12 outubro 2012

A vida foi doce nas Fontainhas

A vida foi doce e lenta nas Fontainhas. Se a lambêssemos, se tivéssemos essa coragem, ela sabia a marmelada com queijo, a dióspiros maduros, a bacalhau na brasa e a massa com atum, tudo confeccionado com requintes de ternura e esperança e vontade e ilusão boa de sentir.

Lembro-me bem das janelas, podia senti-las agora mesmo, tocar-lhes devagar, puxar a maçaneta e abri-las de par em par, respirar fundo o ar frio que fazia esvoaçar os meus cabelos e me fazia chorar da alegria imensa que era aquela paz toda a inundar as nossas paredes. Fomos felizes em cada recanto.

Nunca tivemos sofá, só um puff, umas almofadas no chão e as cadeiras da mesa de jantar. Um móvel pequeno cheio dos nossos CD’s, com a aparelhagem na prateleira do meio, e a televisão pequeníssima e velha na do topo. As paredes tinham textura, papel de parede amarelado com veios sedosos que se podiam tocar com ternura, onde colávamos os posters que roubávamos das paredes da rua que anunciavam concertos que não podíamos ir ver porque o dinheiro não dava para tudo.

A minha mesa de trabalho estava encostada a uma das janelas da sala, sempre cheia de nós: tecidos, tintas, negativos, material de desenho, a tua câmara, os meus livros. A alegria de comprarmos um CD e o ouvirmos até à exaustão, dia-após-dia, noite a dentro.

A rua era calma, éramos poucos mas tínhamos sempre mercado onde comprávamos fruta e legumes, e a antiga feira da Vandôma de onde trazíamos sempre qualquer coisa que fosse barata mas bonita, principalmente que fosse nossa. Em frente um muro velho onde, invariavelmente, estava sentada a D. Teresinha, uma senhora de idade cheia de uma vida dolorosa (via-se nos ossos, no caminhar, no sorriso envergonhado, que tinha sido dolorosa) por quem nos apaixonámos instantaneamente, que nos segurava nos braços suplicante por um pedaço de pão que fosse. E nós partilhávamos. Nunca nos esquecíamos dela, fizesse chuva ou sol. Nunca me hei-de esquecer do olhar dela, sempre tão dentro do nosso.

O nosso quarto tinha o colchão no chão e um guarda-fatos, um baú pequeno com as nossas coisas (velas, algumas pulseiras, fotos especiais, recordações), um candeeiro pousado no soalho (ora de um lado da cama, ora do outro, dependia de quem ficava até mais tarde acordado) e um rádio que transportávamos diariamente para todos os cantos da casa.

Onde mais falávamos era na casa de banho. Um de nós na sanita e o outro sentado no chão (com o rádio), ou um de nós a tomar banho e outro na sanita (sempre com o rádio). Ficámos sem luz na zona do quarto e da casa de banho durante uns bons seis meses, eram extensões por tudo quanto era sitio, o candeeiro servia de lanterna de um lado para o outro e os banhos eram tomados quase às escuras. Continuava a ser doce e lenta a vida nas Fontainhas.

Nunca devíamos ter saído de lá. Fomos felizes como é hoje impossível ser-se feliz. Qualquer dia volto lá. A D. Teresinha já deve ter morrido, mas devem viver pessoas lá em casa. Toco-lhes à campainha, subo para um chá e digo-lhes:

- Foi tão doce viver aqui…

Abro as janelas de par em par e sinto o frio encher-me os olhos de lágrimas novamente. Depois desço as escadas rapidamente, percorro a rua a passos largos e nunca mais lá regresso. Dizem que não devemos voltar aos sítios onde fomos felizes, e eu acredito. Hei-de sempre acreditar.

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