14 janeiro 2012

Memória Descritiva (Cap. I, parte II)

Isto para te explicar, Diogo, que eu também já tive o coração partido, passei semanas a tentar compreender o porquê de ela nem um sorriso me ter dirigido e vê bem onde estamos agora. Conheço-lhe todos os traços, sei-lhe o sorriso de cor e aprendi que a tua avó, que continua sem saber lidar com os assuntos do coração, quando gosta muito de alguém foge-lhe do olhar. Amo-lhe essa faceta, se não fosse pela suposta indiferença com que me tratou na noite das rifas não estaríamos casados agora, quase com 50 anos de aliança no dedo.
Para mim, que era um mariolas com a mania (todos tínhamos a mania naquela altura), ela teria sido só mais uma conquista e rapidamente teria seguido para outra, talvez aquela amiga da tua avó que se desfazia em risinhos sempre que eu aparecia, a Lurdes, conhece-la, a colega da avó que nunca casou e vive na rua abaixo da nossa.
            Não contes esta minha inconfidência à tua avó, mas sempre julguei que se lhe tivesse dado troco seria ela, e não a tua avó a levar comigo todos estes anos.
            O amor tem destas coisas, embrulha-se em nós sem que nos apercebamos e quando damos por ele já se nos agarrou à pele e à alma. Do verdadeiro amor, Diogo, temos muito pouco a dizer.
            Quando chegamos a velhos acabamos a julgar que todos os que têm menos idade que nós não sabem nada da vida ou do amor, e eu cometi esse erro crasso contigo, ao julgar que eras demasiado novo para teres um desgosto amoroso, por isso fiquei tão surpreendido quando soube que era essa a origem da tua mágoa.
            Quando começaste a baixar as notas e a faltar às aulas, julguei-te numa típica fase de rebeldia, a revoltares-te contra os teus pais e com o sistema. O teu pai queixava-se de que chegavas a casa a tristes e más horas e que nunca falavas, enfiavas-te no quarto e a tua aparelhagem berrava músicas que falavam da escuridão e do abismo. Enganei-me novamente.
            Depois das férias começaste a fazer voluntariado no IPO e eu fiquei mais tranquilo e orgulhoso de ti. Via-te um pouco mais feliz e entusiasmado, se bem que a sombra no teu olhar nunca a vi desaparecer.
            Uns meses mais tarde a noticia de que uma das crianças com leucemia tinha morrido e tu a deixares de ir, a comunicares o que tinha acontecido com lágrimas nos olhos e a nunca mais quereres falar sobre isso. A sofreres mais uma vez.
            Como de costume todos julgámos que aquilo passava, o teu pai sempre sem entender e a dizer que só “te estavas a deitar na cama que tinhas feito”, “Compõe-te!”, dizia ele, e tu sem sequer olhares para ele, a fingires-te um corpo que acidentalmente se tinha esquecido de existir.
            A tua avó ficou um pouco preocupada, dizia que estavas tão magro que até metia dó, fazia muitos bolos que deixavas a ganhar bolor, nem lhes tocavas.
            A tua irmã, mais nova e inocente e por isso a mais sábia de todos nós, era a única que deixavas entrar na tua clausura. Por algum motivo ela compreendia o teu silêncio, e deixava-se ficar deitada ao teu lado na cama até acabar por adormecer.
            Uns dias mais tarde o telefonema do teu irmão a dizer que estava no hospital, que te tinhas tentado suicidar.

“Estar sozinho é treinarmo-nos para a morte”, ouvi Louis-Ferdinand Céline gritar aos meus ouvidos.
           
Para mim foi um choque tremendo, mais do que imaginar a tua dor, não consegui compreender as tuas motivações. A tua avó ficou perdida, a sua concepção do mundo através dos ensinamentos da religião diziam-lhe que a mera ideia era inconcebível, uma atrocidade. Chorou, muito agarrada a mim.
            Metemo-nos num táxi e quando lá chegamos não nos deixaram ver-te, “só pais” dizia o enfermeiro que fingia empatia, e eu a querer dizer-lhe que só tinhas pai, que a tua mãe há muito havia desaparecido e que eu, que era teu avô, te era pai muito mais que duas vezes.
            Ficámos muito tempo naquela sala de espera fria, cheia de pessoas que não compreendiam, tal como nós, os desígnios da vida. Os médicos passavam a correr sem nunca olharem para nós.
            O teu irmão desfazia-se em mil telefonemas, a avisar toda a gente. Confesso, Diogo, que quis pará-lo, dizer-lhe que achava que tu não quererias que meio mundo soubesse do que tinhas feito, por certo confundiriam tudo e julgariam um sofrimento profundo e atroz por fraqueza e cobardia.
            Eu não sabia porque o tinhas feito, nem como, nem onde, mas sabia que se havia coisa que tu não eras era fraco ou cobarde. Por isso quis tirar-lhe o telefone da mão e atirar com aquilo pia abaixo.
            A tua avó, que sempre me compreendeu os gestos e tiques, a segurar a minha mão e a apertá-la com força, a impedir-me. Agradeço-lhe agora, sei que o que ele fazia não era gritar aos quatro ventos que te tinhas tentado suicidar, pretendia apenas dividir a ideia da morte com alguém, amainar a dor através da partilha.


(TO BE CONTINUED...)

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