21 maio 2012

A mais certa certeza

Meu querido, há tantas coisas que eu te não disse. E outras que disse, mas que não escutaste. E outras que julgas ter escutado, mas que, na realidade, eu não disse.
É sobre essas palavras que ficaram encaixadas num sitio sem nome que te quero falar. Hoje.
Escrever uma carta de amor é uma idiotice, uma lamechice sem eira nem beira, é um trago de um gin tónico sem água, que ferve e arde e queima. Mas eu não sei como te dizer, meu querido, que as letras que tenho para te dizer são afiadas como uma faca, rasgam como um serrote, queimam como combustivel ateado.
Não te quero dizer palavra nenhuma que amacie o coração, não há nada de honesto quando temos por assento uma almofada macia e fofa. Aquilo que eu tenho para ti não descansa, não recua, não adormece dentro de colchões de água ou bolas de sabão redondas que brilham, brilham, brilham.
Aquilo que eu tenho para te oferecer são lacunas, falhas, coisas semi destruidas, ruinas de um abraço, a ansiedade de um beijo, uma mão perto mas nunca no sitio exacto em que o calor se faça sentir por dentro.
Meu querido, isto não é uma carta de amor. As cartas de amor são para quem não ama, são para quem arrepia caminho ao escutar o comboio a apitar e, na iminencia do embate, se recolhe na plataforma e fica somente a sentir a brisa da sua passagem.
Escuta aquilo que está dentro das letras. Desde que cravaste a tua ausência no meu corpo que elas dizem coisas sem sentido. Que elas esperam que as toques para que tudo regresse à certeza que é o nosso amor. Á certeza de que no meu peito, e no teu peito, estão os nossos olhos a quebrar barreiras, a falarem sobre aquilo que ninguém ousa tocar, a acreditarem no infinito que é a nossa casa dentro de nós.
Se nos roubassem o dinheiro, as casas, as roupas, as guitarras, as canetas ou as folhas de papel que esvoaçam pelo ar, teriamos os nossos corpos embrulhados, o meu rosto no teu peito, as tuas mãos a percorrerem sem pressa o meu corpo nu. Se nos roubassem tudo, meu querido, estaríamos nus e os nossos caminhos seriam nossos ainda, apesar, no entanto. Inevitáveis.
Agora, neste instante, em que tenho o teu corpo dentro do meu corpo, em que tenho o teu coração já dentro do meu coração, não existe sitio nenhum onde fosse e estivesse mais feliz.
Agora, meu amor, a tua mão está na minha mão e todos os olhos se voltam só para nos ver, sem nos entenderem, porque somos loucos, insanes. Porque temos dentro de nós aquilo que poucos têm a coragem de sonhar:
"a mais certa certeza de que gosto de ti, como gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste"

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