15 abril 2012

Puxado a ferros

Mas que raio de coisa é essa que te incomoda? Que te apoquenta? Que te não deixa estar quieto sentado à mesa?
Mas que coisa é essa que tens presa na garganta, que se te enrola no estômago e não te deixa comer?
Poque não a mandas embora, porque não a enrolas num saco de plástico e a despejas no contentor do lixo?
Não julgues que a vida é sempre assim, até as crianças sabem que a realidade é mutável. Até um cão sabe que a fome que sente agora será tarde ou cedo satisfeita, nem que para isso seja necessária a morte.
Qual é o problema da morte? Porque te encolhes e fazes esgares de repugnância quando sabes que esse é o teu inevitável destino?
É a morte que te não deixa descansar. É ela que se aninha no teu peito à noite quando te deitas e o sono não chega. Quando te levantas na madrugada, bebes água e fumas um cigarro, regressas à cama e ela continua lá, a fazer de conta que é a fronha da tua almofada.
É a morte, ou a ideia da morte, ou a inevitabilidade da morte. A tua ou a dos outros? Se a dos outros, que outros? Que outros podem merecer o teu desassossego, a tua noite em branco, as tuas olheiras negras e profundas, a tua falta de paciência, a tua irritabilidade, a tua infelicidade?
Porque não páras quieto e dás um estalo a ti próprio? Magoavas-te menos, garanto.
Aquilo que os outros são não é uma promessa. Anda, não deixes que seja essa mentira a moldar os teus dias, não te deixes chegar a velho só para descobrires que nada disso importa.
Anda, esbofeteia-te se for preciso, aceita de uma vez por todas que há pessoas que podes amar profundamente, das quais nunca te vais esquecer, que vão estar sempre enroladas no teu coração, mas que não vão permanecer na tua vida. É a ordem natural das coisas, é assim que o mundo continua a girar e a fazer sentido.
Existem palavras que esgotam, que de tanto as dizermos ou pensarmos, nos deixam exaustos, doentes dentro.
No inicio há uma palavra que vai ser boa, que vai ser quente como uma tarde de Verão, que te vai arrepiar e parecer lamber o corpo. Depois ela vai repetir-se, repetir-se, repetir-se até que te doa.
Aceita-a. É uma palavra com suspiros lá dentro, e só a vais conhecer quando dela sairem lágrimas, quando dela saírem bafios cinzentos de mais noites de insónia. Depois de conheceres essa palavra, de a dizeres, de a repetires, de a sofreres, repara, como a morte é secundária, como a morte é um acaso, como a morte, essa mesma que te deixa em rebuliço, é uma tremenda e ridicula estupidez.
Amo-te. Não esqueças, repete-a até que doa.

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