18 julho 2011

Love will tear us apart... again (Versão I)

A velhice nada tem a ver com a idade. Nada tem a ver com as rugas que se vão acumulando no canto dos olhos, com as estrias a rasgarem a pele, com cabelos brancos. Não faz referência à idade dos filhos nem tão pouco se eles sequer existem.
A velhice é um estado da alma, é um contracenso da memória, é um acumular de emoções e sentimentos que eventualmente entram em combustão lenta até explodirem dentro do que temos cá dentro, e se encostarem ao nosso coração.
Não é a quantidade de amor que temos aos outros, ou a forma como lhes dizemos que realmente os amamos. É a quantidade de vezes que amamos que tornam a alma mais cansada, estoirada ao ponto de julgarmos que não aguenta mais, que assim , de facti, não há coração que resista.
São as colecções de desilusões que nos embatem com força e pensamos ter sido atingidos por um camião TIR. São as vezes que acreditamos tão piamente, que o destino se ri de nós.
É a amargura das horas em que achamos que já não resta mais nada e que agora é que se dá o salto para o lado de lá.
É a quantidade de vezes que nos agachamos no canto do quarto, muito quietos, silenciosos que nem ratos, e nos desfazemos em lágrimas. Por vezes, (e é aqui que mais se nos apertam as costelas) já nem sabemos bem se choramos por nós ou por eles, esses pedaços de coisas que vamos construindo no caminho e que no final nem coisas chegam a ser.
Parece inevitável chegar um momento em que, às arrecuas, nos lembramos dos rostos que se foram esfumando ao longo do tempo, e os mais antigos nos parecem certos, tão certos que já nem lhes lembramos o olhar, só a alma e os pedaços que roubámos deles e eles a nós.
É a batalha do cai e levanta que nos destrói. Chegasse mesmo a pensar ficar por lá caídos até que alguém nos venha resgatar da fossa, e voltamos a acreditar que quem nos tirar da fossa vai ser aquele tudo de um todo que queremos do nosso lado, para que não mais tenhamos que lutar, participar em jogos do gato e do rato (que dão pica mas cansam as visceras), para que não tenhamos que procurar em cada rosto alguém que nos sorria e nos dê os bons dias.
É mesmo isso que faz de nós velhos, criaturas ás tantas intratáveis que perderam a força para tudo, até mesmo para cair.
Somos velhos quando o encanto desaparece e julgamos que nada há a fazer acerca disso. Quando nos começamos a apaixonar novamente e já temos em piloto automático que, mais tarde ou mais cedo, aquilo vai ralo abaixo e ficamos de papel higiénico na mão a tapar o buraco com lágrimas e muco. Saímos à noite, bebemos até se nos entorpecer o cérebro e acompanhamos aos gritos Ian Curtis: LOVE WILL TEAR APART...AGAIN!
Depois enrolamo-nos com um gato pingado que tem tanta piada que até se nos amolece o coração e pensamos (totalmente embriagados): This love will not tear me apart again!
...Mas vai...nós é que ainda não sabemos!

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