23 janeiro 2012

"Aqueles que andam por aí" de A.L.Antunes

"As pessoas não morrem: andam por aí.
(...)
Os cemitérios são lugares vazios, só árvores, sem defuntos, só a gente, que arranjamos as campas, sem entender que não existe ninguém lá em baixo. Para quê visitar ausências? Uns pardais nos choupos, nada. Que sitios tranquilos, os cemitérios, que inútil a palavra defunto.
Segredam-nos
-Não faleci, sabes?
e não faleceram, é verdade, continuam, não na nossa lembrança, continuam de facti, pertinho. Quase sem ruido mas, tomando atenção, percebem-se, quase não ocupando espaço mas, reparando melhor, ali, iguais a nós, tão vivos.
Andam por aí, pertencem-nos, pertencemos-lhes, não deixámos de estar juntos: quando é necessário poisam-nos a palma no ombro.
(...)
Não faço nenhum livro agora, ando vazio, e o vazio começa a inquietar-me. E se isto acabou? Terei secado? Apareceu uma coisa mas não dava, de maneira que fiquei sem nada.
As falsas partidas, os equívocos, pensar que se consegue e não se consegue. O que julgarão desta impotência aqueles que andam por aí?"

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