10 junho 2011

Coitadinha!

Tanto silencio para quê?
 A sério, é que continuo sempre a fazer esta pergunta e ninguém que responde. Olham-me de lado, vejam lá bem que a Dona Miquinhas até já internada me quis!
Ah! Mas ela a mim não me engana, saia de funil até aos joelhos e aquelas blusas horrorosas com folhos na gola, a fingir que está de luto, a alcoviteira! Vejam lá que um dia, estava eu tão animada na minha casinha do 3º andar (daquelas antiguinhas, lá para a zona de Alfama) a ouvir uma música muito bonita e aquela velha veio-me aos saltos prédio acima aos gritos, completamente estouvada, a dizer que ainda chamava a polícia, que eu não podia estar naqueles preparados á varanda. Que querem que lhe faça? É uma pudica, é o que é! Se estava mal vestida? Reparem bem no que aquela coscuvilheira de primeira apanha põe as pessoas a pensar! Estava lá agora mal vestida, nem sequer estava vestida! Deve ter alguma coisa contra a cor-de-pele, só pode! Eu sempre achei que aquela choradeira toda e língua de mil e quinhentos metros (bem a podia vender por 3 contos de reis, que lhe faziam mais uso) eram problemas de infância, lá alguma professora daquelas salazaristas lhe deve ter arreado quando se enganou nas cores! E que tenho eu com isso? É que é sempre a mesma conversa de algibeira, vir’ó disco e toc’ó mesmo, como é que uma pessoa não se há-de chatear?
E o sr. Joaquim do quiosque dos jornais? Esse é outro! Sempre com ar de quem lhe deve e ninguém lhe paga, o desgraçado! Juro-vos que um dia destes chego-me a ele por trás, baixo-me e mordo-lhe as canelas…para ver se ele aprende! Ora, agora devem estar a pensar: então mas lá porque o homem tem cara de maus amigos, coitado, por que raio tem que levar contigo a morder-lhe as canelas? Ora eu explico, não quero que fiquem a pensar que sou implicativa (isso é a Dona Albertina, do 2º esquerdo!). Ainda na semana passada lá fui, ao quiosque do sr. Joaquim, pedir-lhe um daqueles berbequins de furar a parede, porque tinha que pendurar um quadrinho muito bonito daqueles que vendem na feira da ladra com um menino muito triste a chorar, e ele sai-me lá de dentro com uma vassoura na mão e diz-me, com ar todo empertigado: vê lá se eu não te penduro a ti aqui no cabo da vassoura! Ainda por cima depois de lhe ter dito que lhe pagava o que fosse preciso, porque o menino estava cada vez mais triste e qualquer dia chegava a casa com uma inundação, tal era a fúria com que o rapazinho chorava! Acham isto bem? Olhem, fiquei logo mal disposta o dia todo. Lá tive que ir furar a parede com uma faca, demorou-me um talhão de tempo e pôs-me a parede num estado que nem vos digo nem vos conto!
E isto só para começar! Vocês não imaginam o inferno em que aquela gente me faz a vida!
Na outra noite, estava eu enroladinha na minha manta de retalhos, e pôs-se aquela maluca da Dona Albertina em cânticos noite a dentro. É que ainda por cima cantava mal até dizer basta, e sempre com aquela voz de rachar canos a matraquear, coitadinha da sra Amália Rodrigues, que há-de andar às voltas na campa! Olhem, estava tão chateada que até lá lhe fui bater a porta para a desancar ao palavreado grosseiro, mas mal lá cheguei pôs-se a disparar com uma arma! Sim, imaginem lá a minha cara quando ouço aquele tiroteio todo aquelas horas da noite, realmente já não há respeito nenhum. Não me chegava a música periclitante e ainda tive de levar com os balázios (mas deixem-me que vos diga, lá a casa dela, há-de ter ficado numa balbúrdia, com aqueles tiros todos contra a parede).
Mas ainda não vos contei da melhor! De manhã, estava eu a tentar recompor o sono que não tinha dormido á pala da alucinada da Dona Albertina, vem-me um sr todo fardado, com um barrigão muito grande, de onde lhe estava quase a saltar a camisa e uns quantos botões (tinha um boné e tudo, lá pensava que estávamos no Carnaval!), a perguntar-me se tinha ouvido algum barulho estranho durante a noite! Ai, juro-vos, só me apeteceu dar-lhe com a almofada na fronha! Mas eu não sou maluca nenhuma, lá lhe respondi com muita calma (com os malucos mais vale nem discutir) que só tinha ouvido a Dona Albertina em cacarejos toda a noite (é claro que não lhe falei do tiroteio, a velhota é maluca, mas não a quero em trabalhos!).
Ora quando o sr. Fardado se foi embora, estava já eu quase quase a fechar a olhaca para o lado de lá, quando se põe um paspalho lá fora com uma carrinha daquelas de hospital (deve tê-la ido roubar, de certezinha!) a sirenar, sem parar! Olha-me que uma destas! Olhem, estava tão furiosa que fui logo para a varanda javardar com o homem, e ele especado a olhar para mim, parecia um burro a olhar para um palácio. Enfim. Mas depois lá vi que aquilo era mesmo a serio porque saiu uma maca toda coberta da porta do prédio, só lhe vi as chinelas nos pés, a espreitarem ao fundo do lençol. Não é que era a Dona Albertina?! Lá po raio da mulher é tão má raça que foi morrer! Estou segura que fez birra por lhe ter batido a porta, vai desta deu um tiro nos cornos e amuou, a velhota! E agora como é que vai ser?
Pronto, no dia a seguir lá tive que ir para a procissão do funeral da mulher, senão até parecia mal, vizinhas á tantos anos, e eu sem lá pôr os pés. Não acham que fiz bem? Ora, não sejam maldosos, a senhora era meia tonta, mas que se há-de fazer? Há que ser civilizado e prestar uma homenagenzinha á Dona Albertina.
E ainda a missa ia no adro! Nem imaginam o que foram aqueles parvalhões aprontar depois, e ainda por cima durante o funeral da coitadinha da Dona Albertina, que era tão boa pessoa, uma daquelas pessoas muito puras, sabem? Implicativa, mas uma jóia de senhora!
Estava eu a enfeitar o caixão da senhora com umas flores (vejam lá que nem foram capazes de lhe pôr alguma corzinha no caixão, coitadinha!) e vem-me outro senhor fardado e põe-se a agarrar-me e a pôr-me algemas nos pulsos. É claro que fiquei chateada! Pus-me logo a chispar: Mau! Querem-me ver esta agora? Já cá faltava o cortejo do carnaval! O homem lá ficou meio ofendido porque deve ter pago um dinheirão por aquela vestimenta e olhem, em vez de ir á loja das mascaras reclamar, não, deu-me um safanão que até me virei ao contrario. Isto há pessoas muito sensíveis neste mundo, não concordam?
Levou-me para um sítio muito frio, ainda me pus aos gritos, juro-vos que estava convencida que ainda me ia violar o homem! Porquê? Então não se está mesmo ver? Estávamos num sítio muito escuro, muito frio, cheirava a chichi que se fartava e havia lá uma cama muito pequenina com um coberto muito foleiro cinzento em cima, eu já vi nos filmes, o que é que pensam? Que eu ando cá a ver passar a banda? Nada disso! Eu bem sei que é para esses sítios que levam as raparigas para as desflorarem, coitadinhas! Mas o senhor foi muito simpático, lá se foi embora. Mas deixou-me ali trancada, disso é que eu não gostei mesmo nada. Estava quase na hora da minha novela e aquele asno a fazer-me perder tempo ali. Mas enfim, temos que fazer uns sacrifícios uns pelos outros não é?
E não é que o homem nunca mais voltava? Fui lá á gradezinha chamar por ele, porque tinham que mandar vir alguém para ver dos canos, que aquele lavatório estava a pingar agua, e ainda me inundava aquilo tudo, e depois eu queria ver quem é que limpava a porcaria toda! O homem nem sim, nem sopas. Pronto, desisti, depois o problema era deles. Eu cá tinha a novela para ir ver!
Passou-se muito tempo e eu já estava aborrecida de ali estar. Bolas, que isto realmente uma pessoa já nem pode ser raptada com alguma emoção, nos filmes não é nada assim, há sempre coisas excitantes a acontecer. Aquilo ali era um tédio de morrer!
Olhem, só vos digo uma coisa. Fiquei tão aborrecidinha que decidi cortar os pulsos para passar o tempo. Como o homem nunca mais vinha, olhem, fui-me entretendo com aquilo.
Estava o caldo entornado, adormeci e quando acordei, estava dentro de um caixão muito bonito, com folhinhos e tudo, mas aquilo estava fechado e eu não conseguia respirar, e há-de convir que temos que ter em atenção para com os claustrofóbicos, como eu! Que maçada! Ainda por cima já tinha perdido o episódio da novela em que a Maria vai a casa do Pedro dizer-lhe que foi ela quem matou a velhota do 2º andar. Coitadinha!
Ai… tanto silêncio, assim de repente, para quê?

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