13 julho 2011

No supermercado

Ás vezes quando vou ao supermercado, ponho-me a ver as pessoas à minha volta a existir. A existir sim, porque a maioria de nós, quando vai ao supermercado, limita-se a existir, afinal de contas quem é que tem paciência para viver por listas de compras, comparações de preços e talões de desconto?
Fico-lhes a adivinhar a vida, a olhar-lhes os olhos encovados e tristes, as corcundas da alma que transparecem através dos sacos pesados, cabelos no rosto e a lingua entre os dentes, como quem faz um esforço muito grande para ganhar a batalha das asas enroladas dos sacos, que teimam em não se colocarem a jeito para serem seguras por dois dedos a fazerem gancho.
São autómatos, criados para desempenharem uma função e que mais não podem pedir do que a promoção dos frescos ás quintas-feira.
Passeiam-se pelos corredores famintos de emoções que escasseiam nos dias, e é por isso que se entusiasmam muito quando uma tabuleta lhes diz que podem levar três pelo preço de dois ou quando o pack dos iogurtes oferecem um copo cheio de cores fluorescentes e um qualquer boneco lhes acena com um ar muito simpático quase como se dissesse: "Eu vou mudar a tua vida, a partir de hoje tudo vai ser diferente!".
As crianças olham para a secção das goluseimas e acreditam piamente que, se puderem convencer os pais cansados e sempre sem tempo para brincadeiras, a comprar-lhas, serão felizes eternamente, e o tal bonequinho diz-lhes a eles: "Vou ser teu amigo para sempre, nunca mais vais ter que brincar com os legos sozinho!".
As senhoras da caixa têm quase sempre um de dois ares. Ou é uma rapariga muito nova, que nos surpreende que tenha já atingido a maioridade, e que está ali para atingir um qualquer sonho que necessita de auxilio financeiro, ou é uma senhora de meia idade, que já demasiado curvada, se limitou a chegar à conclusão de que há sonhos que têm que ser esquecidos e delegados para um segundo plano que pode bem nem sequer existir.
Uma ida ao supermercado é quase como passar o dia na Segurança Social, mas em que tudo está silencioso (ou silenciado).
É a derradeira guerra do dia-a-dia.
Uma guerra que em boa verdade nunca sabemos como ganhar e que muito poucas vezes conseguimos construir uma estratégia suficientemente forte para que a possamos, efectivamente, ganhar.
Valham-nos os talões, os descontos, as promoções, e todas as outras complicações!

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