04 junho 2012

Profundo horror

Há dias em que é o medo, um terror muito grande que nos digam que não é real aquilo que é real.
Que o toque não exista, que os cheiros sejam ilusões sensoriais, que o que escutamos esteja camuflado pela gritaria que vem do andar de cima.
É preciso escutar aquilo que está nas entrelinhas, saber exactamente que cartas temos em cima do tampo da mesa. Compreender a neblina por detrás do brilho do olhar.
Para tudo isto é necessária uma sensibilidade e uma ternura pelas coisas quotidianas tremendas. E é tremendo que se pousa o pé nas ripas de madeira do soalho, ainda sem se saber se é frio ou calor aquilo que se vai sentir.
Como pegar num lápis e o pousar numa folha em branco. Antes de ele se mover há um momento de profundo horror. Pode durar milésimas de segundos mas dentro dele, ao longo de todo esse instante, condensam-se questões que se atropelam em catadupa na cabeça.
O que faz sentido, o que se quer dizer, o que se sente, o que não se sente. Aquilo que vou encontrar depois sou eu ou é outra qualquer?
E se eu não gostar dela ou pior, e se eu não gostar de mim? E se eu sentir repulsa por aquilo que eu vou ser depois do lápis se mover de forma esquizofrénica?
A folha deixa de ser branca e torna-se feia por isso. Não são só letras, não. Antes fossem. Sou eu nua, despida, vulnerável, fraca, tímida, tão somente humana e tão ridiculamente pequena.
E não sendo eu, quem será? E porque se mete dentro de mim e me faz sujar esta imaculada brancura? Que me interessa a mim aquilo que ela me diz, se ao menos fossem só palavras.
Ah! Se ao menos fossem só rabiscos, letras mal desenhadas, escritas à pressa com medo que o tempo fuja e não chegue, que escape entre as linhas e fiquem coisas por dizer...
Estas palavras, as que não são só palavras estão minadas, estão cheias de perguntas, não sabem quem são, para o que servem ou a quem pertencem.
É isto que acontece nesse momento, naquele que precede o movimento do lápis e de algum modo o pode vir a transformar em algo bonito e coerente.
Não foi bonito, nem tão pouco coerente, mas foi honesto. E, já se sabe, a honestidade é uma coisa crua, sem arestas limadas ou princesas sentadas, com os seus longos cabelos ao vento, debaixo de uma amendoeira em flor.
Há uma tranquilidade solene quando se termina, finalmente, com um irrevogável, indiscutível, ponto final.

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