21 julho 2011

Merda da televisão

há uma caixinha cinzenta cá em casa que nunca pára de funcionar. vou tentando pôr cobro à situação, mas depois a minha mãe já a dormir abre a olhaca e
-Eu estava a ver!
e eu consternada
-Mãe, já acabou há 1hora!
e depois carrego no botãozinho vermelho e vou para a cama, de computador atrás e cigarro enfiado no canto da boca.
acordo, invariavelmente, a meio da noite e aquela caixinha a debitar coisas que não entendo, ligada como se for magia e a minha mãe a dormir outra vez em frente áquela coisa e só me apetece partir aquilo tudo, deixar tudo em frangalhos.
a minha mãe gosta de ver novelas e os programas dos pasteleiros, sempre meia a olhar para aquilo para dentro, porque passados escassos minutos já se rendeu e os olhos fecham quase sem dar conta e depois mudo de canal e comovo-me muito com aqueles filmes antigos cheios de beijos e amores proibidos e olho para o lado, para a minha mãe adormecida e penso que dentro da sua cabeça uma história igualzinha e eu sempre a comover-me muito, a largar umas lágrimazitas com trago salgado e quero partir aquilo tudo outra vez.
que maneira baixa e pedante de controlar as gentes este mundo de celofane, que entretém de meia tigela aquelas pessoas todas a sofrerem tanto que mete dó e as suas vidas ali, escarrapachadinhas na caixa cinzenta para quem as quiser ver, a celebração da loucura, do sangue arrebanhado, das mentiras, do facilitismo com que se embrenham nas nossas cabeças e nos comovem tanto, tanto.
e a minha mãe a dormir em frente à merda da televisão quase a ver, quase a acreditar, quase a viver aquilo, quase a querer partir aquilo tudo também e a não ter forças. a nunca ter forças para destruir aqueles castelos todos no ar. a nunca ter forças para ir para a cama antes que o programa acabe. a nunca ter forças para carregar no botãozinho vermelho e ir para a cama, de alma na mão e a realidade pespegada no peito.
merda da televisão, sempre a prometer aquilo que não vai cumprir, sempre a entorpecer e anestesiar um pouco mais da nossa mente, sempre a falar de sofrimento e medo e amor e lágrimas, sem saber do que fala. nunca sabe do que fala, a merda da televisão.

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