12 setembro 2011

14 de Fevereiro ou O desespero de se ser bipolar

No dia 14 de Fevereiro ela acordou tranquila, tomou banho, vestiu-se. Preparou-se para mais um dia.
Enquanto tomava banho olhou para o corpo despido e quis rasgá-lo, apagá-lo, quebrá-lo. Quis uma raiva tremenda contra o que tinha dentro dele e que implorava para ser libertado. Quis um sitio para esconder a alma, protegê-la dos estilhaços da carne. Sabe que se sentou na banheira a sentir a agua a escaldar a queimar a pele, e sabia que já não tinha lágrimas. Quando o telefone tocou foi obrigada a regressar, a secar o corpo e vestir, havia vida lá fora e reclamavam-lhe a presença urgente num sítio qualquer onde não queria estar. Olhou-se longamente no espelho que a perscrutava, julgava, criticava, quis parti-lo, mas não havia tempo. Praticou o seu melhor sorriso, que nunca é o mais sincero, e quando julgou estar convenientemente preparada para representar o seu papel fechou a porta e chamou o elevador.
No elevador outro espelho seguiu-a, dizia-lhe coisas que não compreendia, apontava-lhe um dedo e chamava-a de fraca, de imprestável, de inútil, de feia, de tão totalmente e irreparavelmente incompleta. Respirou fundo outra vez, espetou furiosamente um dedo no olho para resgatar uma lágrima que queria saltar. Não sabia se vergonha, se medo, se desistência, se desespero, sabia que era normal… tão normal quanto qualquer episodio bipolar o possa ser para um bipolar. Por isso conteve-se, ensaiou e saiu, aquela viagem no elevador junto aos botões com números e Braille, com um espelho assustador como companhia, tinha sido longa, demasiado longa para percorrer os escassos 5 andares que a separavam da rua.
Almoçou devagar, divagou, falou sobre coisas que não lhe interessavam nem um pouco, foi uma boa actriz, tão boa quanto o havia sido a vida inteira, mas aquele peso sentia-o tornar-se insuportável. Toneladas de chumbo sobre as pernas, sobre as costas, e sentia-se arquear, definhar na luta constante que não queria ou podia continuar a alimentar. O corpo permanecia estranho, indigno ao toque, preso a qualquer coisa que não queria que fosse sua, mas que o era, sempre havia sido, e não podia fugir, correr. Fingir costumava resultar, mas hoje tudo era demasiado negro, não havia saída e a respiração começou a faltar. O peito pulava dentro, batia contra os ossos como um martelo, doía-a mais fundo, aplacava-lhe o discernimento.
No regresso a casa sabe que chegou a pedir ajuda, que aquilo tudo estava demasiado errado, que talvez falar ajudasse, que aquele dia podia ter um desfecho diferente, tinha que ter um desfecho diferente. A incompreensão, desconhecimento, ignorância ou medo foram incapazes de servir um bom propósito, afinal de contas… em boa verdade, como se lida com uma coisa destas, como ela, como aquele imbróglio de coisas feias, grotescas e monstruosas que lhe turvavam a vista e a impediam de continuar podia ter alguma ponta por onde pegar, por onde se começa quando o fim está demasiado próximo, quando o fim parece ser o único caminho a percorrer?
Quando regressou ao elevador e novamente o espelho, os números, os 5 andares que não passavam, fraca, inútil, pedante a respiração era uma coisa sumida, difícil, arrancada a ferros, o coração era uma bomba relógio, sentiu-se atirada contra a porta de casa, tentava continuar a inspirar e expirar mas havia qualquer coisa de tremendamente errada consigo, as lágrimas caíam em catadupa e por muito que os dedos percorressem o pequeno espaço em torno dos olhos, elas insistiam, queriam á força libertar-se, reclamar um direito que ela julgava que não tinham.
Por esta altura o pensamento era inconsequente, não existia, era um autómato pronto para fazer fosse o que fosse que acabasse com aquilo o mais rápido possível. Ela recordou os episódios anteriores e quis bater-se, espancar o corpo por lhe fazer novamente aquilo, por a condenar a uma realidade que ela rejeitava, que julgava que não merecia. Ou se calhar merecia, e era certo que os anos de tormentos se sucedessem nesta amálgama de dores e falta de ar que a quebrava e julgava.
Quis distrair-se, a música berrava no computador directamente para dentro dela, arrancava-lhe os movimentos, pisava-a. Milhares de imagens percorriam a mente e novamente o coração a bater, um tambor dentro. Arranhou o peito em busca daquele instrumento inútil que tinha ali e nada encontrava, só um murro atrás do outro, cada vez mais forte, destrutivo, implacável.
Sabe que foi ela quem chegou aos medicamentos, sabe que os tinha guardado propositadamente para uma situação destas, sabia onde estavam e á medida que os ia tirando dos blister de modo atabalhoado, furioso, com as lágrimas a comerem-lhe a visão mas já sem força ou vontade de as secar, engoliu tudo aquilo que lhe apareceu. Queria fazer aquilo parar, queria fazê-lo parar para sempre.
Foi no dia 14 de Fevereiro que deu entrada no hospital. Foi nesse dia que a mãe a encontrou já semi inconsciente ajoelhada no chão em frente ao computador, sem falar, sem mover um músculo que fosse. Soube que foi neste dia que a chamaram, que a levaram de carro até ao hospital, que lhe gritavam para que reagisse, mas ela já não estava ali. Fosse o que fosse que lhe dissessem ela não sabia, não ouvia, não entendia, não se recordava sequer.
Sabia uma única coisa, tinha conseguido que aquilo parasse, por uns momentos toda a merda se evaporou e em anos, toda a sua vida aliás, pôde descansar e antes de ser obrigada pelos médicos e pelo carvão activado a regressar, soube que a sua vida seria sempre assim, a luta entre estar e não estar, querer estar ou não, saber estar ou não, por momentos desistiu, não queria ter que lutar mais contra ela própria, contra o seu próprio corpo, contra as suas próprias emoções, queria descansar, queria dormir, queria por fim, um sitio bonito e tranquilo para morrer.
Regressou, lutou com seguranças do hospital, com um enfermeiro, arrancou os tubos que lhe iam da boca e nariz até ao estômago. Sentiu-se sozinha, perdida, traída. Regressou. Sim, ela regressou, mas com a certeza de que aquilo seria a sua vida (ou a falta dela) sempre. Regressou ou ficou lá para sempre?
É uma questão que há-de consumi-la todos os dias e quando o tambor volta a bater no peito, não há um minuto em que não se lhe venha á memoria a paz que aquele dia por fim lhe ofereceu, uma paz que nunca tinha sentido. Sim, um sitio bonito onde deixar a alma a repousar.

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