30 outubro 2012

Corações nos sítios certos

Naquele dia, gostava de ter gostado de ti, de ter tido tempo para isso, ou tempo ou coragem. A memória de como as coisas se passam vai ficando gasta, mas às tantas foi um pouco dos dois: tempo e coragem.

Estavas sentado no banco à minha frente do comboio e tinhas os olhos mais tristes que vi até hoje, cabisbaixos e com olheiras profundas. Adivinhei-te quase lágrimas atrás das pálpebras, quis aproximar a minha mãos dos teus olhos e roubar-tas para os meus dedos, na minha cabeça imaginei-me a fazê-lo durante todos os minutos que demorou a viagem.

Não sei se o tempo tem alguma importância, todos os dias me convenço mais de que não. Aquele fim de dia podiam ter sido dias inteiros ou anos, que eu teria ficado ali, sentada à tua frente a pensar que gostava de ter gostado de ti. A saber-te fácil de gostar. Tinhas o cabelo grande e farto, desgrenhado, com algumas madeixas sempre a pender para a frente dos olhos, escuro como a noite, e por trás delas, das madeixas, lá estavam os teus olhos cheios daquela tristeza toda sem nome e talvez por isso maior ainda.

As pessoas são muito melhores no abstracto, sentir-se amor por elas antes que elas se encostem a nós, antes de as escutarmos e que a voz fique presa dentro. Podem ainda ser tudo aquilo que queremos, por baixo da roupa podemos desenhar-lhes o corpo, as formas, o toque, dentro do peito podemos construir-lhes comoções, duvidas, sonhos e com alguma imaginação, uma vida inteira. São seres quase perfeitos as pessoas que não se conhece, as que se me prendem à ponta dos dedos e me fazem suspirar, e comover, em dias como aquele, chegam mesmo a fazer-me chorar. E tenho pena, tanta pena de não ter gostado dele, de ter gostado de outras pessoas no lugar dele, de ter colocado um sem numero de esperanças em almas que de mim pouco queriam, ou o que queriam parecia-me pouco.

Já sobram poucas pessoas, demasiado poucas. É como se uma peste se tivesse instalado no mundo e a maioria não tivesse resistido. São já muito poucas e a vida vai ficando todos os dias mais vazia, mais solitária. Fazem-me falta as pessoas que têm o coração no sitio certo, e ele, tenho a certeza, tinha o coração no sitio mais certo: na vida inteira.

Sem comentários:

Publicar um comentário