21 dezembro 2012

Muito, meu amor

Meu amor, sei hoje a falta que me fizeste a vida inteira, sei que a solidão e a angustia que entravam em mim como uma bala inexplicável, era essa falta que me fazias, a tua ausência nos meus dias.

Houve alguém sábio que disse que o amor é instantâneo e absoluto, que de repente aquela pessoa passa a ser nossa desde a infância, que mesmo que não tivesse estado lá, passa a estar, e tu sempre estiveste.

Compreendo agora, só agora, ainda que não tarde demais, que o sentido que não encontrava no mundo era a memória de ti inscrita de forma camuflada na minha vida. A memória que faltava ser concretizada.

Era possível que passasse a vida inteira sem te encontrar em esquina alguma, mas agora que estás aqui, tenho a mais certa certeza de que aquela sombra na parede, sempre ao meu lado, eras tu a cuidares de mim até que fosse a hora certa para que passasses a existir deste lado do sonho. E a hora certa não é uma hora qualquer, insípida e oca como as outras, a hora certa não é quando o ponteiro bate, é no momento exato em que ele se sustém e não acontece nada, só um silêncio enorme e o tempo parado, sereno. É urgente esse exato momento para que aquilo que nos aconteceu, aconteça: roubarmos para dentro de nós a alquimia que deriva nesse espaço, que dura apenas um instante, mas que encerra nela tudo aquilo que uma vez solto, há-de ser infinito.

Tu és esse infinito que eu fui capaz de roubar para dentro de mim, e nesse infinito está tudo aquilo que já vivi e tudo aquilo que há-de vir. Nesse infinito estamos nós, meu amor.

Começo hoje, por fim, o meu manifesto à vida, à nossa.

Detenho-me e sei-a longe, agarrada a um pórtico de uma porta que eu não sabia se se ia voltar a abrir. Reconheço-lhe os veios profundos, a paleta de cores que percorre todos os tipos de castanho e rasga nalgumas alturas o preto profundo e o cinzento difuso. Encontro-me de pulso pousado na maçaneta fria, de sorriso enfiado naquilo que eu não sabia estar atrás da porta. Torço por fim a bola de metal e lá estás tu, com a tua vida pousada na minha. Respiro fundo e sei-me finalmente em casa, em ti, meu amor.

Ouço nitidamente os martelos que batem furiosos nos nossos peitos, que sussurram em uníssono: …meu amor…meu amor…meu amor…

Fizeste-me tanta falta, a falta que só sabemos reconhecer quando descobrimos a alavanca que subitamente e sem porquês nos põe o mundo a girar na direção certa, a caminho não um do outro, mas um com o outro, juntos, de sempre e para sempre.

2 comentários:

  1. Comecei a ler o teu livro de crónicas. Gosto do modo como arrumas as palavras, as ideias, como as recuperas um pouco mais à frente e as rematas, quase como para as fazeres rimar (as palavras e as ideias). Sinto, enquanto te leio, mais do que a força ou a convicção que pretendes (ou não) transmitir, sinto uma genuina capacidade de renascer, de voltar à luta, de não desistir mesmo depois de ter desistido. Não sou poeta mas não consigo explicar por outras palavras. O que me leva a escrever-te é o facto de sentir o drama e o modo como o moldas em termos artisticos mesmo que (acredito) não te seja alheio à dor. Independentemente do mais que vá encontrar lá para a frente nas tuas palavras, gosto do modo como as usas, como já as sabes usar. Acredito que não escreves apenas, mas és mesmo escritora. Gostava de um dia vir a ler alguma ficção tua -- declaradamente ficção -- mas para já vou terminar as tuas crónicas em papel.
    Felicidades B. Gil.

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