09 novembro 2012

“…and then so clear”

Tenho muitas saudades em mim, de vários tipos, de vários tempos. Surpreende-me sempre que tenha saudades de vidas que não me pertencem, que nunca foram minhas, que residem na palma da mão ou num rolo fotográfico de outra pessoa. Mas tenho.

Também tenho saudades de mim, daquilo que eu nunca fui mas que gostava de ter sido. Dos planos e dos sonhos, das pessoas que eu tinha a certeza de irem cruzar-se comigo ao longo do caminho, mas que nunca o fizeram, talvez nunca tenham tido tempo para isso. E não posso, quero dizer, não sou capaz de as perdoar por isso. Eu que as imaginei tantas vezes, eu que cheguei a criar diálogos entre nós, que lhes toquei, que soube com uma exactidão doentia a profundidade de cara poro, que lhes dei cores impossíveis às pupilas, que descobri os acordes perfeitos para lhes servirem de voz. E depois silêncio, solidão, cruzamento errado, um semáforo a mais.

Depois elas a passarem por mim e nós sem nos vermos, a esquecermo-nos de que estávamos destinados a mergulhar na vida uns dos outros.

Esqueço-me delas, dessas pessoas, na maioria dos dias. Sirvo-me e desfruto daquelas que tenho, das que não se enganaram no caminho e vieram parar aos meus dias e eu aos delas. Os dias passam-se sem grande agonia, mas a saudade bate-me mais forte quando, por algum motivo, uma das criaturas que já está no meu caminho me olha de modo diferente e, por exemplo, a pupila me parece de um negro impossível, como o que imaginei, um dia, para uma dessas, as perdidas, e penso:

[será que esta pele que aqui está a debitar-me horas e emoções e rebuliços, não terá sido imaginada por outra pessoa qualquer? Será que houve uma troca e este cheiro devia estar em tumultos vida a fora com outra, a que lhe terá inventado esta cor, quase como a minha, mas não a mesma, não a mesma?]

E fico triste de repente. Saudades de fogo e de mar e de vozes. E se estiver alguém assim, melancólico, como eu? E se a minha pessoa estiver sozinha, perdida, sem que ninguém lhe entenda o verde-avermelhado dos olhos, e se tiver sido ostracizada por ter uma melodia em lugar do voz, e se o seu toque for tão doce que ninguém já o suporte, e se o seu riso for tão alto que já não existam ouvidos que o ouçam? E tenho saudades das conversas que não tive com ela até ser dia, e das musicas que não foram feitas para que as escutássemos juntas, e das estradas que foram alcatroadas por já não existir ninguém que goste, como nós, de terra-batida.

E fico ainda mais triste, ainda mais de repente. E os olhos de um negro quase profundo que tenho pousados à minha frente me olham confusos, por me saberem não ali mas noutro sitio qualquer, assim, sem aviso, sem explicação. E a pele que é doce, mas não tão doce, se atravessa na minha e encontra reticencias, e recuos, e estranheza, por saber que aquele não era o toque do qual tenho saudades. E a lágrima cristalina, mas não tão cristalina, que sabe, tem a mais certa certeza de que o que sinto são saudades, lhe escorre até aos lábios que se entreabrem e me questionam:

- De que tens saudades?

e eu, tão triste, sou só capaz de responder:

- De mim, de mim...

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