25 setembro 2012

A morte morre-se muitas vezes

Quando é que páras de morrer? Quero dizer… quando é que morres e levas de uma vez por todas a esperança de que acordes e regresses?

Quem nos é importante demora muito tempo a morrer, e morre muitas vezes dentro de nós. Primeiro morre na iminência da morte, depois morre na notícia da morte, depois ainda morre no velório, no enterro, na missa… morre muitas outras vezes em todas as lágrimas que lhe são dedicadas e outras tantas por cada vez que é contada uma história sobre ele, e as histórias são eternas… enquanto existir alguém que as conte essa pessoa há-de definhar lentamente para todos os que lhe sobreviveram. E raios, como é difícil ser-se um sobrevivente.

Não se morre por se morrer, morre-se pelos outros. Quando desapareceremos, desaparecemos, parece simples e terminal. Um ponto final na ultima frase do ultimo livro de um escritor que já não vai escrever nem mais uma palavra. Definitivamente definitivo, o final.

Após estas mortes todas, há uma que resta, subtil e entre a neblina. No cemitério onde o corpo se vai desfazendo aos poucos, a morte sobrevive ao próprio morto, é que depois do corpo ter desaparecido, ele continua a morrer devagar. O mistério do seu desaparecimento continua a assombrar quem cá fica, quem continua a visitar a campa que diz que é para recordar mas não, isso é mentira. Continua-se a visitar da campa do nosso morto que não acaba nunca de morrer para ver se está tudo no sitio, se por um qualquer passe de mágica a lápide não está ligeiramente mexida, se não há terra espalhada com um rasto, por mínimo que seja, que nos leve a algum lado onde o nosso morto nos espere com o sorriso de quem acabou de pregar a maior partida da história da humanidade, a nós, e aos outros, aos que continuam a morrer para as pessoas que passam por nós na rua com lágrimas escondidas e machados cravados no peito, e nós, que os reconhecemos, a adivinhar-lhes um morto nalgum sitio ermo, escuro, solitário.

Quem morre nunca acaba de morrer. É esse o verdadeiro peso de se não morrer, ter de suportar, dia após dia, noite após noite, a carga dos nossos mortos que teimam em não morrer. E é por isso que somos mortais, porque mais tarde ou cedo acabávamos por definhar cheios da morte dentro de nós, e aí tornavamo-nos mortos-vivos, metade cá e metade lá, metade a viver e a outra metade a morrer lentamente, sem nunca acabar de morrer, com as mãos cheias dos olhares dos nossos mortos.

21 setembro 2012

Não vás. Não vás já.

A abrir caminho por entre as velas espalhadas na nave central que desenhavam mórbida mas estranhamente pacificas o trajecto até ti. O último.

Aquilo não fazia sentido nenhum, continua a não fazer, mas na altura menos ainda. Agarrada ao teu caixão, meu amor, queria dizer-te para não ires, para virares costas ao que quer que fosse que tinhas à tua frente e voltasses para trás, para mim. Tantos anos e nem uma discussão acesa, nem um arrufo mais violento, nem uma única vez vontade de te dizer

- Vai-te embora!

Onde é que já se viu agora deixares-me para aqui sozinha, a cuidar do nosso gato, a cozinhar no nosso fogão e a comer com os nossos talheres.

É uma dor infinita esta a de já não te ter comigo. A de já não escutar a tua voz, a de, dia após dias, me ir esquecendo lentamente da tua pele na minha, das tuas mãos a afagarem o meu cabelo, do teu sorriso pregado ao meu. Dói-me Diogo, que queres que faça?

Entre aquelas velinhas todas lá estavas tu, deitado muito direito, vestido com um fato que te não conhecia, como de resto nunca te conheci fato nenhum, detestavas as camisas cheias de botões que davam trabalho, as gravatas que te esganavam, os botões de punho pavorosos que tinhas de herança e nunca usaste. Diogo, estavas ali à distancia de um sussurro meu e eu sem poder sussurrar para dentro de ti porque já não me ouvias

- Não vás. Não vás já, meu amor, que o nosso amor ainda não acabou.

A preferir que voltasses e nos desentendêssemos, que acabássemos o nosso amor, que o matássemos com o tempo e com a erosão da memória. A querer que voltasses para que me pudesse zangar contigo e depois, quando realmente partisses, eu não sofresse desta maneira. Com tanta força querer doar as minhas recordações, de que é que me valem agora as lembranças de ti?

Eu não sei de nada, Diogo. Só sei que não tarda é noite escura, noite fria e húmida e me vai custar horrores não ter o teu corpo para me enroscar, a tua cova perfeita entre o ombro e o pescoço para aninhar o meu rosto. Não tarda é dia e a casa já não vai ter o ruído dos teus passos, nem o ralo do lavatório os teus pelos da barba, nem nada. Não tarda é noite, e depois dia, e depois noite novamente e eu vou ter que me habituar a viver sem a tua presença. E, Diogo, bem sabes que eu não quero habituar-me à tua ausência. A minha voz que já não escutas

- Não vás. Não vás já, meu amor, que o nosso amor ainda não acabou.

E não acabou. Não acabou. Não acabou. E que faço, pergunto a quem de direito, que tu já não me respondes, com o nosso amor que não acabou?

Como é que eu vou agora, diz-me! rogo-te!, explicar ao meu coração que aquilo que ele sente por ti tem de acabar sem no entanto, nem de perto nem de longe, ter sequer chegado a aproximar-se de acabar?  Como é que eu vou caminhar repetidamente em sonhos, por entre as velinhas da nave central, para te encontrar ali, irremediavelmente morto, irremediavelmente triste, e ficar a olhar-te ali, irremediavelmente morta, irremediavelmente triste?

15 setembro 2012

O Monstro (segundo a sua senhoria)

E entretanto quis fugir. Foram os rostos, todos difusos, todos iguais, todos sem expressão ou emoção.

De repente eu já não era eu, era uma continuação daquilo que não compreendia, uma gosma viscosa que sugava o pedantismo e se transformava numa besta de quatro olhos, cinco pernas e espumava, espumava, espumava…

A sede. Tanta sede de um liquido que não existe. Sede de medo, de raiva, de ansiedade, tudo enfiado numa taça. Vontade gutural de engolir aquilo tudo e de me tornar ainda mais uma aberração.

De nada adiantava fugir, os membros não se moviam. Queriam mais daquilo, mais do inefável ruído podre que se entranhava nas vísceras e provocava vómitos.Tudo tremia, tudo estava em excesso, se não eram lágrimas eram fluidos descarnados de medos profundos e antigos.

O dia entardeceu com pressa, e o Monstro deixou-se ficar sentado à lareira quentinha do meu coração. Riu alto, sentiu qualquer coisa semelhante (mas não igual) à felicidade. Estava em casa. Da minha parte deixei-o ficar, os monstros, segundo consta na acta milenar da minha alma, condizem com a minha decoração interior.

02 setembro 2012

É a isto que se chama amor. Fácil.

Na morte não há heróis. Venha quem vier, não são heróis os que partem nem os que ficam, os que ficam muito menos.

Sofre-se de forma dolorosamente solitária a ausência, a repentina falta da voz, do cheiro, do toque. Ficam sempre palavras por dizer, penduradas nos olhos cabisbaixos semi-envergonhados de quem não teve tempo para as agarrar no ar e as soprar para quem o deixou.

Há uma injustiça tremenda na morte. Na morte em si, no desaparecimento total e sem sentido de um corpo que já nos abraçou, de um rosto que já se virou por nos ouvir chamar, de um olhar que já parou em cima do nosso para prestar atenção não só ao que dizíamos com a boca mas principalmente àquilo que pretendíamos que ficasse compreendido sem letras.

Não há heróis, já disse. Ninguém enfrenta estoicamente a perda de quem, por mais anos que nos passem por cima, nos vai fazer falta. Ainda que se não queira existem as lágrimas, e depois, por cima disso, existe o buraco profundo que permanece por tempo indeterminado e provavelmente infinito por dentro, num sitio qualquer ermo sem nome, não é bem no peito, não é bem na cabeça, é em todos estes lados e estende-se para lá do nosso próprio corpo, toca aquilo que tocamos, entranha-se na comida que comemos que perde sabor, contamina a água com que tomamos banho e não descola, não desaparece. Perdura para lá do aceitável e suportável.

Não é a dor que passa com o nascer sucessivo do Sol, dia após dia, é a união física que ao desaparecer, cria em nós a ilusão de que fica mais ligeiro o sofrimento, mas não fica. É impossível, é uma loucura, uma insensatez a que nos permitimos porque senão a vida em si, a que continua deste lado, tornava-se de tal modo insustentável que de repente o buraco dentro e fora de nós já éramos nós e desaparecíamos inclusos nele, parte dele, escuridão como ele.

Torna-se penoso sobreviver a perdas consecutivas. A vida converte-se num sitio solitário, cada vez mais só. As pessoas que nos amaram e a quem amámos vão desabitando de nós as suas vidas e este é um caminho tortuoso e triste. Tão desoladoramente triste quando as baixas se vão amontoando, amontoando, tombando à nossa volta como peças de um dominó cansado de inventar malabarismos para sobreviver a fazer os restantes dias valer a pena.

Não existem heróis na morte. A morte deve ser chorada, deve revoltar-nos, deve fazer de nós meninos a bater com o pé e a perguntar vezes e vezes sem conta “porquê?!”, deve ser sofrida para dentro e para fora, e mesmo que o mundo não pare para esperar que o sofrimento amaine, ele que se dane, que gire, que continue a sua azáfama indiferente à nossa dor, é nossa e deve ser louvada, porque só quem ama desmesuradamente é capaz de aceitar e se deixar arrastar para o abismo porque sabe o preço altíssimo da saudade.

Quando ela chegar, a morte, compreende que há quem compreenda também, que há quem fique no escuro à espreita, com cuidado, afastado enquanto nos quiserem afastados, mas que entendem e, enquanto for permitido, não querem desabitar de tua, a vida deles.

Somos os comandantes uns dos outros, é nossa obrigação certificarmo-nos de que na hora certa, não devem existir heróis, e para isso estamos lá, de pé fincado nas entranhas da vida uns dos outros. E é a isto que se chama amor. Fácil.

26 agosto 2012

Trapalhadas, palermolas e decisões tomadas em dias de tempestade

O mundo divide-se entre dois tipos de pessoas: as que eu amei e as que eu gostava de ter amado. Estes dois tipos de pessoas, por sua vez, cada um bem dentro de cada categoria, subdivide-se noutros que catalogo entre, dentro das pessoas que amei, as que foi bom amar e as que não poderiam ter sido mais erradas (embora amá-las tenha sabido bem); e dentro das que eu gostava de ter amado, as que teriam sido boas, tão boas para mim, e as que, por portas e travessas, eu sei que teriam sido boas de amar, pelo amor debaixo das pálpebras ainda que em dias de cegueira tempestiva total e absoluta.

Resumindo, e eu que não gosto de resumir coisa nenhuma, fica sempre tanto por decifrar, esclarecer e enaltecer nas coisas resumidas e espremidas, existem dentro de cada laia as boas e as más pessoas, por falta de melhor forma de as reduzir a insignificâncias que podem não merecer, mas que a força das circunstancias assim o obrigam.

Aprende-se a amar cedo, no recreio da infantil ama-se aquilo que de desdenha, o miúdo que nos rouba os brinquedos, que nos espreita na casa de banho, que nos puxa os carrapitos ou nos chama nomes. Sabe-se hoje, à partida, que estava criada a receita perfeita para a desgraça, para se nos cravejarem subtis mas eternas as primeiras fissuras no peito.

Mais tarde, do alto de toda a sabedoria fútil de que nos ensinam os desenhos animados de meninas loiras quase-perfeitas, com corpos impossíveis mas perfeitos, que têm 10 anos mas já usam saltos altos e ainda por cima salvam o mundo de terroríficos ataques de monstros crivados de olhos, braços e gosma verde a escapar entre as narinas arreganhadas, amamos o rapaz mais burro mas bonito da sala. Ignoramos quem tenha sido John Nash e lutamos todas pelo mesmo desgraçado que, além de não merecer essa luta e cabelos arrancados, nunca fica com nenhuma, porque quando a luta termina já estamos a começar a descobrir que aquele palermolas de cabelo perfeitamente penteado só quer é jogar à bola e espreitar-nos debaixo da saia sem saber o que fazer com aquilo que lá encontra.

Quando o amor à seria aparece já nós estamos tão confusas com aquilo tudo que lhe trocamos as voltas, damos o dito por não dito, enrolamo-nos em cambalhotas efectuadas com pouca perícia e por isso mesmo lá nos vamos habitando de ossos partidos, nódoas negras e lesões mal curadas.

Parece impossível mas é mais ou menos por esta altura que notamos que existe uma arguta diferença entre amar aquilo que amamos e aquilo que nos faz bem. Decidimos sem sabermos o que isso realmente significa amar aquilo que amamos, só porque sim, só porque no meio de tanta trapalhada, cabelos penteados e desdém, julgamos que aquilo que nos faz bem é o que nos acelera o peito e nos provoca turbulência nos órgãos.

È agora, só agora, depois da decisão estar tomada, que as gavetas se enchem daqueles dois tipos de pessoas: as que amamos e as que gostávamos de ter amado. Quando compreendemos esta diferença já a carroça passou e levou os cavalos com a abóbora e os pós de perlimpimpim dentro, ficamos com a cómoda escancarada cheia de rostos que nos fitam e nós de mãos e pés atados, cheias de vontade, mortas da vontade de pegar naquilo tudo e os trocar de sitio. São só as pessoas que gostávamos de ter amado aquelas que devíamos ter amado, por todos os motivos e mais alguns, mas principalmente porque seriam essas aquelas que nos teriam amado na mesma medida e em cima disso tudo, como se fosse pouco, nos teriam feito bem, só bem. Simples.

Mas enfim, teremos sempre a Navegante da Lua que dentro dos seus fatos incríveis, das suas pernas de metro e meio, e do seu loiro ofuscante, vai fazer por nós aquilo que não soubemos fazer na altura certa: lutar com monstros crivados de olhos, braços e gosma verde a escapar entre as narinas arreganhadas, e claro, amar aquilo que efectivamente lhe faz bem. Só bem. Simples.

16 agosto 2012

Sr. Grilo ou A embriaguez do silêncio

Quando o silêncio não chega, ainda que absoluto, o que fazer aos pedaços quebrados que se vão empoleirando e preenchendo o chão em volta?

Há discórdia, estranheza, confusão e revolta contra o silêncio. O nada é uma ideia, só uma ideia de onde se parte para outras, mais grandiosas, respeitáveis, fáceis de aceitar. O vazio não se entende, existe desabitado daquilo que se conhece, que se sabe certo, ordinário e sóbrio.

Quem está bem dentro da solidão está embriagado de ruídos mortíferos, de granadas, de coisas pequenas que se tornam imensas, de coisas imensas que, gradualmente e de forma dolorosa, se tornam pequenas. Entontece a alma ver a solidão de dentro, entornam-se lá para dentro anos e anos de vida, relógios parados, paredes que gritam, pessoas que não falam por estarem mortas, bandejas de refeições que não sabem a coisa nenhuma, animais enraivecidos de dentes arreganhados.

Há dias em que tudo diz:

“A vida a ficar pequenina, não é Sr. Grilo?”

e aquilo de repente faz sentido. Vamos tomar a bica e em vez da conta

“A vida a ficar pequenina, não é Sr. Grilo?”

estamos no supermercado e a menina da caixa, em vez de pedir os cupões de desconto

“A vida a ficar pequenina, não é Sr. Grilo?”

arrumamos o carro e o arrumador, em vez de pedir uns trocos nos sussurra, bafiento de alcool, drogas, e falta de sexo

“A vida a ficar pequenina, não é Sr.Grilo?”

Chega-se a casa e o espaço parece gritantemente claustrofóbico, tudo nos falta e tudo nos sufoca, os sofás estão no canto errado da sala, a cómoda incomoda porque estamos sempre a bater com o dedo mindinho na esquina, apesar de a sabermos no mesmo sitio desde há anos, os talheres são em demasia para uma casa onde se come sempre sozinho. Descobrem-se palavras no meio dos atoalhados, encontram-se gestos na água fervente do chuveiro, escutam-se choros debaixo da tinta da parede, já gasta. Olha-se para a janela, julga-se ver um vulto que esbraceja furiosamente do outro lado, no prédio em frente. Não se acredita, precisará de ajuda? Esfregam-se os olhos com força, fechamo-los ligeiramente em tom de miopia. Lá está o vizinho de quem não se conhece o nome e que grita, suplicante

“A vida a ficar pequenina, não é Sr. Grilo?”

Na borda do passeio vai, saltitante e feliz, o Pinóquio, que ainda acredita, coitadinho, que a fada madrinha o vai transformar num menino… de verdade.

10 agosto 2012

E nada o vento levou…

Havia um televisor antigo na sala. Calado, num silêncio suplicante. Um televisor em sofrimento. Sentia-se que tinha coisas para dizer, mas sem poder, coitado, para sempre silenciado por outros mais modernos, mais bonitos, com imagens mais nítidas, com acesso a alta definição. Via-se que estava sozinho entre vasos de plantas meias murchas, também elas a sofrer, a requerer amor em sítios onde já não existia amor para dar.

Dentro do televisor, onde só existia negro, sem imagem, movimento ou som, vi o teu rosto impenetrável, abandonado à perda, sem compreender os desígnios daquilo que a vida nos vais colocando no prato para comer e calar, porque lá está, “é a vida”, “faz parte”,´”há que ser forte e seguir em frente”…

E quando não se quer seguir em frente? Quando o mundo desaba e nós sem sabermos como nem onde. O teu rosto parado no ecrã desligado, despovoado da ternura evidente e gritante dos que por ordem absolutamente normal e esperada nos deviam dar a mão, ensinar-nos como apertar os cordões ás sapatilhas, dar um aperto de mão “à homem”, descodificar aquilo que o tempo nos vai entregando para decifrar…

E Rhett Butler grita aos meus ouvidos:

“You shloud be kissed, and often. And by someone who knows how…”

e eu devia beijar-te agora. Devia pegar na tua mão e levar-te para longe. Encontrar-nos junto à linha férrea e sentar-me ao teu lado no primeiro comboio que passasse, na carruagem que parasse exactamente à nossa frente, enquanto a tua mão tremia junto à minha e eu a apertava com força e te dizia sem precisar de usar palavras, que estava tudo bem, que te levava para onde o ruído fosse suportável, para onde o teu rosto não estivesse infinitamente parado, sofrido, tétrico e nebuloso pelos toques que te foram roubados sem que tivesses possibilidade de os reter dentro de ti, de lhes dares o beijo que mereciam, o beijo que durasse o resto das horas e dos dias que tentas encher com a palha que julgas preencher o vazio que a ausência desses olhares deixaram para sempre cravadas no teu corpo.

E sussurra a Scarlett junto ao teu ouvido: “I came 'cause I was so miserable at the thought of you in trouble”

e sou eu quem o sussurra para dentro de ti. E tudo o vento levou é uma mentira. Nada, meu querido, nada o vento levou. Fica tudo intocável, impenetrável, inviolável, no sitio onde não sabes, mas podes sempre regressar, porque dentro do peito (onde se escondem as emoções), reside e permanece aquilo que nos move, aquilo que no final de contas e no final do dia realmente importa, o amor.

E o amor não existe no espaço nem no tempo, está parado, como o televisor antigo, com as memórias. Essas são tuas e ninguém as pode roubar. Leva-as, são tuas, até ao fim das coisas que nunca se hão-de extinguir.