05 novembro 2012

Eu, o Velho, e a 149

Rugas, pupila sofrida, triste, gasta. Descendo, boca sem sorriso, dura, fechada, a julgar que já não tem nada para dizer. As mãos, compridas, seguram uma bengala que não sustém o peso do corpo, existe não pelo homem, mas é o homem que existe por ela, para ser amparado ou para, ao menos, sair para a estrada sabendo que se uma pedra de colocar no caminho, ele terá onde se suportar.
Está triste, tão desoladoramente triste. Nos olhos pequenos ficam presas as paisagens que cavalgam à janela do autocarro, demasiado barulhento

(ou será o peito que bate mais forte?)

adivinham-se-lhe muitos anos na pele enrugada do pescoço, abraços e dedos enrolados no sitio onde já deve ter existido cabelo e onde repousa agora um chapéu simples, de aba, preto com uma fita preta. Imagino-lhe os abraços na base do pescoço porque é alto, ainda que a vida lhe pese visivelmente nas costas e esteja mais curvado que uma árvore no topo e limite de precipício, e as mulheres da sua vida (terão sido muitas? Ou terá tido espaço para um único mas eterno amor?), os filhos (existirão?), as netas de cabelo muito negro encaracolado teriam de esticar muito os pés, colocarem-se em posição de bailarina, apoiar os braços nos seus ombros e abraçar-lhe o pescoço para lhe dar um beijo.

O autocarro pára de repente e nenhum de nós estava à espera disso, o nosso corpo desequilibra-se de forma deselegante para a frente. Eu seguro-me instantaneamente no banco à minha frente, tenho mais força, mais reflexos, ele quase que bate com a cabeça na janela, mas a bengala está lá e serve finalmente para lhe amparar o embate.
Tenho aqueles anos todos que ele carrega em mim, sinto-me ele, estou cansada, quebrada, quero que acabe rápido e que seja durante o sono, recuso-me a ir para um lar onde não reconheço ninguém e os lençóis me fazem comichão, a almofada não tem a altura certa e querem obrigar-me a enfeitar a árvore de natal todos os anos. Está sempre frio e eu nunca tenho sono, fico a ver a noite a passar nos ponteiros do relógio na mesinha de cabeceira e os pés estão sempre gelados. A comida não me sabe bem, é raro ter fome. Não tenho paciência para os antigos amigos nem para o jogo da bisca, o café sabe-me mal e os meus ossos doem-me quando o tempo ameaça mudar.
Eu sou ele e apetece-me chorar. Quando chega à minha paragem, antes da dele, encontro os olhos dele e saio rápido. Ouço as portas fecharem atrás de mim e fico ali quieta, sem ser capaz de me mover durante muito tempo, um tempo grande, um tempo que me parece infinito.
Sinto-me pesada, pesada, cada vez mais cansada. Entro no elevador e encontro-o no espelho. Lá está ele, o velho do autocarro, a escorrer-me cara a baixo, e eu, ainda que devastada, recuso-me a limpá-lo do meu rosto, quero recordá-lo para sempre. Quero levá-lo dentro de mim. Gostava que ele tivesse ficado a saber que dali em diante seriam os olhos dele a minha bengala.

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