08 julho 2012

Tudo se suporta em silêncio

Estou a ficar velha, cansada, gorda e cada vez mais sozinha. Tenho quase quarenta e sete anos, um filho, um ex-marido e uma cadela.

Vivo numa casa que se pode dizer bonita, tem um pequeno logradouro. Nesse logradouro tenho roseiras, algumas ervas aromáticas e uma camélia. Rego-as todas as manhãs e tardes, de Verão, e de manhã, de Inverno.

Tenho um emprego que me permite jantar fora duas ou três vezes por semana, viajar para outros países duas vezes por ano, comprar roupa pelo menos uma vez por mês, e cometer loucuras relacionadas com tecnologia de, pelo menos, três em três meses. Ganho bem, trabalho muito, aprecio pouco…cada vez menos.

Numa dessas duas ou três vezes por semana em que janto fora, vou sempre ao mesmo restaurante com um grupo pequeno mas coeso e já de longa data de amigas. Nenhuma delas trabalha comigo, são pessoas de outras áreas e isso orgulha-me. Com as do meu emprego dou-me pouco, tomamos café de manhã, à hora de almoço e ao lanche no escritório, e de resto tenho os seus contactos no telemóvel por pura cortesia.

O meu filho vive longe, com a namorada. É boa rapariga, gosto dela, mas não me meto entre eles. Sempre me ensinaram que os sobressaltos e as emoções se devem sentir em silêncio, e é isso que faço. De tempos a tempos eles vêem cá passar uns dias, fazem a vida deles e juntamo-nos ao jantar, já aconteceu irmos ao cinema, mas não falamos muito, não temos já nada para dizer. Olhamo-nos, eu e o meu filho, fatigados, como se soubéssemos que temos coisas para perdoar um ao outro. E perdoamo-nos. Em silêncio.

A culpa disto é da minha mãe, que Deus a tenha em descanso absoluto. Eu amava-a tanto, e ela sempre a fugir-me. Eu queria tanto abraçá-la, e ela sempre a afastar-me. A dizer de forma insistente e séria:

- Tudo se suporta em silêncio. Quanto mais rápido aprenderes isto, mais depressa arranjas marido e endireitas a tua vida.

E assim foi. Aos 24 apaixonei-me, ou julguei apaixonar-me, e aos 26 já estava de anel no dedo, a partilhar casa com um homem que mal conhecia, para todos os efeitos. Fomos felizes com alguma remissa, quando engravidei fiquei contente, julguei que seria nessa altura que a solidão se ia despegar do meu corpo, e que nunca mais estaria à deriva dentro da minha própria vida. Não foi assim. Fiquei mais triste. O meu marido tinha um coração enorme, tão grande que não cabia lá só uma pessoa, por isso as chamadas a meio da noite repetiam-se e, como me ensinaram a sofrer para dentro e em silêncio, aos poucos ele deixou sequer de fazer segredo. Ambos sabíamos, ninguém dizia nada, e os dias iam-se amontoando em cima uns dos outros.

Um dia ele disse-me que ia embora. E foi. Não fiquei especialmente abatida, e aquilo não me surpreendeu. O meu filho ficou comigo, ia passar os fins de semana de quinze em quinze dias com o pai, na escola tudo corria bem.

Estou cada vez mais velha, gorda e cansada. E a culpa disto tudo é da minha mãe, e do silêncio, que em vez de me endireitar a vida, escaqueirou-a de forma irremediável e diga-se, ridiculamente patética. 

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