17 fevereiro 2012

A casa ao fundo

A casa ao fundo. Sozinha na colina feita de arvoredo, animais escondidos e brincadeiras antigas.
Num esforço estoico tentou lembrar-se da ultima vez que tinha ali estado, organizou mentalmente alguns episódios possiveis, mas não foi capaz de os catalogar cronologicamente. Fora já há muito tempo. Demasiado.
[e o tempo pesa nas memórias.]
Afagou a mesa da cozinha. Madeira gasta, pequenas protuberâncias de cortes cheios de anos dentro. Inalou profundamente. O odor permanecia intocável, mais vazio talvez.
[as pessoas quando morrem levam as memórias das coisas que tocaram para longe.]
Percorreu lentamente as divisões da casa. Silêncio. Só um passo atrás do outro. Toc-Toc-Toc.
O barulho de pratos no lava-loiça, a água a correr.

"Mãe!"

E correu ao encontro do que sabia ser nada. Do que sabia ser o invisivel corpo da mãe encostado à banca, de avental às riscas e toutiço na nuca.

"Chega-me esse pano. Não, esse não, esse é o das mãos. O outro, dos quadrados."
"Sim, mãe."

Levou a mão ao gancho preso nos azulejos brancos imaculados. Pegou com cuidado no pano imaginário. O dos quadrados. Sentiu-lhe o tecido fino, cada fio. Por fim passou-o à mãe.

"Obrigada, Julia."

E curvou-se ligeiramente para receber o beijo que não estava lá, num exercicio perfeito de mimica.
O som do jipe a estacionar no quintal, a voz do pai ao longe.

"Julia, vem ajudar-me a descarregar a lenha."

E ela distraída com qualquer coisa. Não se recordava ao certo do quê: uma borboleta, o riso do apresentador da televisão, a cadência perfeita e mecânica com que a mãe pegava num prato e o enchia de espuma perfumada, depois o passava por água e o punha a escorrer?

"Julia, não ouves o teu pai a chamar? Anda, vai lá. Despacha-te!"
"Sim, mãe."

Como que a acordar de um sonho.
Chegou ao átrio e apressou-se a pegar num cepo grande e pesado que o pai segurava.
O toque. O toque do pai. O toque da mão do pai, segura, forte, áspera. Toque electrico, ainda tão longe de morto.

"Segura bem Julia. Não deixes cair."
"Sim, pai."

E regressou a casa pela porta principal. Pesada da sensação que era ter um cepo daquelas dimensões nos braços. Grávida de cheiros, sensações e lembranças.
Pousou-o com cuidado junto à lareira já acesa.
[havia sempre uma lareira acesa n' A casa ao fundo]
Aproximou as mãos do lume inexistente e esfregou-as, a segurar o coração entre elas, a não deixá-lo cair. A massajá-lo para que não parasse de bater.
De novo o silêncio. De novo o vazio. De novo os passos Toc-Toc-Toc. De novo já não existir pano pendurado no gancho preso nos imaculados azulejos brancos da cozinha. De novo o lume extinguido e o cesto da lenha cheio de ar e restos de cinza.
Sentou-se á mesa e percorreu vagarosamente cada corte. Afundou-se mais na cadeira, chorou durante algum tempo sobre a percepção de que depois de tantos anos, depois de perdido o que foi perdido, depois dos sorrisos, dos abraços e da morte, ela era a única, a seguinte, a última. Que da próxima vez que lhe batessem àquela porta seria para a embrulhar num pano aos quadrados e a levarem para onde exista uma lareira sempre acesa e esteja sempre quente.
Preparou café e fumou um cigarro.
[Truz-Truz-Truz]
Primeiro confundiu o ruido com os seus passos, depois compreendeu que batiam à porta furiosamente. Olhou de soslaio a maçaneta, ficou a escutar os murros constantes que desferiam na madeira velha da porta. Considerou não a abrir, deixar-se ficar, fingir que já a tinham levado. Enganá-la.

"Julia, não ouves a porta? Vai lá ver se é gente viva ou morta"
"Sim, mãe..."

Rodou a maçaneta e suspirou.

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