12 outubro 2011

Actores ou Os saltimbancos da alma

Se existe uma raça que eu não suporto, esta tem que pertencer à raça dos actores.
Sempre prontos, sempre adoráveis, sorridentes, amorosos e cultos. Sempre tão bem informados de tudo que até mete medo.
[e o brilho nos olhos dos actores...onde é que já se viu ter-se aquele brilho nos olhos?]
Detesto-os. Sempre que a minha vida, acidentalmente, se cruzou com um que ficou tudo virado do avesso. Mudei sempre de opinião. Passei do extremo de lhes detestar as rugas do rosto, até à loucura de lhes adorar os movimentos, a forma como são capazes de transformar aquilo que não está, numa coisa banal tão unicamente possivel, tão incontestavelmente palpavel.
Quando os actores sentem alguma coisa ela parece que lhes é cuspida pelos olhos, que os envolve uma aurea de infinitas possibilidades e os sonhos mortos ressuscitam [não miraculosamente, qual banha da cobra de 3 tostões] como se não fizesse sentido que fosse de outra forma.
Têm a confiança de quem há muito aprendeu a dominar a arte da ludibriação e rejubilam com as infinitas formas e modos com que conseguem convencer alguém de que tudo aquilo que era certo, não, é uma erro. Crasso.
Os actores obrigam-nos a querer saber mais, a descobrir a arte de encorporar toda uma outra vida e personalidade num piscar de olhos.
[e vêem.vêem como ninguém]
Quando olham para nós, quero dizer, quando olham directamente para nós, é como se nos despissem e nos perscrutassem a alma. Descobrem-nos todos os podres, arrasam-nos.
São seres pacientes, cheios da manha de uma criança de 5 anos. São seres perigosos porque uma vez que entrem
[qual furacão]
na nossa vida, não desaparecem até que tenham arrebanhado de nós todas as verdades e certezas.
Quando um actor diz:
hoje estas muito bonita!
pode querer dizer todas essas palavras, tecê-las letra por letra, e ainda assim juntar-lhes tantas outras que eles acham que nuncaa iremos saber quais são.
Roubam-nos as verdades mas não permitem que as suas sejam roubadas.
São criaturas às tantas egoístas. Criaturas vampiras. Julgam conhecer-nos e a verdade é que o mais provavel é que conheçam.
È mais provavel, aliás, que nos conheçam desde o primeiro momento em que nos puseram a vista em cima e nós
[a passar estrada fora do sinal, a beber café, a fumar cigarros, a pensar que somos impenetráveis].
E eles ali, silenciosos, pacientes, a verem-nos e saberem de cor a cor do nosso cabelo, a saberem melhor que nós que se passámos a estrada fora do sinal foi porque tinhamos a cabeça estatica num palco qualquer que nos aceitasse os defeitos, as cicatrizes e os lados errados do coração, porque afinal de contas... seria apenas teatro.

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