23 maio 2012

Diz-se por aí...

Foi sempre assim.
Iam jantar fora entre uma a duas vezes por semana. Pediam sempre o mesmo
[polvo à lagareiro para ela, bitoque para ele].
Enquanto esperavam permaneciam em silêncio, ele escrevia num caderno, ela desenhava na toalha de papel sobre a mesa.
Sobre pedirem sempre o mesmo prato ele gostava. Ela não.
No final da refeição discutiam sempre acerca de quem haveria de pagar a conta. O empregado, já habituado, ficava de longe a ver num misto de indignação e divertimento, pedaços de pão a voar pelo ar, e de uma ou outra vez, um copo partido no linóleo do chão.
Quando a discussão terminava sorriam, beijavam-se e saíam sempre sem pedir desculpa.
Percorriam o caminho até casa um em cada berma da estrada. Em silêncio. Ela gostava. Ele não.
Ao chegar, ele já cansado de escrever e ela farta de desenhar, faziam amor e fumavam cigarros a olhar um para o outro, até que o cansaço levasse a melhor. Adormeciam estranhamente abraçados. Ele gostava. Ela também.
Um dia, já o sol ia alto, ele perguntou-lhe porque não compravam uma televisão, e ela disse-lhe que a televisão emburrecia. Ainda assim, no dia seguinte, ele comprou um aparelho e, quando ela chegou a casa ficaram muito tempo em silêncio a olhar para aquela caixa preta, desligada.
Decidiram não pensar muito no assunto e foram jantar fora. Escolheram os mesmos pratos, discutiram sobre a conta, sorriram, beijaram-se, saíram sem pedir desculpa, regressaram a casa em bermas diferentes. Em vez de fazerem amor quiseram experimentar ver televisão.
Uns meses mais tarde, reza a história que ela deixou de desenhar e ele de escrever. Que deixaram de fazer amor. Que passaram a ir as mesmas uma ou duas vezes por semana jantar, mas ao McDonald's. Que em vez de discutirem acerca da conta, passaram a discutir de forma acesa, sem direito a beijos ou sorrisos, sobre qual o programa que um ou outro queria ver.
Diz, quem os conheceu, que se separaram eventualmente, e que a partilha que mais luta deu foi precisamente a caixa preta. Optaram pela custódia partilhada, quinze dias com um, quinze dias com outro.
Na primeira noite em que ele ficou sem a televisão lembrou-se que ela lhe tinha dito, antes de tudo ser destruído, que a caixinha emburrecia. Foi a casa dela e quando lhe bateu à porta, com o objectivo de agarrar na televisão e a deitar no primeiro contentor que encontrasse, ela lhe gritou lá de dentro
- Agora não, que estou a ver a novela!
Rendido e frustrado pegou no carro e foi ao McDrive, pediu um menu com batatas e bebida grandes, e se foi sentar a porta de uma loja de electrodomésticos, a ver várias caixas pretas piscarem.
Nunca mais ninguém os viu, mas as más linguas dizem que ela acabou por morrer de doença prolongada, daquelas com aqueles nomes enormes e estranhos, que o ZéPovinho comummente chama de "burrice crónica", e que ele, que voltou a escrever, editou um best-seller de seu nome "Merda da televisão".
Mas eu não sei de nada. Isto são as pessoas que falam, que contam histórias e acrescentam-lhe pontos, já se sabe.
A minha teoria é a de que eles, ainda antes de tudo ser destruído, fugiram juntos para o Nepal e que lá estão até aos dias de hoje.
Mas não posso garantir nada. Afinal de contas, eu só cá vim ver a bola.

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