu vou procurar, eu vou fazer. Já faço."
04 junho 2012
Profundo horror
Que o toque não exista, que os cheiros sejam ilusões sensoriais, que o que escutamos esteja camuflado pela gritaria que vem do andar de cima.
É preciso escutar aquilo que está nas entrelinhas, saber exactamente que cartas temos em cima do tampo da mesa. Compreender a neblina por detrás do brilho do olhar.
Para tudo isto é necessária uma sensibilidade e uma ternura pelas coisas quotidianas tremendas. E é tremendo que se pousa o pé nas ripas de madeira do soalho, ainda sem se saber se é frio ou calor aquilo que se vai sentir.
Como pegar num lápis e o pousar numa folha em branco. Antes de ele se mover há um momento de profundo horror. Pode durar milésimas de segundos mas dentro dele, ao longo de todo esse instante, condensam-se questões que se atropelam em catadupa na cabeça.
O que faz sentido, o que se quer dizer, o que se sente, o que não se sente. Aquilo que vou encontrar depois sou eu ou é outra qualquer?
E se eu não gostar dela ou pior, e se eu não gostar de mim? E se eu sentir repulsa por aquilo que eu vou ser depois do lápis se mover de forma esquizofrénica?
A folha deixa de ser branca e torna-se feia por isso. Não são só letras, não. Antes fossem. Sou eu nua, despida, vulnerável, fraca, tímida, tão somente humana e tão ridiculamente pequena.
E não sendo eu, quem será? E porque se mete dentro de mim e me faz sujar esta imaculada brancura? Que me interessa a mim aquilo que ela me diz, se ao menos fossem só palavras.
Ah! Se ao menos fossem só rabiscos, letras mal desenhadas, escritas à pressa com medo que o tempo fuja e não chegue, que escape entre as linhas e fiquem coisas por dizer...
Estas palavras, as que não são só palavras estão minadas, estão cheias de perguntas, não sabem quem são, para o que servem ou a quem pertencem.
É isto que acontece nesse momento, naquele que precede o movimento do lápis e de algum modo o pode vir a transformar em algo bonito e coerente.
Não foi bonito, nem tão pouco coerente, mas foi honesto. E, já se sabe, a honestidade é uma coisa crua, sem arestas limadas ou princesas sentadas, com os seus longos cabelos ao vento, debaixo de uma amendoeira em flor.
Há uma tranquilidade solene quando se termina, finalmente, com um irrevogável, indiscutível, ponto final.
26 maio 2012
Pão, pão; queijo, queijo
Eu tenho um filho. Não, isso não interessa para nada, eu tenho um filho. Sim, claro, sou escritora, cronista, letrista, guionista, e nos tempos livres gosto de acreditar que também pinto, canto e danço. Não é nada interessante, eu não sou nada interessante. Sou a coisa mais banal que vais conhecer ao longo da tua vida inteira, tenho órgãos e sangue e ossos e pele, como como toda a gente, fumo muito (o que é um péssimo hábito), apanho autocarros, acordo com o cabelo desgrenhado, tenho ramelas, há dias em que honestamente detesto o meu corpo. Não sou nada interessante.
Não, não me estás a ouvir. Eu tenho um filho. Não posso embebedar-me todos os dias até à quinta casa, não posso ir de férias sempre que me apetece, não posso ficar acordada a ver filmes até ser dia, todos os dias. E esse filho também tem um pai, e esse pai é importante na medida em que tenho um filho dele, uma história infinita da qual não me vou ver livre nos próximos anos. Vou falar com ele muitas vezes, não vamos discutir, porque nós não discutimos. Vou ser amiga dele, amiga a sério, de vez em quando vamos rir-nos muito, também vamos chorar, vamos falar da família um do outro. Nunca mais vamos para a cama um com o outro, isso nunca. Mas ele, taco-a-taco com o meu filho, vai ser um homem que não vai desaparecer da minha vida.
Eu sei, eu sei que gostas de mim. Mas não me estás a ouvir com atenção. Além de ter um filho, de ter um pai do meu filho, também tenho rachas dentro da alma. Penso muito na morte, fumo mais cigarros, tenho insónias, fico acordada até de manhã à janela a ver nada, a ver vazio, a ouvir os carros passarem na estrada. Depois disto tudo há a musica e o silêncio. Eu gosto dos dois, mais que gostar, preciso deles. Tenho dias absolutamente insuportáveis, em que cito muitas vezes
[“Não sentir ninguém nem falar nem me ver obrigado à condescendência ou à fraternidade. Um egoísta. Deixem-me. Não vou amar o mundo. Estou-me nas tintas.”]
e estou mesmo.
Gostas de mim? Ainda gostas de mim? Porque é que tu gostas de mim? Não gostes de mim, faz-me lá esse favor. É que se tu gostas de mim, eu vou ter de gostar de ti, e depois tu deixas de gostar de mim, e eu não vou ser capaz de deixar de gostar de ti. Porque os sentimentos me ficam agarrados à alma. E depois, com todas estas coisas, eu fico sem coração suficiente para continuar a ter um filho, um pai de um filho, a ser escritora, letrista, guionista, e aos poucos deixo de acreditar que sei pintar, cantar ou dançar. Depois eu fico um corpo esquecido de existir. Não gostes de mim. Eu vou fazer-te mal.
Não sejas parvo. É mais que óbvio que gosto de ti, isso vê-se logo. Mas quero que saibas aquilo que eu sou, que não te enganes, é horrível uma pessoa que gosta de outra pelos motivos errados.
Gostas mesmo de mim, certo, já percebi, não me grites, que eu não gosto de gritos. Mas escuta com atenção, depois não digas que eu não te avisei.
25 maio 2012
“Estilo” de Herberto Helder
“ Se eu quisesse enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio… Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro… Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida… compreende? …a nossa vida, a vida inteira, está ali como… como um acontecimento excessivo… Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas, meses ou anos?”
...e já sei que me vou arrepender.
- Só se for para ti. Quem era aquele gajo que veio contigo para casa ontem à noite?
- Desculpa?!
- Tu ouviste bem o que perguntei. Não te armes em cabra...
- Mas tu agora controlas aquilo que eu faço? Era o que faltava...
- Com o basqueiro que fizeram, acho que todo o prédio ficou a saber. Não me parece que tenhas querido fazer segredo nenhum.
- Não é um segredo, mas também não é da conta de ninguém, muito menos da tua.
- Então podias ter feito menos barulho... Acordaste-me.
- Oh, não me chateies, dói-me a cabeça.
- Imagino, não parecias nada sóbria...
- Mas qual é a tua? 'Tás a armar-te em palerma?!
- Não me vais dizer quem é ele?
- Sei lá!
- Não sabes?!
- Deves ter muito a ver com isso, tu.
- Até tenho...
- Tens?
- Tu gostas é de mim.
- Hm hm, mas tu não me fodes, tenho que arranjar quem o faça por ti.
- Essa era escusada.
- Disse alguma mentira?
- Se o que queres é ser fodida, trata-se já disso.
- Cala-te!
- 'Bora lá... se é isso que te falta...
- Se é isso que me falta faço-o com quem me der na real gana e com quem, no dia seguinte não desapareça da minha cama e me deixe o coração em papa.
- Certo, é justo.
- É justo?! Mas tu és idiota? Ando a quecar com um parvalhão diferente todas as semanas, digo-te com todas as letras que o faço porque me deixas o coração feito em merda, e tu dizes que é justo?
- Hm hm
- Vai-te foder!
- 'Bora?
- 'Bora... mas é a ultima vez, ouviste?
- Hm hm, a última antes da próxima...
- Odeio-te!
- Não odeias nada. Tu amas-me!
- Hm hm, 'bora lá... antes que me arrependa.
... e já sei que me vou arrepender.
24 maio 2012
"Xanax azul-violeta" de Pedro Paixão
Tento acalmar-me. Derreto um Xanax azul-violeta debaixo da língua. É verdade que estou em guerra. Estou em guerra porque estamos em guerra, não por vontade própria. Agora não tenho vontade própria, estou demasiado cansado. Já fiz o que tinha a fazer. Já perdi o suficiente e não consegui. Sei que tu não tens culpa Maria, Joana e Lia. Eu sei de quem é a culpa. Sou eu quem deve carregar comigo. E tu fizeste bem em desaparecer, Tatiana. Quem te agarra o corpo tem mais sorte do que eu. Eu sou pior. Quero logo a alma junto com o corpo. É um tremendo negócio. Meu amor, minha querida. De quem falo? De ti, claro, Maria, Lia e Joana.
Maria, de pele macia, porque me mentias ao dizer que me amavas? Não bastava o resto, a vida inteira. Querias-me só para ti e depois não sabias o que fazer comigo. Na última noite beijaste-me como se fosse a primeira e no dia seguinte abandonaste-me na rua. Como pudeste? Ainda hoje não acredito. Por ti enlouqueci várias vezes para poder voltar a ficar lúcido.
Joana dos cabelos encaracolados, muito pretos, a dançar à frente dos meus dedos. Joana fugidia, áspera, violenta. Nunca soube dizer quem eras e tu não tinhas paciência para a minha demora. Voltavas para as tuas amigas sem desculpas. Deixavas-me com um rasto do teu corpo, do toque dos teus cabelos, e escapavas. Quando me entreguei por completo já não me querias. Era tarde para tudo, dizias. Lia dos olhos suaves, enganadores. Mulheres como tu deviam trazer um aviso de morte. Nem o teu namorado gostava de mim, quanto mais tu. Deitada ao lado dele pensavas em mim. Mas não estavas disposta a arriscar tudo de uma só vez. Por isso deixaste que o amor viesse e não durasse, suave rapariga.
Maria diz que Lia não é Joana. Mas engana-se. Joana é Lia por não ser Maria. E Maria sempre foi Lia e Joana.
Levanto-me da cama e vou até ao quarto de banho. Fico a olhar-me no espelho a ouvir o barulho da água. Tenho de aguentar. Vou aguentar. Não é a primeira vez, não será a última. Uma história não tem fim, se no fim acaba a história.
Toca o telefone. É Rony. Diz-me que vá passar uns dias de férias ao Sul, onde abundam as mulheres desconsoladas. Ou então ao Norte, nas cidades fortificadas. Arranja tudo por bom preço, pacote especial e coisas dessas. Rony, estou cansado. Não quero ir para nenhum lado. Vou ficar aqui até chegar o dia. E depois parto. Vim para acabar com a poesia e a poesia está a dar cabo de mim."
23 maio 2012
Diz-se por aí...
Iam jantar fora entre uma a duas vezes por semana. Pediam sempre o mesmo
[polvo à lagareiro para ela, bitoque para ele].
Enquanto esperavam permaneciam em silêncio, ele escrevia num caderno, ela desenhava na toalha de papel sobre a mesa.
Sobre pedirem sempre o mesmo prato ele gostava. Ela não.
No final da refeição discutiam sempre acerca de quem haveria de pagar a conta. O empregado, já habituado, ficava de longe a ver num misto de indignação e divertimento, pedaços de pão a voar pelo ar, e de uma ou outra vez, um copo partido no linóleo do chão.
Quando a discussão terminava sorriam, beijavam-se e saíam sempre sem pedir desculpa.
Percorriam o caminho até casa um em cada berma da estrada. Em silêncio. Ela gostava. Ele não.
Ao chegar, ele já cansado de escrever e ela farta de desenhar, faziam amor e fumavam cigarros a olhar um para o outro, até que o cansaço levasse a melhor. Adormeciam estranhamente abraçados. Ele gostava. Ela também.
Um dia, já o sol ia alto, ele perguntou-lhe porque não compravam uma televisão, e ela disse-lhe que a televisão emburrecia. Ainda assim, no dia seguinte, ele comprou um aparelho e, quando ela chegou a casa ficaram muito tempo em silêncio a olhar para aquela caixa preta, desligada.
Decidiram não pensar muito no assunto e foram jantar fora. Escolheram os mesmos pratos, discutiram sobre a conta, sorriram, beijaram-se, saíram sem pedir desculpa, regressaram a casa em bermas diferentes. Em vez de fazerem amor quiseram experimentar ver televisão.
Uns meses mais tarde, reza a história que ela deixou de desenhar e ele de escrever. Que deixaram de fazer amor. Que passaram a ir as mesmas uma ou duas vezes por semana jantar, mas ao McDonald's. Que em vez de discutirem acerca da conta, passaram a discutir de forma acesa, sem direito a beijos ou sorrisos, sobre qual o programa que um ou outro queria ver.
Diz, quem os conheceu, que se separaram eventualmente, e que a partilha que mais luta deu foi precisamente a caixa preta. Optaram pela custódia partilhada, quinze dias com um, quinze dias com outro.
Na primeira noite em que ele ficou sem a televisão lembrou-se que ela lhe tinha dito, antes de tudo ser destruído, que a caixinha emburrecia. Foi a casa dela e quando lhe bateu à porta, com o objectivo de agarrar na televisão e a deitar no primeiro contentor que encontrasse, ela lhe gritou lá de dentro
- Agora não, que estou a ver a novela!
Rendido e frustrado pegou no carro e foi ao McDrive, pediu um menu com batatas e bebida grandes, e se foi sentar a porta de uma loja de electrodomésticos, a ver várias caixas pretas piscarem.
Nunca mais ninguém os viu, mas as más linguas dizem que ela acabou por morrer de doença prolongada, daquelas com aqueles nomes enormes e estranhos, que o ZéPovinho comummente chama de "burrice crónica", e que ele, que voltou a escrever, editou um best-seller de seu nome "Merda da televisão".
Mas eu não sei de nada. Isto são as pessoas que falam, que contam histórias e acrescentam-lhe pontos, já se sabe.
A minha teoria é a de que eles, ainda antes de tudo ser destruído, fugiram juntos para o Nepal e que lá estão até aos dias de hoje.
Mas não posso garantir nada. Afinal de contas, eu só cá vim ver a bola.