28 janeiro 2012

Memória Descritiva (Cap. I, parte III)

Quando nos deixaram ver-te finalmente, sempre individualmente, não mais que uma pessoa de cada vez e durante escassos minutos, fiz um esforço muito grande para segurar o coração dentro do peito e as lágrimas dentro dos olhos. Estavas ainda meio zonzo, provavelmente efeito dos comprimidos e calmantes e os teus olhos vazios, ainda meio para o lado de lá. Nunca compreendi se sabias que eu estava ali, quanto te toquei no ombro e disse “Diogo, filho”, tu estremeceste e os teus olhos procuraram os meus.
             Não tive força para segurar a linha invisível que nos unia o olhar e afastei-me para impedir as lágrimas de se soltarem. Desculpa por isso, Diogo, mas este teu velho avô foi um menino pequeno e teve medo, voltou à infância e, de repente, não eras tu ali deitado, era o meu pai com ar amarelado e doente, a cuspir sangue e a deixar, gradualmente, de respirar.
            Quisemos ficar para te levar para casa mas o mesmo enfermeiro que fingia empatia (como dizer-lhe que ele não percebia nada, que os anos de estudos podiam ter-lhe ensinado a dar injecções e a administrar medicamentos, mas que nunca lhe poderiam ter ensinado, porque não existe nenhum livro que ensine, a dizer adeus a alguém que se ama) a dizer-nos que terias que ficar em observação e que, depois disso, ainda terias que ir a uma consulta de psiquiatria.
            Imaginei-te sozinho e perdido naquele hospital frio, a acordares sem saber onde estavas e a não teres ninguém para te abraçar, como fizeste quando te perdeste na feira de Estremoz e te agarraste a mim com muita força quando o polícia finalmente nos encontrou. Imaginei-te a seres questionado e a teres a tua alma escrutinada por alguém que de ti nada poderia saber e que te olharia como mais um jovem decadente em busca de atenção.
            No carro do teu pai durante todo o caminho não dissemos uma única palavra, ouvia o teu irmão fungar e a esconder as lágrimas dentro do casaco e o teu pai com os olhos fixos na estrada, a tentar não acreditar. Lembro-me pouco do percurso, sei que via as pessoas passarem e os carros buzinarem e nada daquilo fazia sentido para mim.
            Quando chegámos a casa, a tua avó preparou um chá e ficamos todos muito quietos, sentados na sala. Um silêncio aterrador, a iminência do desastre, a cabeça de cada um de nós com certeza a formular e procurar todos os possíveis motivos para o que tinhas feito, em busca dos sinais que não vimos a tempo, mas que tinham que estar lá.
            A culpa, Diogo. Um sentimento de culpa muito grande por não te termos escutado com mais atenção. E a raiva por não termos estado lá para te obrigar a falar em de engolires o que sentias, a obrigar-te a tomar às toneladas o amor que temos por ti em vez dos comprimidos que engoliste, a obrigar-te a explicares-nos a origem do teu sofrimento em vez do teu pai sempre a dizer “Compõe-te rapaz. As raparigas não gostam de um homem sempre a chorar pelos cantos”, e a rir-se muito alto.
            Só posso imaginar como estas palavras te devem ter magoado, como as deves ter sentido como facas a espetarem-se na tua carne já tão aleijada. Mas sabes Diogo, não culpes o teu pai nem lhe guardes mágoa. Quando a tua mãe foi embora aquilo acabou com ele, julgo que tenha matado todas as esperanças e ternuras que ele tinha. Sei que fez o melhor que sabia. Ficar sozinho a criar três crianças e ainda ter que colar pensos rápidos no coração para não se esvair em sofrimento ao mesmo tempo, não pode ter sido fácil.
            Eu e a tua avó ajudávamos sempre que íamos podendo. Ficávamos com vocês muitas vezes e íamos buscar-vos todos os dias à escola, como tão bem te deves lembrar. O teu pai refugiou-se no trabalho porque vocês deviam recordar-lhe a tua mãe, e ele não sabia o que fazer com o vazio que ela deixou na vossa casa.
            Fomos viver convosco durante uns tempos, “só até que tudo volte à normalidade” dizia a tua avó, ignorava que a normalidade nunca iria voltar e que não adiantava ensinar o teu pai a cozinhar quando ele ia regressar e casa e nunca mais teria a tua mãe para o abraçar.
            Foi aí que começou a tua penitência? Julgo sinceramente que não. Eras muito novo e não te recordas provavelmente da tua mãe. Não quero com isto retirar valor ao peso que uma mãe tem, não me interpretes mal, mas tu reagiste bem, continuaste a brincar e a sorrir com os teus irmãos, e o sufoco que tínhamos por temermos o vosso bem-estar foi passando. Não, estou quase certo que tudo se precipitou depois daquelas férias.
            Quando finalmente recebemos o telefonema do hospital ficamos em suspenso a escutar as monossílabas do teu pai para o lado de lá e depois o grito dele “O quê? Ele fez o quê?” e uma lágrima tímida a escorrer-lhe por fim pela cara a baixo. “Compreendo, irei o mais rapidamente possível.”, e depois a pousar o telefone muito devagar e a dizer ao teu irmão que fosse juntar alguma da tua roupa enquanto ele ia buscar os teus produtos de higiene.
            A tua avó a ficar muito inquieta, sem compreender o que se passava e o teu pai sem responder a nenhuma das nossas questões, a andar rápido da sala para a casa de banho, da casa de banho para o teu quarto, a apressar o teu irmão e ele, coitado, sem compreender também mas a obedecer. Via-lhe as mãos a tremer e a deixar cair uma t-shirt com a pressa. A tua avó agarrada à tua irmã (ou a tua irmã agarrada à tua avó?) e eu a ajudar o Bruno. A tocar-lhe no ombro para o sossegar e a pegar na t-shirt caída no chão. Quando a segurei, lembro-me, senti o tempo parar de repente e uma serie de imagens tuas com ela vestida passaram pela minha cabeça.
            Chegámos ao hospital com a tua mala e uma enfermeira veio ter connosco, saber se éramos a família do Diogo Gomes e a indicar-nos o caminho.
            Sabíamos que tinhas atacado dois enfermeiros e um segurança quando acordaste e que te tinham injectado um calmante. A psiquiatra parecia considerar perigoso que regressasses a casa e ficarias internado alguns dias.
            Quando chegámos á porta do quarto o teu pai deu-me a mala e disse-me que não era capaz, que teria que ser eu a entrar. Não consigo ainda hoje explicar-te como me senti perdido quando rodei a maçaneta e te vi deitado naquela cama, preso a ela pelos pulsos e tornozelos.
            Abracei-te com todas as forças que tinha e choramos os dois durante muito tempo. Não queria deixar-te ali sozinho, a olhar-te nos olhos vi-te uma solidão muito grande, senti-me pequeno e inútil e fraco e pedi-te desculpa. Pedi-te desculpa todas as vezes que a minha voz me deixou até não restarem senão sussurros e soluços.
            Aquele quarto frio e cheio de fragmentos de coisas que não entendia, cheio dos destroços em que sentia te estavas a tornar, um medo enorme de te perder ali para sempre.
            Eu sozinho no olival a chorar. Devia ter cerca de 6 anos e caí de uma oliveira, com a perna partida era incapaz de andar. Minutos que pareciam horas e eu sempre sozinho, com muitas dores e já a julgar ficar ali abandonado para sempre, a criar dentro da minha cabeça ideias de fim e de morte, sem saber bem o que nenhuma das duas queria dizer. Tive medo como agora, de não ser capaz de me salvar do caos, a diferença era que naquele momento quem estava caído, perdido, sozinho e com dores eras tu e eu, velho, a amar-te tanto sem saber que a tua dor, o teu género de dor, não podia ser curada com analgésicos e gesso.

(TO BE CONTINUED...)

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