11 janeiro 2012

Nova ode ao silêncio

Hoje não me apetece falar. Nem ouvir.
Só quero pegar no ruido na palma da mão e engoli-lo.
Calar o mundo, emudecê-lo. Zangar-me com ele como se fosse uma criança, mandá-lo dormir.
Hoje só o silêncio, só as vozes dentro de mim. Todas. Os pulmões ofegantes. O coração ritmado. O estômago a deglutir o resto do almoço. O meu amigo imaginário a olhar-me de soslaio e a contar-me tod a a verdade acerca de quem sou, como só ele o sabe fazer.
Hoje só eu e ele.
Se o mundo emudecer, amigo, prometo que não discuto contigo, prometo que não contra-argumento.
Juro que te dou razão e escuto atentamente enquanto me dizes que não vale a pena, que não merece o esforço, que se me embrulho em lençóis de arame farpado é porque fui eu quem os teceu. Que devo retirar daí o meu cavalo e pregar para uma freguesia de onde se veja o Sol bater no rio e onde as pessoas só saibam falar de amor.
Juro, amigo que existes dentro de mim, amigo que entendes, amigo que não me temes nem julgas, mas que me esfregas a verdade no rosto, que sou até capaz de te dar a minha mão, de sorrir-te muito, de transformar a nossa relação amor-ódio numa em que só mãos dadas e olhares cumplices.
Só eu e tu e a nossa verdade. As nossas cicatrizes e nós a rirmo-nos delas. Eu a lamber as tuas e tu a lamberes as minhas.
Mas tem paciencia, mundo, cala-te só um bocadinho.
Encosto o rosto à janela e não sinto nada. Passo os dedos sobre o papel e ele não fala comigo. Deixo-me ficar muito tempo no chuveiro mas a água que escalda não aquece. Vejo as noticias e nada me comove.
O burburinho constante mata aquilo que importa.
Hoje quero saber a verdade e gostar dela.
Hoje quero aceitar com naturalidade que se o mundo não se cala, eventualmente esgotada calar-me-ei eu. Sempre. Para sempre.
Eu e tu, amigo. Eu e tu, em silêncio. Eu e tu dentro do mesmo único corpo. Vamos, agora.
Se o mundo não se cala, juro que quem se cala sou eu.

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