22 março 2012

Importancia relativa

Não vou dizer quem ela é, não é importante. A única coisa importante é o que ela é dentro da pele.  Era amiga da minha bisavó, muito amiga. Da bisavó que me deu o nome que carrego com orgulho, não pelas letras mas pelo legado que me foi deixado pendurado em cada sílaba.
Porque Beatrizes há muitas, imensas, então da geração que tem agora entre quatro a sete anos são um horror delas.
Para cada um que opta por dar este nome a uma filha, os motivos podem ser mais que muios. Para muitas familias será um nome nobre, eloquente, quase lirico, para outras a dado momento ficaram presas entre Leonor, Matilde e Beatriz, e podem ter optado pelo último porque na escola será a primeira a ser chamada, se as carteiras forem dispostas por ordem alfabética ocuparão os lugares mais à frente, mais perto da voz e do olhar atento da professora.
Na minha familia foi a minha bisavó. Alentejana analfabeta, não sabia ler nem escrever, coisa que a mim me fazia uma confusão dos diabos, habituada desde sempre a saber que os "crescidos" sabiam mais do que eu, tanto mais do que eu. Para mim, na minha inocência e pequenez, se ela não sabia descodificar simples letras numa folha de papel, não me podia ajudar nos trabalhos de casa, não me podia ler livros em voz alta, que poderia saber?
Tanto, tanto mais que a maioria dos "crescidos". A vida foi-lhe um fardo dificil, mas sempre que me recordo dela lá estão os olhos muito azuis a chispar de brilho atrás dos óculos redondos parecidos com os do John Lenon, o cabelo tão branco a emoldurar-lhe o rosto de neve, o sorriso gentil e bondoso.
Portanto, a história do meu nome é muito mais que a história de um nome, é a história de uma pessoa que merece ser recordada, contada, e recontada muitas vezes.
Não foi rainha, não pertencia a uma classe social elevada, não tinha muito ouro, não empunhou pás para arrear em soldados rezingões nem criou nenhuma teoria acerca da origem do Homem e do Universo. Mas na minha familia, e até depois de morta, continua a ser uma mulher de punho em cima do tampo da mesa, a fotografia numa cómoda que não tem um grão de pó.
Se este legado não servir a mais ninguém, serve para me lembrar a mim que sou feita de pó, de matéria mortal, que devo ser forte mas nunca maldosa, que devo ser gentil, mas nunca escrava de ninguém, que devo segurar na palma da mão aqueles que amo, sem nunca os apertar em demasia, que devo respeitá-los, ainda que á distância.
Comecei a pensar escrever sobre a amiga da minha bisavó, que não é importante que se saiba quem é, mas o que é. Talvez para a próxima, ou talvez nunca, mas que fique registado que ela era amiga da minha bisavó, muito amiga. E isso tem que contar para alguma coisa, não é?

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