12 novembro 2012

Não quero saber o teu nome

- Olá

- Olá

- Posso pagar-te um fino, e em troca dás-me um cigarro?

- Sabes que isso não é uma troca justa, não sabes?

- Porquê?

- Porque com o dinheiro de um fino quase podias comprar um maço de cigarros. Quem sai lesado és tu.

- Mas aqui não vendem cigarros, o que por si só já uma estupidez uma vez que se podem fumá-los, mas vendem finos, que é a única coisa que te posso dar em troca de um desses cigarros que tens no bolso.

- Se tivesses começado por mo pedires eu tinha-to dado… agora vais mesmo ter de me pagar um fino.

- Como te chamas?

- Que é que isso importa? O meu nome?

- Fazemos assim, eu digo-te o meu nome em troca do teu…

- Eu não quero saber o teu nome…

- Porquê?!

- Escuta. Tu sabes, e eu sei, que eventualmente daqui a umas horas vamos estar a foder, certo?

- Hm… sim… talvez…

- Ok. Então não quero saber o teu nome.

- Não faria mais sentido que, uma vez que vamos estar a foder daqui a umas horas, tu soubesses ao menos o meu nome?

- Preferia que me desses a tua morada, ou que me dissesses uma imbecilidade qualquer sobre a tua resistência ou falta dela, à dor, ou que numero calças ou… qualquer outra coisa. Mas não quero saber o teu nome. Tu e eu não vamos ser namorados, não nos vamos conhecer como deve de ser, eu não vou conhecer a tua família nem tu a minha, não vamos partilhar momentos além daquele para que nos estamos a propor e queremos, não vamos envelhecer juntos, nem chorar no funeral um do outro. Vamos dar uma queca, se ela for boa até podemos vir a repeti-la. Podemos julgar que até era bom tomarmos um café um dia desses só para não nos pesar na consciência que fomos para a cama com um estranho, porque julgamos que depois desse café até podemos não nos voltarmos a ver, mas enfim, ao menos já não somos estranhos. Por isso não, não quero saber o teu nome. Se me disseres o teu nome vais passar a ser alguém, a ter uma identidade. Na minha cabeça vais ser uma pessoa, e uma pessoa tem sempre uma história, tem sempre sonhos e planos. Se tiveres essa história, como imagino que tenhas depois de me dizeres o teu nome, também vais ter cicatrizes, e dores antigas, e vais ter episódios engraçados na tua vida dos quais me vou rir, e outros com menos piada que provavelmente me vão fazer chorar. Depois disto tudo tu já vais fazer parte da minha história e eu da tua, tu já vais viver em mim e eu em ti. E isso estraga sempre tudo. Se dermos umas quecas sem sabermos absolutamente nada um do outro é simples e é fácil, somos corpos, servimo-nos para um propósito e já está. Não chegamos nunca a representar um risco um para o outro. Dito isto, entendes porque não quero saber o teu nome?

- Dito isso, entendes porque quero que saibas o meu nome? E porque quero, decididamente, saber o teu?

- Toma o cigarro. Obrigada pelo fino.

- Onde vais?

- Embora.

- Porquê?

- Porque o meu nome é Beatriz e eu não tenho mais do que um cigarro para te dar. E não, não quero que me digas o teu nome. Adeus.

2 comentários:

  1. O meu nome é Pedro (não o escolhi!). Comprei agora dois maços de tabaco e não quero quecas, foder ou conversar. Só quero ou só desejo adormecer abraçado a alguém que sinta para alem do epidérmico. Bee, és doce, Agradeço o abraço (acho eu?). Boa noite...

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