01 julho 2011

Estupidificação Consentida

A noite já se pôs por trás da minha janela e o frenesim do dia acaba por tranquilizar. Toma agora conta da cidade uma calma que não parece ter fim e que promete a eternidade dos tempos. Lá fora tudo está, aparentemente, adormecido, nada faz compreender a loucura que habita em cada casa. Em todos os cantos, em todas as ruas, em todas as televisões espreita o monstro, a “so called” civilização, no entanto a vida não deixa de sobreviver e o ar revolve-se em espirais em todos os recantos do planeta.
Não há nada que faça prever que amanhã tudo se reiniciará, transformará, renascerá tomando a mesma forma que teve hoje ou ontem e que continuará a ter daqui a um mês.
Não basta dormir em camas refeitas dia após dia, semana após semana numa correria infernal que não termina nunca. Os lençóis de há um mês já estarão devidamente lavados e engomados, arrumados numa qualquer gaveta, mas o cheiro da podridão não desaparecerá nunca. Os vestígios das lágrimas, das mãos, do suor, dos sorrisos, das ansiedades, da dor, do sexo…nunca será desvendado o pudor que esconde cada olhar, cada julgamento, seja qual for o veredicto seremos todos comidos e consumidos consecutivamente, uns atrás dos outros sem nada fazermos para o impedir. E não será, de facto, mais confortável este papel de espectadores passivos que assumimos em frente ao televisor?
E sobreviveremos, ou a noite será um dia tão funda, escura e fria que tudo se desconjuntará, desistirá de tudo para se submeter ao seu triste e esquecido desígnio, o do eterno silêncio e vazio?
Entretanto tudo se vai compondo, tudo se vai remediando, bem ou mal, aqui e ali vamos entretendo os nossos corpos e mentes com aquilo que nos dão, com aquilo que nos deixam ter, com aquilo que achamos que escolhemos, com aquilo que nos impõem numa estupidificação consentida, estremecida, mas nunca, em momento algum questionada.

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