12 outubro 2012

A vida foi doce nas Fontainhas

A vida foi doce e lenta nas Fontainhas. Se a lambêssemos, se tivéssemos essa coragem, ela sabia a marmelada com queijo, a dióspiros maduros, a bacalhau na brasa e a massa com atum, tudo confeccionado com requintes de ternura e esperança e vontade e ilusão boa de sentir.

Lembro-me bem das janelas, podia senti-las agora mesmo, tocar-lhes devagar, puxar a maçaneta e abri-las de par em par, respirar fundo o ar frio que fazia esvoaçar os meus cabelos e me fazia chorar da alegria imensa que era aquela paz toda a inundar as nossas paredes. Fomos felizes em cada recanto.

Nunca tivemos sofá, só um puff, umas almofadas no chão e as cadeiras da mesa de jantar. Um móvel pequeno cheio dos nossos CD’s, com a aparelhagem na prateleira do meio, e a televisão pequeníssima e velha na do topo. As paredes tinham textura, papel de parede amarelado com veios sedosos que se podiam tocar com ternura, onde colávamos os posters que roubávamos das paredes da rua que anunciavam concertos que não podíamos ir ver porque o dinheiro não dava para tudo.

A minha mesa de trabalho estava encostada a uma das janelas da sala, sempre cheia de nós: tecidos, tintas, negativos, material de desenho, a tua câmara, os meus livros. A alegria de comprarmos um CD e o ouvirmos até à exaustão, dia-após-dia, noite a dentro.

A rua era calma, éramos poucos mas tínhamos sempre mercado onde comprávamos fruta e legumes, e a antiga feira da Vandôma de onde trazíamos sempre qualquer coisa que fosse barata mas bonita, principalmente que fosse nossa. Em frente um muro velho onde, invariavelmente, estava sentada a D. Teresinha, uma senhora de idade cheia de uma vida dolorosa (via-se nos ossos, no caminhar, no sorriso envergonhado, que tinha sido dolorosa) por quem nos apaixonámos instantaneamente, que nos segurava nos braços suplicante por um pedaço de pão que fosse. E nós partilhávamos. Nunca nos esquecíamos dela, fizesse chuva ou sol. Nunca me hei-de esquecer do olhar dela, sempre tão dentro do nosso.

O nosso quarto tinha o colchão no chão e um guarda-fatos, um baú pequeno com as nossas coisas (velas, algumas pulseiras, fotos especiais, recordações), um candeeiro pousado no soalho (ora de um lado da cama, ora do outro, dependia de quem ficava até mais tarde acordado) e um rádio que transportávamos diariamente para todos os cantos da casa.

Onde mais falávamos era na casa de banho. Um de nós na sanita e o outro sentado no chão (com o rádio), ou um de nós a tomar banho e outro na sanita (sempre com o rádio). Ficámos sem luz na zona do quarto e da casa de banho durante uns bons seis meses, eram extensões por tudo quanto era sitio, o candeeiro servia de lanterna de um lado para o outro e os banhos eram tomados quase às escuras. Continuava a ser doce e lenta a vida nas Fontainhas.

Nunca devíamos ter saído de lá. Fomos felizes como é hoje impossível ser-se feliz. Qualquer dia volto lá. A D. Teresinha já deve ter morrido, mas devem viver pessoas lá em casa. Toco-lhes à campainha, subo para um chá e digo-lhes:

- Foi tão doce viver aqui…

Abro as janelas de par em par e sinto o frio encher-me os olhos de lágrimas novamente. Depois desço as escadas rapidamente, percorro a rua a passos largos e nunca mais lá regresso. Dizem que não devemos voltar aos sítios onde fomos felizes, e eu acredito. Hei-de sempre acreditar.

10 outubro 2012

Horas penduradas no tecto

Passei a noite em branco, às voltas com o coração nas mãos a ver as horas saltar do visor. Foi pavoroso. As horas saltavam e penduravam-se no tecto, inquisidoras. Que inquerem? Que querem? É de mim ou vocês são todas as horas do planeta, com o peso de todas as pessoas que passaram esta noite em branco com o coração nas mãos a ver-vos saltitar para fora do quarto, e vocês a percorrerem as ruas, as vielas mal iluminadas, os bosques escuros e frios, as praias de areia branca e fina, tão fina que parece o pó que se acumula nas prateleiras dos livros que já ninguém vai voltar a ler?

Estive acordada horas e horas a fio, a tentar trocar as voltas às emoções, a desfragmentar os momentos, a muito custo a reduzi-los a insignificâncias que eu sei que não merecem mas que, esta noite que passou, eu não tive coragem suficiente para reconhecer.

Ás vezes apetece-me desistir. Falar de uma vez por todas, deitar tudo por terra e aliviar o peso das tantas comoções que tenho compactadas em mim. Não suporto já andar sempre tão cansada, tão triste, tão sedenta de coisas às quais não sei dar nome. Aspiro ao total esquecimento de mim, já não tolero esta náusea, este querer sem querer, a melancolia profunda com que preencho as horas para não ter de as encher com a ternura que  não quero sentir.

Passei a noite em branco a tentar não sentir e tudo aquilo que fiz foi sentir. As fórmulas mágicas deixaram de funcionar, o botão que me desligava deu sumiço. E como é que eu pude ser tão imprudente para deixar que isto acontecesse? Como pude ser tão irresponsável e arrogante, como pude esquecer que todas as histórias já foram contadas e que agora, neste instante, o mundo estremeceu debaixo dos meus pés.

É capaz de ser do sono. Sim, é realmente capaz de ser do sono. Tenho a certeza de que se dormir sobre este assunto, quando acordar ele já não existe. Ele já não existe. Já não existe. Que na verdade nunca existiu, isto foram só os efeitos da ressaca. Uma pessoa deita-se com um corpo qualquer e depois já passou. Se eu me deixar tocar por outra pele, já passou. Se substituir isto por outra emoção, já passou. Se eu mantiver a fórmula que sempre funcionou, já passou. Se eu for capaz de me esquecer que tenho coração, já passou. Se eu deixar de sentir, tenho a certeza que já passou.

[…e porquê? porque é que ainda não passou?…]

07 outubro 2012

Amorzade

Mas porque e para que raio havemos de ser todos amigos? Amiguinhos daqueles do coração, que gostam tanto uns dos outros que se nos aperta o peito só de imaginar que algum desses amigos se encontra em apuros, doente, de coração partido ou lágrima a escorrer no peito?

Para que é que serve essa coisa toda de nos amarmos todos assim, de forma tão trágica, tão terminal, como se o rodopiar do mundo a qualquer momento nos pudesse levar vendaval a dentro perdidos no infinito Universo de onde já não sabemos voltar?

É um fardo terrível, uma pessoa sofre horrores com tanta ternura, com tanto carinho e incondicionalidade. Somos tão amigos, tão amigos que usamos o peito uns dos outros a nosso bel-prazer, ele há dias em que é almofada fofa onde deitamos a cabeça e a deixamos a descansar, ele é copo de vinho onde afogamos infortúnios, ele é bola de malabarismo em mãos de palhaço que nos faz rir até que a dor no estômago não seja mais suportável. Usamo-nos tanto, roubamos tanto uns dos outros.

Chega a ser penoso, uma exigência emocional de tal magnitude que existem inclusive os dias em que julgamos que sem eles, os amigos, não sobrevivemos, falta-nos o ar, sufocamos tanto dentro do amor absoluto que nos temos uns aos outros.

Há dias em que me apetece chorar. Em que vos tenho tanto dentro de mim que me sinto cheia, quase indigesta. Há dias em que choro para vos expulsar de dentro de mim, por medo de, um dia em que o meu peito vos seja necessário como almofada, copo de vinho, bola de malabarismo, eu já não tenha espaço para vos acolher e vos conseguir abraçar com todo o sangue, todos os poros, toda a ternura de que é feito o sentimento que tenho guardado só para vocês.

A culpa disto é vossa, do vosso amor, e do meu. In-con-di-cio-nal.

Desumanidades

“O lugar de onde vim era-me insuportável. Aconteciam demasiadas coisas. Coisas que se atropelavam. Coisas sem sentido algum, abomináveis. A corrupção instalada. O Estado corrompido. Crianças violadas. Tudo isto no meio de um riso histérico e um desespero absoluto. O lugar de onde vim já tinha perdido, ou pior, estava na iminência de perder tudo o que era seu, um destino qualquer. Só restavam as casas, as ruas, uma paisagem em ruínas. Comecei a perguntar-me se os seres que tinham cara e falavam seriam humanos. Era difícil encontrar um resto, um rasto de humanidade. Senti o terror de já ser como os demais: uma cara e uma boca desumanas. Só restavam as pedras, umas sobre as outras. E por baixo dos gritos, da tagarelice infinita, um silêncio de morte.

Comecei a chorar de manhã, à tarde e à noite. A chorar sem saber por que chorava. A chorar só. Comecei a tomar demasiados comprimidos, a beber cervejas a toda a hora, a fumar dois maços de cigarros. Não deixava de ser insuportável. Só quando dormia era suportável. Tive de fazer as malas com as poucas forças que me restavam e fugir dali num derradeiro acesso de lucidez ou de inconsciente coragem.

O que será feito de mim? O que será feito do mundo? O que deveria ser feito? Como deverá ser feito? E para que fim?

Acordei. Tomei um duche rápido. Tomei o pequeno-almoço e a minha alma sinto-a levemente a estremecer.”

Pedro Paixão em “Quase gosto da vida que tenho”

04 outubro 2012

Amor em tempos de pré-revolução

Éramos um país à beira da revolução.

Não sei como fui tão burro que me apaixonei e por ti, e pior, tu tão desatenta que acabaste por te apaixonar por mim também. Que estupidez, que falta de cuidado, uma irresponsabilidade que duas pessoas se apaixonem, tenham a terrível ousadia de se apaixonarem quando o mundo inteiro está em guerra, quando existem pessoas a passar fome, onde em cada esquina proliferam e se reproduzem sem-abrigos que sabe deus receberem um sorriso ao longo de todo o dia, e nós, ali, inconsequentes, apaixonados um pelo outro, a trocarmos beijos sobre o rebenta-minas, a abraçarmo-nos em bicos de pés sobre espingardas, a darmos as mãos com força em volta de cartazes revolucionários que falam da injustiça, da raiva, do desalento e da miséria.

Não sei como fomos tão idiotas, os dois, que a culpa não morre solteira. Como ao primeiro contacto nos estatelamos no chão um do outro, dentro do peito, e no mesmo momento, à nossa volta as pessoas perdiam casas, empregos, dignidade e lentamente se desfaziam em passes mágicos malabaristas para serem capazes da façanha de colocarem uma refeição na mesa para os filhos.

Egoísmo puro, caturrice desconexa, teimosia exacerbada, a de querermos à força amarmo-nos num sitio falido como este. Quem poderia aceitar emoções em polvorosa como aquelas que tivemos a insensatez de sentir? Como não julgar o nosso amor por indiferença pelos danos dos outros?

Fugimos para que não nos privassem, para que não nos enfiassem olhos dentro palavras de ódio, de rancor, de revolta. A nossa pena era o contágio, tínhamos medo, muito medo de que todo aquele sofrimento entrasse dentro de nós e nos condenasse ao abandono das coisas que por vergonha e pudor têm de desaparecer.

Horror de nos termos apaixonado num sitio débil como este país à beira da revolução. Embrulharemos e protegeremos o nosso amor até que nos falte o fôlego, nunca iremos perdoar àqueles que fizeram tanto mal à terra que nos viu nascer e nos repetem incessantemente que o é o dinheiro que nos move, que nos reduzem a números sem tecto, que amor é ficção, é novela, é utopia. Repetiremos de volta, até que as espingardas nos explodam debaixo dos pés, que o amor, esse, será sempre o mais importante. Ainda que insensato, estúpido, inconsequente, irresponsável. Aliás, principalmente por tudo isto, e por muito muito mais.

25 setembro 2012

A morte morre-se muitas vezes

Quando é que páras de morrer? Quero dizer… quando é que morres e levas de uma vez por todas a esperança de que acordes e regresses?

Quem nos é importante demora muito tempo a morrer, e morre muitas vezes dentro de nós. Primeiro morre na iminência da morte, depois morre na notícia da morte, depois ainda morre no velório, no enterro, na missa… morre muitas outras vezes em todas as lágrimas que lhe são dedicadas e outras tantas por cada vez que é contada uma história sobre ele, e as histórias são eternas… enquanto existir alguém que as conte essa pessoa há-de definhar lentamente para todos os que lhe sobreviveram. E raios, como é difícil ser-se um sobrevivente.

Não se morre por se morrer, morre-se pelos outros. Quando desapareceremos, desaparecemos, parece simples e terminal. Um ponto final na ultima frase do ultimo livro de um escritor que já não vai escrever nem mais uma palavra. Definitivamente definitivo, o final.

Após estas mortes todas, há uma que resta, subtil e entre a neblina. No cemitério onde o corpo se vai desfazendo aos poucos, a morte sobrevive ao próprio morto, é que depois do corpo ter desaparecido, ele continua a morrer devagar. O mistério do seu desaparecimento continua a assombrar quem cá fica, quem continua a visitar a campa que diz que é para recordar mas não, isso é mentira. Continua-se a visitar da campa do nosso morto que não acaba nunca de morrer para ver se está tudo no sitio, se por um qualquer passe de mágica a lápide não está ligeiramente mexida, se não há terra espalhada com um rasto, por mínimo que seja, que nos leve a algum lado onde o nosso morto nos espere com o sorriso de quem acabou de pregar a maior partida da história da humanidade, a nós, e aos outros, aos que continuam a morrer para as pessoas que passam por nós na rua com lágrimas escondidas e machados cravados no peito, e nós, que os reconhecemos, a adivinhar-lhes um morto nalgum sitio ermo, escuro, solitário.

Quem morre nunca acaba de morrer. É esse o verdadeiro peso de se não morrer, ter de suportar, dia após dia, noite após noite, a carga dos nossos mortos que teimam em não morrer. E é por isso que somos mortais, porque mais tarde ou cedo acabávamos por definhar cheios da morte dentro de nós, e aí tornavamo-nos mortos-vivos, metade cá e metade lá, metade a viver e a outra metade a morrer lentamente, sem nunca acabar de morrer, com as mãos cheias dos olhares dos nossos mortos.

21 setembro 2012

Não vás. Não vás já.

A abrir caminho por entre as velas espalhadas na nave central que desenhavam mórbida mas estranhamente pacificas o trajecto até ti. O último.

Aquilo não fazia sentido nenhum, continua a não fazer, mas na altura menos ainda. Agarrada ao teu caixão, meu amor, queria dizer-te para não ires, para virares costas ao que quer que fosse que tinhas à tua frente e voltasses para trás, para mim. Tantos anos e nem uma discussão acesa, nem um arrufo mais violento, nem uma única vez vontade de te dizer

- Vai-te embora!

Onde é que já se viu agora deixares-me para aqui sozinha, a cuidar do nosso gato, a cozinhar no nosso fogão e a comer com os nossos talheres.

É uma dor infinita esta a de já não te ter comigo. A de já não escutar a tua voz, a de, dia após dias, me ir esquecendo lentamente da tua pele na minha, das tuas mãos a afagarem o meu cabelo, do teu sorriso pregado ao meu. Dói-me Diogo, que queres que faça?

Entre aquelas velinhas todas lá estavas tu, deitado muito direito, vestido com um fato que te não conhecia, como de resto nunca te conheci fato nenhum, detestavas as camisas cheias de botões que davam trabalho, as gravatas que te esganavam, os botões de punho pavorosos que tinhas de herança e nunca usaste. Diogo, estavas ali à distancia de um sussurro meu e eu sem poder sussurrar para dentro de ti porque já não me ouvias

- Não vás. Não vás já, meu amor, que o nosso amor ainda não acabou.

A preferir que voltasses e nos desentendêssemos, que acabássemos o nosso amor, que o matássemos com o tempo e com a erosão da memória. A querer que voltasses para que me pudesse zangar contigo e depois, quando realmente partisses, eu não sofresse desta maneira. Com tanta força querer doar as minhas recordações, de que é que me valem agora as lembranças de ti?

Eu não sei de nada, Diogo. Só sei que não tarda é noite escura, noite fria e húmida e me vai custar horrores não ter o teu corpo para me enroscar, a tua cova perfeita entre o ombro e o pescoço para aninhar o meu rosto. Não tarda é dia e a casa já não vai ter o ruído dos teus passos, nem o ralo do lavatório os teus pelos da barba, nem nada. Não tarda é noite, e depois dia, e depois noite novamente e eu vou ter que me habituar a viver sem a tua presença. E, Diogo, bem sabes que eu não quero habituar-me à tua ausência. A minha voz que já não escutas

- Não vás. Não vás já, meu amor, que o nosso amor ainda não acabou.

E não acabou. Não acabou. Não acabou. E que faço, pergunto a quem de direito, que tu já não me respondes, com o nosso amor que não acabou?

Como é que eu vou agora, diz-me! rogo-te!, explicar ao meu coração que aquilo que ele sente por ti tem de acabar sem no entanto, nem de perto nem de longe, ter sequer chegado a aproximar-se de acabar?  Como é que eu vou caminhar repetidamente em sonhos, por entre as velinhas da nave central, para te encontrar ali, irremediavelmente morto, irremediavelmente triste, e ficar a olhar-te ali, irremediavelmente morta, irremediavelmente triste?

15 setembro 2012

O Monstro (segundo a sua senhoria)

E entretanto quis fugir. Foram os rostos, todos difusos, todos iguais, todos sem expressão ou emoção.

De repente eu já não era eu, era uma continuação daquilo que não compreendia, uma gosma viscosa que sugava o pedantismo e se transformava numa besta de quatro olhos, cinco pernas e espumava, espumava, espumava…

A sede. Tanta sede de um liquido que não existe. Sede de medo, de raiva, de ansiedade, tudo enfiado numa taça. Vontade gutural de engolir aquilo tudo e de me tornar ainda mais uma aberração.

De nada adiantava fugir, os membros não se moviam. Queriam mais daquilo, mais do inefável ruído podre que se entranhava nas vísceras e provocava vómitos.Tudo tremia, tudo estava em excesso, se não eram lágrimas eram fluidos descarnados de medos profundos e antigos.

O dia entardeceu com pressa, e o Monstro deixou-se ficar sentado à lareira quentinha do meu coração. Riu alto, sentiu qualquer coisa semelhante (mas não igual) à felicidade. Estava em casa. Da minha parte deixei-o ficar, os monstros, segundo consta na acta milenar da minha alma, condizem com a minha decoração interior.

02 setembro 2012

É a isto que se chama amor. Fácil.

Na morte não há heróis. Venha quem vier, não são heróis os que partem nem os que ficam, os que ficam muito menos.

Sofre-se de forma dolorosamente solitária a ausência, a repentina falta da voz, do cheiro, do toque. Ficam sempre palavras por dizer, penduradas nos olhos cabisbaixos semi-envergonhados de quem não teve tempo para as agarrar no ar e as soprar para quem o deixou.

Há uma injustiça tremenda na morte. Na morte em si, no desaparecimento total e sem sentido de um corpo que já nos abraçou, de um rosto que já se virou por nos ouvir chamar, de um olhar que já parou em cima do nosso para prestar atenção não só ao que dizíamos com a boca mas principalmente àquilo que pretendíamos que ficasse compreendido sem letras.

Não há heróis, já disse. Ninguém enfrenta estoicamente a perda de quem, por mais anos que nos passem por cima, nos vai fazer falta. Ainda que se não queira existem as lágrimas, e depois, por cima disso, existe o buraco profundo que permanece por tempo indeterminado e provavelmente infinito por dentro, num sitio qualquer ermo sem nome, não é bem no peito, não é bem na cabeça, é em todos estes lados e estende-se para lá do nosso próprio corpo, toca aquilo que tocamos, entranha-se na comida que comemos que perde sabor, contamina a água com que tomamos banho e não descola, não desaparece. Perdura para lá do aceitável e suportável.

Não é a dor que passa com o nascer sucessivo do Sol, dia após dia, é a união física que ao desaparecer, cria em nós a ilusão de que fica mais ligeiro o sofrimento, mas não fica. É impossível, é uma loucura, uma insensatez a que nos permitimos porque senão a vida em si, a que continua deste lado, tornava-se de tal modo insustentável que de repente o buraco dentro e fora de nós já éramos nós e desaparecíamos inclusos nele, parte dele, escuridão como ele.

Torna-se penoso sobreviver a perdas consecutivas. A vida converte-se num sitio solitário, cada vez mais só. As pessoas que nos amaram e a quem amámos vão desabitando de nós as suas vidas e este é um caminho tortuoso e triste. Tão desoladoramente triste quando as baixas se vão amontoando, amontoando, tombando à nossa volta como peças de um dominó cansado de inventar malabarismos para sobreviver a fazer os restantes dias valer a pena.

Não existem heróis na morte. A morte deve ser chorada, deve revoltar-nos, deve fazer de nós meninos a bater com o pé e a perguntar vezes e vezes sem conta “porquê?!”, deve ser sofrida para dentro e para fora, e mesmo que o mundo não pare para esperar que o sofrimento amaine, ele que se dane, que gire, que continue a sua azáfama indiferente à nossa dor, é nossa e deve ser louvada, porque só quem ama desmesuradamente é capaz de aceitar e se deixar arrastar para o abismo porque sabe o preço altíssimo da saudade.

Quando ela chegar, a morte, compreende que há quem compreenda também, que há quem fique no escuro à espreita, com cuidado, afastado enquanto nos quiserem afastados, mas que entendem e, enquanto for permitido, não querem desabitar de tua, a vida deles.

Somos os comandantes uns dos outros, é nossa obrigação certificarmo-nos de que na hora certa, não devem existir heróis, e para isso estamos lá, de pé fincado nas entranhas da vida uns dos outros. E é a isto que se chama amor. Fácil.

26 agosto 2012

Trapalhadas, palermolas e decisões tomadas em dias de tempestade

O mundo divide-se entre dois tipos de pessoas: as que eu amei e as que eu gostava de ter amado. Estes dois tipos de pessoas, por sua vez, cada um bem dentro de cada categoria, subdivide-se noutros que catalogo entre, dentro das pessoas que amei, as que foi bom amar e as que não poderiam ter sido mais erradas (embora amá-las tenha sabido bem); e dentro das que eu gostava de ter amado, as que teriam sido boas, tão boas para mim, e as que, por portas e travessas, eu sei que teriam sido boas de amar, pelo amor debaixo das pálpebras ainda que em dias de cegueira tempestiva total e absoluta.

Resumindo, e eu que não gosto de resumir coisa nenhuma, fica sempre tanto por decifrar, esclarecer e enaltecer nas coisas resumidas e espremidas, existem dentro de cada laia as boas e as más pessoas, por falta de melhor forma de as reduzir a insignificâncias que podem não merecer, mas que a força das circunstancias assim o obrigam.

Aprende-se a amar cedo, no recreio da infantil ama-se aquilo que de desdenha, o miúdo que nos rouba os brinquedos, que nos espreita na casa de banho, que nos puxa os carrapitos ou nos chama nomes. Sabe-se hoje, à partida, que estava criada a receita perfeita para a desgraça, para se nos cravejarem subtis mas eternas as primeiras fissuras no peito.

Mais tarde, do alto de toda a sabedoria fútil de que nos ensinam os desenhos animados de meninas loiras quase-perfeitas, com corpos impossíveis mas perfeitos, que têm 10 anos mas já usam saltos altos e ainda por cima salvam o mundo de terroríficos ataques de monstros crivados de olhos, braços e gosma verde a escapar entre as narinas arreganhadas, amamos o rapaz mais burro mas bonito da sala. Ignoramos quem tenha sido John Nash e lutamos todas pelo mesmo desgraçado que, além de não merecer essa luta e cabelos arrancados, nunca fica com nenhuma, porque quando a luta termina já estamos a começar a descobrir que aquele palermolas de cabelo perfeitamente penteado só quer é jogar à bola e espreitar-nos debaixo da saia sem saber o que fazer com aquilo que lá encontra.

Quando o amor à seria aparece já nós estamos tão confusas com aquilo tudo que lhe trocamos as voltas, damos o dito por não dito, enrolamo-nos em cambalhotas efectuadas com pouca perícia e por isso mesmo lá nos vamos habitando de ossos partidos, nódoas negras e lesões mal curadas.

Parece impossível mas é mais ou menos por esta altura que notamos que existe uma arguta diferença entre amar aquilo que amamos e aquilo que nos faz bem. Decidimos sem sabermos o que isso realmente significa amar aquilo que amamos, só porque sim, só porque no meio de tanta trapalhada, cabelos penteados e desdém, julgamos que aquilo que nos faz bem é o que nos acelera o peito e nos provoca turbulência nos órgãos.

È agora, só agora, depois da decisão estar tomada, que as gavetas se enchem daqueles dois tipos de pessoas: as que amamos e as que gostávamos de ter amado. Quando compreendemos esta diferença já a carroça passou e levou os cavalos com a abóbora e os pós de perlimpimpim dentro, ficamos com a cómoda escancarada cheia de rostos que nos fitam e nós de mãos e pés atados, cheias de vontade, mortas da vontade de pegar naquilo tudo e os trocar de sitio. São só as pessoas que gostávamos de ter amado aquelas que devíamos ter amado, por todos os motivos e mais alguns, mas principalmente porque seriam essas aquelas que nos teriam amado na mesma medida e em cima disso tudo, como se fosse pouco, nos teriam feito bem, só bem. Simples.

Mas enfim, teremos sempre a Navegante da Lua que dentro dos seus fatos incríveis, das suas pernas de metro e meio, e do seu loiro ofuscante, vai fazer por nós aquilo que não soubemos fazer na altura certa: lutar com monstros crivados de olhos, braços e gosma verde a escapar entre as narinas arreganhadas, e claro, amar aquilo que efectivamente lhe faz bem. Só bem. Simples.

16 agosto 2012

Sr. Grilo ou A embriaguez do silêncio

Quando o silêncio não chega, ainda que absoluto, o que fazer aos pedaços quebrados que se vão empoleirando e preenchendo o chão em volta?

Há discórdia, estranheza, confusão e revolta contra o silêncio. O nada é uma ideia, só uma ideia de onde se parte para outras, mais grandiosas, respeitáveis, fáceis de aceitar. O vazio não se entende, existe desabitado daquilo que se conhece, que se sabe certo, ordinário e sóbrio.

Quem está bem dentro da solidão está embriagado de ruídos mortíferos, de granadas, de coisas pequenas que se tornam imensas, de coisas imensas que, gradualmente e de forma dolorosa, se tornam pequenas. Entontece a alma ver a solidão de dentro, entornam-se lá para dentro anos e anos de vida, relógios parados, paredes que gritam, pessoas que não falam por estarem mortas, bandejas de refeições que não sabem a coisa nenhuma, animais enraivecidos de dentes arreganhados.

Há dias em que tudo diz:

“A vida a ficar pequenina, não é Sr. Grilo?”

e aquilo de repente faz sentido. Vamos tomar a bica e em vez da conta

“A vida a ficar pequenina, não é Sr. Grilo?”

estamos no supermercado e a menina da caixa, em vez de pedir os cupões de desconto

“A vida a ficar pequenina, não é Sr. Grilo?”

arrumamos o carro e o arrumador, em vez de pedir uns trocos nos sussurra, bafiento de alcool, drogas, e falta de sexo

“A vida a ficar pequenina, não é Sr.Grilo?”

Chega-se a casa e o espaço parece gritantemente claustrofóbico, tudo nos falta e tudo nos sufoca, os sofás estão no canto errado da sala, a cómoda incomoda porque estamos sempre a bater com o dedo mindinho na esquina, apesar de a sabermos no mesmo sitio desde há anos, os talheres são em demasia para uma casa onde se come sempre sozinho. Descobrem-se palavras no meio dos atoalhados, encontram-se gestos na água fervente do chuveiro, escutam-se choros debaixo da tinta da parede, já gasta. Olha-se para a janela, julga-se ver um vulto que esbraceja furiosamente do outro lado, no prédio em frente. Não se acredita, precisará de ajuda? Esfregam-se os olhos com força, fechamo-los ligeiramente em tom de miopia. Lá está o vizinho de quem não se conhece o nome e que grita, suplicante

“A vida a ficar pequenina, não é Sr. Grilo?”

Na borda do passeio vai, saltitante e feliz, o Pinóquio, que ainda acredita, coitadinho, que a fada madrinha o vai transformar num menino… de verdade.

10 agosto 2012

E nada o vento levou…

Havia um televisor antigo na sala. Calado, num silêncio suplicante. Um televisor em sofrimento. Sentia-se que tinha coisas para dizer, mas sem poder, coitado, para sempre silenciado por outros mais modernos, mais bonitos, com imagens mais nítidas, com acesso a alta definição. Via-se que estava sozinho entre vasos de plantas meias murchas, também elas a sofrer, a requerer amor em sítios onde já não existia amor para dar.

Dentro do televisor, onde só existia negro, sem imagem, movimento ou som, vi o teu rosto impenetrável, abandonado à perda, sem compreender os desígnios daquilo que a vida nos vais colocando no prato para comer e calar, porque lá está, “é a vida”, “faz parte”,´”há que ser forte e seguir em frente”…

E quando não se quer seguir em frente? Quando o mundo desaba e nós sem sabermos como nem onde. O teu rosto parado no ecrã desligado, despovoado da ternura evidente e gritante dos que por ordem absolutamente normal e esperada nos deviam dar a mão, ensinar-nos como apertar os cordões ás sapatilhas, dar um aperto de mão “à homem”, descodificar aquilo que o tempo nos vai entregando para decifrar…

E Rhett Butler grita aos meus ouvidos:

“You shloud be kissed, and often. And by someone who knows how…”

e eu devia beijar-te agora. Devia pegar na tua mão e levar-te para longe. Encontrar-nos junto à linha férrea e sentar-me ao teu lado no primeiro comboio que passasse, na carruagem que parasse exactamente à nossa frente, enquanto a tua mão tremia junto à minha e eu a apertava com força e te dizia sem precisar de usar palavras, que estava tudo bem, que te levava para onde o ruído fosse suportável, para onde o teu rosto não estivesse infinitamente parado, sofrido, tétrico e nebuloso pelos toques que te foram roubados sem que tivesses possibilidade de os reter dentro de ti, de lhes dares o beijo que mereciam, o beijo que durasse o resto das horas e dos dias que tentas encher com a palha que julgas preencher o vazio que a ausência desses olhares deixaram para sempre cravadas no teu corpo.

E sussurra a Scarlett junto ao teu ouvido: “I came 'cause I was so miserable at the thought of you in trouble”

e sou eu quem o sussurra para dentro de ti. E tudo o vento levou é uma mentira. Nada, meu querido, nada o vento levou. Fica tudo intocável, impenetrável, inviolável, no sitio onde não sabes, mas podes sempre regressar, porque dentro do peito (onde se escondem as emoções), reside e permanece aquilo que nos move, aquilo que no final de contas e no final do dia realmente importa, o amor.

E o amor não existe no espaço nem no tempo, está parado, como o televisor antigo, com as memórias. Essas são tuas e ninguém as pode roubar. Leva-as, são tuas, até ao fim das coisas que nunca se hão-de extinguir.

24 julho 2012

Conto de falhas

Não conseguia respirar. Não era possível respirar. Em volta tanto e tão pouco ar. As mãos pousadas no colo e as veias salientes pulavam, arquejavam furiosamente, quando regressavam à mão eram um chicote de encontro aos ossos, à carne.

E depois já não estava ali, tocaram no ombro e o olhar fugiu para para o rosto do amigo em pânico a contar que aprendeu a nadar quando o pai o atirou para dentro de água e lhe disse:

- Agora safa-te!

e ele com medo, a esbracejar, a querer que alguém lhe pusesse a mão e o tirasse dali. A lutar contra a corrente, a dançar com o rosto fora e dentro num sufoco desmedido. A imagem do pai de braços cruzados firmemente sobre o peito a observá-lo de longe, rígido, impenetrável. E ele a safar-se, eventualmente.

Não era possível respirar. A garganta ardia, as palavras não saiam nem arrancadas a ferros, as mãos procuravam impacientemente encontrar um buraco no pescoço por onde o ar pudesse entrar, mas era tudo pele, tudo coberto, matéria inviolável, impenetrável. Os olhos não viam já, o tacto falhava em concordância com o batimento cardíaco que desacelerava…desacelerava… a língua seca buscava exílio no exterior onde não existia sequer uma brisa.

Tudo em volta estava parado, finalmente parado. Tudo em volta estava vazio. O dentro se fez fora, o negro caminhou dançante sobre a pele e criou uma neblina pacifica em torno. Os pés pararam de tremer, o olhar parou para admirar a maravilhosa cor do intimo arrebanhado, hasteado em praça publica, a escorrer o sangue que fedia a história, passado, fantasmas e monstros debaixo da cama. O sublime que era, por fim, ver as próprias entranhas serem arrancadas de si e pousadas no tampo da mesa para que as pudesse comer, trincar, arranhar. Eventualmente até, para as poder matar e só aí ser capaz de compreender a ironia que é estar e ser, finalmente livre. Dos outros, mas principalmente de si mesmo.

08 julho 2012

No escuro não se vê com os olhos

É urgente que se pare para pensar, racionalizar as emoções. Não nos deixarmos levar pelo êxtase, pelo entusiasmo das coisas efémeras.

Não é que não sejamos boas pessoas, que somos. Não é que não sejamos amáveis no sentido em que somos passíveis de ser amados, que somos. Não é que não tenhamos virtudes, que temos. Mas em boa verdade, nem todos nos servimos dentro uns dos outros.

Aquilo que queremos da vida é completamente diferente daquilo que a vida quer de nós. Repito, é preciso tornar coerentes, claras e concisas as emoções. Não nos apaixonarmos pelas pessoas pelos motivos errados. Não lhes construir personalidade onde ela pode bem nem sequer existir. Não querermos por força transformar aqueles que nos invadem o peito em peças de lego, que somos capazes de construir ao nosso gosto para que os possamos amar.

É obrigatório que se coloquem os pontos devidos nos i’s, perseguir-lhes o olhar para saber onde se vai pousar. Saber se no mesmo instante, perante uma mesma imagem, a vida nos explode nas vísceras com a mesma intensidade.

Ao longo do caminho há que apertar a mão com força, saber-nos ali, no mesmo empedrado geométrico da estrada, e não numa bifurcação de terra batida. Ninguém devia caminhar sozinho julgando estar acompanhado.

No escuro não se vê com os olhos, mas com o tacto, e com o sangue fervente nas veias.

Tudo se suporta em silêncio

Estou a ficar velha, cansada, gorda e cada vez mais sozinha. Tenho quase quarenta e sete anos, um filho, um ex-marido e uma cadela.

Vivo numa casa que se pode dizer bonita, tem um pequeno logradouro. Nesse logradouro tenho roseiras, algumas ervas aromáticas e uma camélia. Rego-as todas as manhãs e tardes, de Verão, e de manhã, de Inverno.

Tenho um emprego que me permite jantar fora duas ou três vezes por semana, viajar para outros países duas vezes por ano, comprar roupa pelo menos uma vez por mês, e cometer loucuras relacionadas com tecnologia de, pelo menos, três em três meses. Ganho bem, trabalho muito, aprecio pouco…cada vez menos.

Numa dessas duas ou três vezes por semana em que janto fora, vou sempre ao mesmo restaurante com um grupo pequeno mas coeso e já de longa data de amigas. Nenhuma delas trabalha comigo, são pessoas de outras áreas e isso orgulha-me. Com as do meu emprego dou-me pouco, tomamos café de manhã, à hora de almoço e ao lanche no escritório, e de resto tenho os seus contactos no telemóvel por pura cortesia.

O meu filho vive longe, com a namorada. É boa rapariga, gosto dela, mas não me meto entre eles. Sempre me ensinaram que os sobressaltos e as emoções se devem sentir em silêncio, e é isso que faço. De tempos a tempos eles vêem cá passar uns dias, fazem a vida deles e juntamo-nos ao jantar, já aconteceu irmos ao cinema, mas não falamos muito, não temos já nada para dizer. Olhamo-nos, eu e o meu filho, fatigados, como se soubéssemos que temos coisas para perdoar um ao outro. E perdoamo-nos. Em silêncio.

A culpa disto é da minha mãe, que Deus a tenha em descanso absoluto. Eu amava-a tanto, e ela sempre a fugir-me. Eu queria tanto abraçá-la, e ela sempre a afastar-me. A dizer de forma insistente e séria:

- Tudo se suporta em silêncio. Quanto mais rápido aprenderes isto, mais depressa arranjas marido e endireitas a tua vida.

E assim foi. Aos 24 apaixonei-me, ou julguei apaixonar-me, e aos 26 já estava de anel no dedo, a partilhar casa com um homem que mal conhecia, para todos os efeitos. Fomos felizes com alguma remissa, quando engravidei fiquei contente, julguei que seria nessa altura que a solidão se ia despegar do meu corpo, e que nunca mais estaria à deriva dentro da minha própria vida. Não foi assim. Fiquei mais triste. O meu marido tinha um coração enorme, tão grande que não cabia lá só uma pessoa, por isso as chamadas a meio da noite repetiam-se e, como me ensinaram a sofrer para dentro e em silêncio, aos poucos ele deixou sequer de fazer segredo. Ambos sabíamos, ninguém dizia nada, e os dias iam-se amontoando em cima uns dos outros.

Um dia ele disse-me que ia embora. E foi. Não fiquei especialmente abatida, e aquilo não me surpreendeu. O meu filho ficou comigo, ia passar os fins de semana de quinze em quinze dias com o pai, na escola tudo corria bem.

Estou cada vez mais velha, gorda e cansada. E a culpa disto tudo é da minha mãe, e do silêncio, que em vez de me endireitar a vida, escaqueirou-a de forma irremediável e diga-se, ridiculamente patética. 

04 julho 2012

Cenário

“Cenário… Dentro de tua casa, no teu quarto… Eu e tu…”

Começou assim.

È claro que antes do quarto, antes da casa, já existíamos dentro um do outro. Era um mistério para todos, mas não para nós. Sabíamos da inevitabilidade do toque antes ainda de ele existir, tínhamos a certeza de estarmos a fazer sexo um com o outro muito antes de termos os olhos em cima um do outro. Mas isto são outras histórias. Do que hoje é imperativo falar, por pena de um qualquer cataclismo ou catástrofe natural, é do sexo, do toque, do refúgio, do instinto.

Tu não conhecias o sabor da minha pele, tinhas uma vaga ideia, é certo. Já o tinhas imaginado tantas vezes quantas as que tínhamos feito sexo na tua cabeça, e na minha, mas a certeza do sabor de uma pele é coisa que só acontece depois de acontecer.

Já no meu quarto, mas ainda longe de chegar à cama, já as tuas mãos, das quais eu também só tinha uma ideia do peso sobre o meu corpo, agarravam com urgência, mas força, a minha cintura. Eu tinha o meu corpo de encontro ao teu, o espaço que nos separava era longo, apesar de quase inexistente, mas a necessidade continuada de te sentir em mim obrigava-me a puxar-te mais para perto, o mais perto possível, como se o único lugar certo fosse dentro do teu corpo, e tu dentro do meu.

Os teus braços envolveram as minhas pernas que se entrelaçaram à volta da tua cintura e sem nenhum de nós compreender exactamente como, já todo o teu corpo pesava sobre o meu, semi-nu, na cama. A roupa estava em excesso, tudo ardia e queimava, junto ao teu ouvido, sabia que a minha respiração era uma suplica quase. A violência de se querer sentir como se sente quando se quer, e quando o querer já é um vírus, um rastilho à espera de ser ateado.

Quando entraste finalmente dentro de mim tudo o resto ficou suspenso. Á nossa volta existiam todas as coisas de que se foge porque as desejamos em demasia, porque somos animais. Raiva, vingança, amor, coisas das quais se sentem saudades e às quais não sabemos dar nomes ainda, palavras que estavam por dizer, outras que é preciso que se repitam, a incredulidade de que aquilo existia e era real, explosões em sítios adormecidos, as minhas mãos a agarrem-te com violência, os teus olhos fechados com os meus lá dentro. Todas as guerras, tiroteios, gritos, urgências, condensadas no exacto momento em que o tempo já não tem tempo, já deixou de existir, já desistiu de procurar explicações para aquilo que não pode ser calculado.

Enquanto recuperámos a respiração tínhamos o rosto cheio de nós, já não sabíamos os nossos nomes, inventámo-nos outros, esquecemo-nos de quem éramos. Dentro da cabeça ficámos com turbilhões de perguntas que não tinham palavras para serem articuladas. Nada disto foi pensado ou premeditado, enquanto nos fomos embrulhando um no outro, nada disto eram pensamento ordenados ou lógicos, eram sombras difusas de desejos que queimavam aquilo que tínhamos dentro.

Já não sei se foi exactamente assim, de certo há dias em que nem sei se foi, nem levemente, assim. Olho para as imagens que quis manter paradas, como fotografias, do teu rosto pousado no meu, e já não sei bem porque ordem o sexo aconteceu. Sei que foi intenso, total, urgente e que durou a vida inteira de horas, que se prolongaram de forma supostamente infinita nos nossos corpos. Sei que estivemos lá, os dois, e que naquele momento, não existia mesmo mais nenhum lugar certo para se estar e ser.

   “Cenário… Dentro de tua casa, no teu quarto… Eu e tu…”

Começou assim.

02 julho 2012

Traços e cicatrizes

Eu vou amar-te pelas rugas no teu rosto. Pelos traços e cicatrizes que cruzarem o teu corpo.

Vou amar-te pelo teu sorriso, pela tua fome no olhar. Pelos movimentos dos teus braços enquanto falas. Pela tonalidade da tua voz, pela forma como a colocas, pelas pausas que fazes, pelo silêncio que pesa entre algumas palavras.

Por muito bem que te sirva, ou por muito que o queiras, não serei um filho da puta. Não te vou trair, nem magoar. Não te vou ofender. Se deixar de te amar vou saber dizê-lo com cuidado, para não te rasgar os sentimentos. Vou respeitar-te, sempre. Se alguma vez discutirmos e eu levantar a voz, se te fizer mal de algum modo, peço-te que mo digas, para que eu possa pedir-te imediatamente perdão, porque certamente não o terei feito deliberadamente.

Quando fizermos amor vou ser inteiramente teu, e tomar-te-ei como inteiramente minha. Não vou pedir nem dar menos que o total e absoluto. Amar-mo-nos só nestas condições.

Se não for assim não te quero na minha vida. Até aparecer quem valha a pena há que perder muito tempo com quem não presta, e para isso tenho eu jeito. Faço-o como poucos, e bato recordes na estupidez, fugacidade e futilidade das relações. Não te deixes enganar pelo amor que tenho por ti, é real, mas não incondicional. Tão certo como ser completo, é o facto de eu ser capaz de saltar para fora do teu navio e correr o oceano a nado para outros veleiros, coisas mais pequenas, mas que me dão aquilo que eu quero, mais que não seja por escassas horas.

Eu vou amar-te pelas rugas no teu rosto. Pelos traços e cicatrizes que cruzarem o teu corpo. Quero ser uma dessas rugas, uma dessas cicatrizes. Quero-te a ti. Tu. Mulher dos olhos bonitos e tristes. Quero o teu cheiro na minha roupa. Quero o teu suor na minha pele. Quero que os nossos abraços tenham a forma dos nossos corpos.

Não me obrigues a aperfeiçoar uma técnica em que já sou perfeito. Não faças com que eu tenha, mais uma vez, que nadar em mar alto até encontrar uma jangada frágil que se quebre com o meu peso e que por isso tenha que abandonar imediatamente.

Vou amar-te pelo teu sorriso, pela tua fome no olhar. Pelos movimentos dos teus braços enquanto falas. Pela tonalidade da tua voz, pela forma como a colocas, pelas pausas que fazes, pelo silêncio que pesa entre algumas palavras.

As tuas, mas principalmente as minhas, que encho de ti.

01 julho 2012

O sitio onde se escondem as emoções

A certa altura envelhece-se sem ressentimento.

Aprendi isto com a Dona Teresa. A Dona Teresa era uma senhora de idade avançada, sempre teve uma idade avançada, que vivia em frente à casa do meu pai.

Nunca soube quantos anos tinha, sempre foi velha, velhinha. Tinha o olhar de quem vive com carne, pele, coração, ossos, memórias, infernos, lágrimas, dentro da vida. Que carrega tudo isto e muito mais de forma estóica. Como quem sabe de cor os sintomas e consequências de uma doença prolongada e fatal.

Nunca lhe ouvi a voz, nem ela a minha. Mas nos olhos dela aprendi isto: que com o passar do tempo, com as rugas, as quedas, o medo acumulado, a velhice vem sem mágoa, e as pessoas que vão passando por nós vão deixando cada vez mais delas, sem no entanto levarem tanto de nós.

Dona Teresa. Dona Teresa. Quem me dera a mim um dia envelhecer tanto e tão bem como ela. Quem me dera saber hoje e agora, o que é realmente isso de se envelhecer sem ressentimento, sem arrependimento, sem balbúrdia e turbulência no sitio onde se escondem as emoções.

Dona Teresa. Os seus olhos eram um ecrã de um filme. Do filme da vida dela. Dona Teresa, que eu já não sei onde está, que morreu muito provavelmente, que tem dias em que me faz falta encontrar os olhos dela atrás da janela para reaprender o Sol, as horas e o perdão. 

30 junho 2012

As melhores pessoas

As melhores pessoas do mundo são as que estão metidas no avesso da minha vida. Aquelas que têm etiquetas gastas, as que se colam à minha pele, as que têm costuras em relevo de encontro aos meus poros.

Essas pessoas estão lá (aqui), em resultado de uma série de casualidades que se transformaram em inevitabilidades. Gosto que tenham esbarrado com a minha respiração e eu com a delas, e que a certa altura tenham decidido que queriam ficar tanto quanto eu as queria manter, e se foram deixando encostar ao meu peito como quem se sente, finalmente, em casa.

São as melhores de fundo, e as mais bonitas de alma. Ninguém é mais desoladoramente bonito quanto as criaturas que trago por dentro, porque se lá estão, continuam e sobrevivem à passagem e erosão do tempo, espaço e outros conhecimentos, é porque têm em si mesmas um brilho diferente, aquele que trazem os que sabem o preço da ternura, saudade e palavras.

Tenho medo. Um medo atroz de que me sejam roubadas, que partam para outros lados sem que eu tenha tempo de lhes dizer adeus. Medo inquietante de que sejam elas a ir antes de mim. Medo de não suportar a ideia de que serei, de modo inevitável, obrigada a sobreviver sem elas, sobre elas, apesar delas.

As melhores pessoas do mundo são as minhas. São as que sabem que são as minhas pessoas preferidas, independentemente daquilo que digam, façam, errem ou acertem. São as mais inteligentes, interessantes, divertidas e completas. São as que têm falhas, corações partidos e mil cicatrizes atrás da pele.   

As melhores pessoas do mundo são as que estão metidas no avesso da minha vida.

19 junho 2012

A maior mentira da civilização

- Vou amar-te para sempre.

dizias, e o teu rosto tinha luz.

Mas o amor a não ser uma promessa. Quando me juravas amar para sempre eu sorria, quase feliz, mas haviam sombras, incredulidade, a maior mentira da civilização.

O amor não se promete, meu querido. Não se pode prometer algo que não sabemos conseguir cumprir. E isso é justo, é certo, é bonito. O amor dura apenas o tempo que lhe for possível durar, quando se o garante ele deixa de existir, porque a sua forma mais pura tem alicerces na verdade, na honestidade, e a afirmação de que ele vai durar para sempre é em si própria já uma mentira.

Seria da maior ternura e lealdade teres-me dito que me ias amar enquanto eu te fosse real, notável e especial, e isto eu saberia respeitar, e amar-te-ia mais ainda, se fosse possível.

Se fôssemos como a maioria das criaturas o nosso amor duraria uns meses, e que ninguém duvidasse da sua intensidade, porque ela seria genuína e autentica, embora transitória e fugaz. Se nos tivéssemos realmente dentro do peito um do outro, estaríamos um para o outro durante alguns anos, depois a vida acontecia e nós teimávamos em não querer sequer saber aquilo que nós tínhamos acontecido à vida. Separávamo-nos com um beijo e um até já. Na melhor das hipóteses, se nos amássemos verdadeiramente, seria a morte a levar o nosso amor para outros campos. De qualquer forma, como vês e tão bem sabes, o amor tem sempre um fim. Não é eterno nem imperecível. É débil e frágil. E só tem importância pela sua fraqueza.

Se o amor fosse uma promessa, de que magia seria feito?

Só o amor que não sabe o que é o amor pode ser amor real, completo.

De ti, meu querido, não quero promessas de amor eterno. Só quero a tua garantia de verdade e honestidade. Se novamente te ouço

- Vou amar-te para sempre.

Então despeço-me com um beijo, ausento de mim a tua vida, e dentro só desilusão, decepção e mentira, porque quem ama não mente e tu terás acabado de me enganar com a maior mentira da história da civilização.