10 outubro 2012

Horas penduradas no tecto

Passei a noite em branco, às voltas com o coração nas mãos a ver as horas saltar do visor. Foi pavoroso. As horas saltavam e penduravam-se no tecto, inquisidoras. Que inquerem? Que querem? É de mim ou vocês são todas as horas do planeta, com o peso de todas as pessoas que passaram esta noite em branco com o coração nas mãos a ver-vos saltitar para fora do quarto, e vocês a percorrerem as ruas, as vielas mal iluminadas, os bosques escuros e frios, as praias de areia branca e fina, tão fina que parece o pó que se acumula nas prateleiras dos livros que já ninguém vai voltar a ler?

Estive acordada horas e horas a fio, a tentar trocar as voltas às emoções, a desfragmentar os momentos, a muito custo a reduzi-los a insignificâncias que eu sei que não merecem mas que, esta noite que passou, eu não tive coragem suficiente para reconhecer.

Ás vezes apetece-me desistir. Falar de uma vez por todas, deitar tudo por terra e aliviar o peso das tantas comoções que tenho compactadas em mim. Não suporto já andar sempre tão cansada, tão triste, tão sedenta de coisas às quais não sei dar nome. Aspiro ao total esquecimento de mim, já não tolero esta náusea, este querer sem querer, a melancolia profunda com que preencho as horas para não ter de as encher com a ternura que  não quero sentir.

Passei a noite em branco a tentar não sentir e tudo aquilo que fiz foi sentir. As fórmulas mágicas deixaram de funcionar, o botão que me desligava deu sumiço. E como é que eu pude ser tão imprudente para deixar que isto acontecesse? Como pude ser tão irresponsável e arrogante, como pude esquecer que todas as histórias já foram contadas e que agora, neste instante, o mundo estremeceu debaixo dos meus pés.

É capaz de ser do sono. Sim, é realmente capaz de ser do sono. Tenho a certeza de que se dormir sobre este assunto, quando acordar ele já não existe. Ele já não existe. Já não existe. Que na verdade nunca existiu, isto foram só os efeitos da ressaca. Uma pessoa deita-se com um corpo qualquer e depois já passou. Se eu me deixar tocar por outra pele, já passou. Se substituir isto por outra emoção, já passou. Se eu mantiver a fórmula que sempre funcionou, já passou. Se eu for capaz de me esquecer que tenho coração, já passou. Se eu deixar de sentir, tenho a certeza que já passou.

[…e porquê? porque é que ainda não passou?…]

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